urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta Em linha recta Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. LiveJournal / SAPO Blogs Cristina Nobre Soares 2019-09-21T13:33:47Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:282731 2019-09-21T14:26:00 A amizade não correspondida 2019-09-21T13:26:19Z 2019-09-21T13:33:47Z <p>Poucas coisas doem mais do que uma amizade não correspondida. Às vezes, até doem mais do que um amor não correspondido. Engraçado, tanta bibliografia sobre amor e dores de corno, quilómetros de poesia. Sobre a amizade não correspondida nada. E tanto que podíamos dizer sobre aquela pessoa que achávamos o máximo, perfeita para ser nossa amiga, que nos fartámos de convidar para tomar café e beber uns copos, com quem planeámos tantas conversas interessantes, a quem ligámos tantas<span class="text_exposed_show"> vezes a perguntar como estava e que nunca podia, que estava sempre muito ocupada, muito indisponível, muito ausente. Que nunca nos ligou de volta. Que nunca mostrou o mesmo entusiasmo que nós. Que nos trocou por outros amigos, para os quais afinal não estava tão indisponível. Que nunca nos achou suficientemente interessantes para nos tirar desse limbo sem compromisso chamado "pessoa conhecida". Não, sobre isto ninguém fala, nem escreve, nem rima. Como se fosse um dor menor. Coisa de gente imatura, falhada e patética, ou que simplesmente não sabe como é vida. É pena. Era capaz de dar boa literatura. Digo eu.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:282398 2019-09-17T22:10:00 Sala de espera 2019-09-17T21:10:26Z 2019-09-17T21:10:26Z <p>Na sala de espera do hospital está uma mulher de máscara e lenço de cornucópias na cabeça sentada à minha frente. Ao lado dela, um miúdo dos seus nove, dez anos. O miúdo enfia as mãos nos bolsos enquanto espera que o chamem para a pediatria. A mulher recosta um pouco a cabeça e fecha os olhos. O bebé da rapariga com unhas de gel azuis começa a choramingar e ela levanta-se para o embalar. Penso que essa rapariga não deva ser muito mais velha que a minha filha. Terá quantos? De<span class="text_exposed_show">zassete? Dezoito anos? Chamam alguém pelo intercomunicador e a mulher do lenço de cornucópias levanta-se com o miúdo pela mão. O bebé da rapariga das unhas de gel continua a choramingar e ela tenta distraí-lo com qualquer coisa na janela enquanto lhe dá beijos na testa. Um homem tira uma garrafa de água da máquina. Chamam um João Manuel, uma Maria da Luz, um Martim, uma Elsa Cristina, um Joaquim com um nome e apelido que ninguém percebe. Entre os nomes vejo as horas no telemóvel. Abro um e-mail. Uma pessoa aqui demora uma eternidade, diz uma mulher de cabelo muito curto e muito branco. Há alguém que concorda com ela. A mulher de lenço de cornucópias volta, pela porta dupla, com o miúdo pela mão. Mas antes, volta-se para as pessoas da sala de espera e diz no que me pareceu ser um suspiro: as melhoras. Foi a única que o disse.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:282167 2019-09-14T19:49:00 Coisas de árvores 2019-09-14T18:49:48Z 2019-09-14T18:49:48Z <p>Depois de almoço, ao café, a minha amiga comentou o calor, não é normal para esta altura do ano, disse. Respondi-lhe que não, pois que não era, hoje até tinha reparado, na rua que desce junto ao parque, na quantidade de folhas castanhas no passeio. Ainda é cedo para tanta folha no chão e fugiu-me um bocadinho a conversa para a senescência das folhas. Volta e meia acontece-me, dá-me um entusiasmo que penso que já não tenho e do nada ponho-me a falar sobre árvores. Ainda no ou<span class="text_exposed_show">tro dia deu-me para comentar qualquer coisa, a meio de um almoço com outros amigos, sobre o abrunheiro-dos-jardins e o quão as prunóideas ficam bonitas na Primavera, por causa da floração, mas que não era a minha árvore de arruamento preferida, que gostarei sempre mais das olaias. E dos lódãos-bastardos, mas estes por me terem feito companhia durante uns bons anos durante as minhas subidas e descidas da Luís de Camões e uma pessoa afeiçoa-se à sombra de todos os dias e ao escorregar nos dias de chuva. E por causa do nome claro, lódão-bastardo é imponente, caramba. Há árvores com nomes lindíssimos. Como o carvalho negral ou pinheiro de Alepo. Disse os nomes muito devagarinho para perceberem a beleza do som. Depois, apercebendo-me da triste figura que fazia, calei-me. Não sem antes acrescentar que mesmo com um nome menos fácil de dizer a mais bonita para mim era mesmo a Gingko biloba e agora, com o Outono, ainda mais bonita fica. Essa todos conheciam.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:281893 2019-09-11T09:28:00 18 anos 2019-09-11T08:28:59Z 2019-09-11T09:02:00Z <p>No dia 11 de Setembro vim para casa à hora de almoço. Estava com uma gripe terrível, cheia de febre. Na altura fazia um estágio no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e, ao fim da manhã, a Julieta disse-me, vai mas é para casa que estás boa é para te enfiares dentro da cama. Aparentemente isto não interessa nada para a história, só para mim, temos este hábito de dar detalhes supérfluos que só fazem sentido para nós e que nos põem no centro de tudo. Cheguei a casa, <span class="text_exposed_show">deitei-me no sofá da sala, tapei-me com uma manta, tomei um comprimido e liguei a televisão. Passava a notícia (tenho a certeza que era na SIC) de que um avião fora de encontro a uma das torres do World Trade Center. Um acidente. Minutos depois, qualquer coisa explodia noutra torra. Que coisa, pensei eu, queres ver que o helicóptero dos bombeiros se rebentou na outra torre? Que tótós... Mas os jornalistas começaram a disparar comentários à toa. Alguma coisa se passava. Minutos depois o mundo, o nosso mundinho mudava. Era um ataque. A minha mãe ligou-me, acho que liguei à Rita, o Hugo estava no campo. Havia medo nas conversas. Especulámos muito. É normal que o façamos quando pressentimos que as coisas não vão voltar a ser as mesmas. E não voltaram a ser as mesmas. Mesmo quando essas coisas que mudaram se tornaram normais, tão normais que já nem ligamos. Quando explodir uma bomba não sei onde e morrerem não sei quantas pessoas se tornou banal ( O tempo banaliza tudo? Ou é a memória que o faz?) A dada altura desliguei a televisão. A febre não baixava, puxei a manta e acho que dormi umas horas. Ou 18 anos. Não sei.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:281774 2019-09-09T19:22:00 Capeline 2019-09-09T18:22:15Z 2019-09-09T18:26:34Z <p>A mãe da Marta guardava o vestido de noiva numa mala debaixo da cama. Uma vez mostrou-nos. Tinha uma gola alta de renda da Guipur a condizer com os folhos dos punhos e uma capeline de um tecido rosado parecido com tule. A Marta quis vesti-lo, olha que agora já não te casas, disse-lhe a mãe, enquanto ela rodopiava vestida de renda de Guipur, descalça na carpete de flores azuis. Depois, a mãe da Marta contou-nos que tinha casado virgem e que o irmão morrera nove dias depois, em Moçambique, ao pisar uma mina. Olhou para mim, a Marta pôs a capeline e eu baixei os olhos.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:281552 2019-09-04T10:56:00 Antes eles que nós 2019-09-04T09:56:59Z 2019-09-04T09:57:39Z <p>As mulheres juntavam-se no anexo onde cozinhavam, apesar de a casa ter uma cozinha toda equipada, mas essa nunca era usada. Para não sujar, diziam. Naquele anexo, para onde iam os electrodomésticos velhos e as loiças escaqueiradas, faziam as refeições, amanhavam os coelhos e os frangos, esfolados e depenados no pátio, aproveitando-lhes o sangue num alguidar de barro, se acaso fosse dia de cabidela. E falavam da vida alheia. Sabiam da vida de todos, de quem fazia o quê, de que<span class="text_exposed_show">m era visto com quem, do que alguém teria dito sobre o que ouvira dizer de alguém, do carro de fulano, ah, que ele parece que está muito bem, olha-me aquele carrão e diz que o comprou a bater o dinheiro todo, dos terrenos que se vendiam, dos desempregos, dos que deixavam de ter onde cair mortos, das cordas ao pescoço. E dos podres, especialmente dos podres, que se contavam sempre em meias frases, cala-te boca, é melhor estar calada, sabes lá tu o que para ali vai, com uma satisfação ou uma espécie de alívio, por saberem que havia quem estivesse pior do que elas, o mesmo que punham quando falavam de acidentes e doenças, caixões fechados por o corpo do defunto já não estar capaz, pés todos roxos, feridas abertas e purulentas, cancros sem remédio, abriram-no e fecharam-no não havia nada a fazer, coitadito. E respiravam fundo, enquanto partiam os coelhos e os frangos com uma pancada de mão aberta no cutelo. Olha, antes eles que nós.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:281141 2019-09-03T12:56:00 De resto, nada de novo 2019-09-03T11:57:01Z 2019-09-03T12:10:15Z <p>A mulher da mesa ao lado queixa-se do emprego, parece que as colegas de trabalho são umas grandessíssimas cabras, da saúde, há duas semanas que não dorme, as análises não estavam grande coisa e não pode comer coisas muito temperadas, embora a sogra, a casa da qual vai almoçar quase todos os dias, não queira saber, e do marido, que não lhe liga nenhuma e não faz nada em casa. A vida é-lhe um peso imposto pelos outros. A velha que costuma estar à janela a ver quem passa, agora, com o calor e a rua vazia, vem sentar-se na paragem do autocarro, à espera que o tempo passe. Ando a ouvir o “Ar de Rock” do Rui Veloso. De resto, nada de novo.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:280958 2019-08-29T18:28:00 A Greta e os cestos de pão e peixe. 2019-08-29T17:28:38Z 2019-08-29T17:28:38Z <p>Acho engraçada esta divisão entre os que gostam da Greta e os que não gostam da Greta. Tipo gostar ou não de cozido. Por estas redes sociais acima ( ou abaixo) as paixões dividem-se entre o bota-abaixismo fatela contra a miúda e a sua sacralização com um piquinho a Sãozinha de Alenquer. A Greta tem 16 anos. Tal como todos nós já tivemos 16 anos. Uns com mais sangue na guelra do que outros. Com mais convicções do que outros. Com boas intenções ou nem por isso. A Greta faz-nos<span class="text_exposed_show"> pensar, caraças, eu com a idade dela o mais radical que fazia era dizer mal do Cavaco. Ou mandar vir contra a comida da cantina. E mesmo agora, com mais uns anos em cima, a coisa fica-se por umas bocas por aqui, uns </span><div class='ljparseerror'>[<b>Error:</b> Irreparable invalid markup ('&lt;a [...] type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*n&quot;}&quot;&gt;') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]<br /><br /><div style="width: 95%; overflow: auto">&lt;p&gt;Acho engraçada esta divisão entre os que gostam da Greta e os que não gostam da Greta. Tipo gostar ou não de cozido. Por estas redes sociais acima ( ou abaixo) as paixões dividem-se entre o bota-abaixismo fatela contra a miúda e a sua sacralização com um piquinho a Sãozinha de Alenquer. A Greta tem 16 anos. Tal como todos nós já tivemos 16 anos. Uns com mais sangue na guelra do que outros. Com mais convicções do que outros. Com boas intenções ou nem por isso. A Greta faz-nos&lt;span class=&quot;text_exposed_show&quot;&gt; pensar, caraças, eu com a idade dela o mais radical que fazia era dizer mal do Cavaco. Ou mandar vir contra a comida da cantina. E mesmo agora, com mais uns anos em cima, a coisa fica-se por umas bocas por aqui, uns &lt;a class=&quot;_58cn&quot; href=&quot;https://www.facebook.com/hashtag/hashtags?source=feed_text&amp;epa=HASHTAG&quot; data-ft=&quot;{&quot;type&quot;:104,&quot;tn&quot;:&quot;*N&quot;}&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span class=&quot;_5afx&quot;&gt;&lt;span class=&quot;_58cl _5afz&quot; aria-label=&quot;hashtag&quot;&gt;#&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;_58cm&quot;&gt;hashtags&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; e uns perfis lindinhos “por qualquer coisa” comigo a fazer pose para a selfie. A miúda tem espírito, mexe-se, levanta o rabo por aquilo que acredita. Quantos de nós fomos assim? Pois. Foi o que eu calculei.&lt;br /&gt;Mas (vocês sabiam que havia um mas) o problema da Greta não é a Greta, é a algazarra à volta da Greta. O problema da Greta é o vazio cívico ser tão grande que o pessoal se agarra a algo que supostamente uma miúda de 16 anos representa, como se não houvesse amanhã, como se não tivesse mais nada. Ou como se tivesse apenas cestas vazias de pão e peixe, à espera que façam a multiplicação por eles (ou do que há-de vir). Para além disso, tem um certo lado perverso, um certo sacudir a água do capote, do “ah, isto agora só as novas gerações é que podem dar a volta isto, que nós já não temos estaleca”. Isto, sim, é o que me agasta no tema Greta. Só que disto a Greta não tem culpa nenhuma. &lt;br /&gt;Podem engalfinhar-se à vontade que não é o gostar ou não gostar da Greta que nos vai encher as cestas. É o perguntar: o que é que eu já fiz hoje para que isto mude? E, já agora, o que é que fizeram?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</div></div> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:280821 2019-08-23T11:55:00 Um café sem interesse nenhum 2019-08-23T10:55:58Z 2019-08-23T10:56:54Z <p>Gostava muito de conhecer o café de que tanto falas nos teus textos, disse-me uma amiga. É um café de aldeia, que também é padaria, respondi-lhe, não tem nada de especial. Tem fitas de plástico na porta, mesas de fórmica branca com porta-guardanapos a dizerem Compal, ladrilhos brancos no chão, uma arca com gelados da Olá, uma vitrina com sumos e leites achocolatados em baixo e bolos em cima (de lado, a fazer esquina, é só para o pão), um quadro de cortiça onde se afixam os an<span class="text_exposed_show">úncios de pessoas que engomam para fora, que dão explicações de matemática, que vão a casa fazer limpezas, das aulas de danças de salão da colectividade recreativa, das tasquinhas de verão, nas paredes algumas molduras com fotografias de Nova York e Paris, compradas na loja do chinês, mulheres velhas que levam os netos, mulheres mais novas que não trabalham, outras que não são novas nem velhas, de porta-moedas e saco de plástico dobrado debaixo do braço, que vêm só para esperar pela carrinha branca do peixe, que passa, se não me engano, duas vezes por semana, um tontinho, sempre com a barriga de fora, a quem a rapariga do balcão costuma dar bolos (fala-lhe como se ele tivesse quatro anos), a rapariga do balcão que não é sempre a mesma, há uma mais velha que tem um filho e o rosto manchado com pano e uma mais nova que só chega depois de almoço, que tenho ideia que também é dona. Homens há poucos, vão aos outros cafés onde só há homens. Tirando um ou outro velho que venha acompanhado pela mulher ou pela filha, por já não se orientar nem dizer coisa com coisa. Há miúdos que vêm ao pão, à hora das fornadas. À tarde, vêm aos gelados.<br />É um café como tantos outros, sem interesse nenhum.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:280540 2019-08-18T22:42:00 Por Macau 2019-08-18T21:42:40Z 2019-08-18T21:42:40Z <p>Em Santo Amaro, nos anos da passagem de Macau para a China, mesmo em frente à paragem onde eu apanhava o autocarro de regresso a casa, havia uma varanda com um grande pano preto que dizia “Por Macau” em letras pintadas a branco. Esse pano ficou lá pendurado durante anos.</p> <p>Macau dizia-me muito pouco. A única referência que tinha, para além da do livro de meio físico e social, era a Raquel da minha turma na 3ª classe. A Raquel tinha nascido em Macau, mas por causa do trabalho do<span class="text_exposed_show"> pai, que eu nunca soube qual era, os pais tinham regressado a Portugal. A Raquel tinha uns olhos amendoados que não eram bem orientais, mas também não eram como os da maior parte dos outros miúdos. E tinha uma espécie de caneta com oito cores de lápis que eu achava maravilhosa (escolhia-se a cor carregando nas cores na parte de cima da caneta). Invejava-lhe tanto essa caneta que a Raquel deixou-me levá-la para casa num fim-de-semana para eu poder fazer desenhos com ela. Não fiz desenho nenhum. Deixei-a guardada no fundo da mala da escola, sem lhe tocar, como se faz a um tesouro.</span></p> <div class="text_exposed_show"> <p>Tirando isso Macau não me dizia rigorosamente nada. Era apenas mais um resto anacrónico do império. Como eu o era. Como a Raquel. Como a Flora cujas histórias sofridas tanto me lembrei quando os alunos se juntaram no Pavilhão Polivalente da minha escola a cantar a canção do Luís Represas, por altura do massacre de Santa Cruz.</p> <p>Enquanto esperava pelo autocarro tentava imaginar como seria a pessoa que pusera aquele pano. Seria um velho a cheirar ao mofo dos valores da Exposição do Mundo Português? Seria um macaense? Ou seria apenas um desenraizado como eu? Nunca soube. Assim como nunca mais soube da Raquel nem da Flora. Tudo boas histórias para contar. Mas o autocarro entretanto chegava, chega sempre, e a vida ainda faz conta comigo para jantar.</p> </div> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:280285 2019-08-18T14:49:00 Agosto 2019-08-18T13:49:38Z 2019-08-18T14:13:19Z <p>Nas últimas semanas, na aldeia, aumentou o número de carros com matrícula estrangeira e o português traçado com palavras francesas. É Agosto. <br />Nos subúrbios da cidade também havia pais emigrantes. Não eram tantos como na aldeia, mas também os havia. Os filhos viviam com as  mães ou com os avós e, quando os pais vinham em Agosto, não havia festa nem algazarra, pois em Agosto, nos subúrbios, ficavam apenas prédios de estores corridos e o silêncio daqueles que não tinham dinheiro par<span class="text_exposed_show">a fazer férias. Por isso poucos davam pelos carros novinhos em folha, de matrícula francesa, suíça ou alemã, estacionados nas pracetas. O pai do Nuno trabalhava em Inglaterra, mas não vinha em Agosto. Vinha em Junho ou Julho, muitas vezes pelo Natal e sempre de avião. Se perguntávamos ao Nuno se o pai dele era emigrante ele respondia peremptoriamente que não, o meu pai não é emigrante, o meu pai é engenheiro numa grande empresa em Inglaterra, é como se trabalhasse cá, mas, por acaso, trabalha lá. Ser emigrante é uma coisa muito diferente. Por diferente eu sabia que ele queria dizer pior. Já na altura eu o percebia. Embora ainda hoje não o compreenda.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:279861 2019-08-17T22:06:00 Milá 2019-08-17T21:06:13Z 2019-08-17T21:06:13Z <p>A Milá tinha quarenta e tal anos e vivia sozinha por cima de uma loja de enxovais. Tinha muitas teorias sobre a vida e adorava dar conselhos sem que lhos pedissem. Nunca saiam à rua sem se arranjar convenientemente, pois nunca se sabe quem podemos encontrar. Sempre muito bem arranjadas, hem? Até para ir pôr o lixo! Disse-nos ela, enquanto folheava uma Hola e, com uma toalha turca à volta dos ombros presa com uma mola da roupa, fazia tempo para a tinta do cabelo (que não era l<span class="text_exposed_show">ouro, afirmava ela, mas castanho dourado médio). Mas Milá, dificilmente encontraremos alguém importante junto ao contentor do lixo, respondi-lhe eu. Nunca se sabe! Nunca se sabe! Disse ela.<br />O que é certo é que me lembro várias vezes desse conselho, mas normalmente a título póstumo, e, embora nunca tenha encontrado ninguém importante junto do contentor do lixo, é realmente verdade que se encontram pessoas nos sítios mas absurdos e inconvenientes. <br />Lembrei-me hoje de manhã da Milá, enquanto esperava pelo fim da centrifugação, mas, apesar de não me ter arranjado para ir à lavandaria pôr um edredão a lavar (estava lá apenas um casal de americanos), não foi por causa desse conselho. Foi por causa de outro:<br />- Nunca confessem nem em quem votam nem que livros lêem. Há sempre alguém com a mania que vos fica a cortar na casaca por causa disso.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:279574 2019-08-15T18:44:00 Vidas 2019-08-15T17:44:31Z 2019-08-15T17:44:31Z <p>Uma manhã, ao passarmos pela casa da Verónica para irmos para as aulas (fazíamos isto todas as manhãs, menos à sexta, dia em que o padrinho a levava de carro), a mãe dela apareceu à porta com o olho e o lado direito da cara todo roxo e a Verónica parecia que ia para uma festa, um vestido preto, muito justo ao corpo, todo cheio de pérolas pequeninas e a boca pintada de vermelho. Não dissemos nada. Ela também não. Nem mais à frente, quando passámos a praceta onde os rapazes das<span class="text_exposed_show"> motas se juntavam, nem quando passámos a farmácia, nem quando passámos o café, nem quando atravessámos a estrada. Só ao portão da escola é que ela disse, ontem a minha mãe caiu e aleijou a cara. Mais nada. E nós, pois, coitada. Mais nada. Ao fim do dia comentei com a minha mãe que a mãe da Verónica tinha caído e aleijado a cara. Tem um olho todo negro, disse eu. E a minha mãe, depois de um minuto ou dois de silêncio, abanou a cabeça e disse, vidas.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:279475 2019-08-13T16:16:00 Cinta 2019-08-13T15:16:56Z 2019-08-13T15:20:15Z <p>A minha vizinha do rés-do-chão era muito bonita. De cabelo louro, sempre muito bem pintada e arranjada. A minha mãe dizia que ela tinha ar de andar na rambóia, não sabia o que isso queria bem dizer, mas não devia ser bom. Cedo percebi que as mulheres que se arranjavam e pintavam muito tinham qualquer coisa de proibido e reprovável que justificava o mal que as outras diziam delas.</p> <p>A única vez que entrei em casa dessa minha vizinha foi para ir buscar uma peça de roupa que a mi<span class="text_exposed_show">nha mãe tinha deixado cair do estendal. Das outras vezes dissera-me para esperar à porta, mas dessa vez pediu-me para entrar.</span></p> <div class="text_exposed_show"> <p>Estava ao telefone. Senta-te, disse-me antes de voltar a pegar no auscultador e apontou-me o sofá de veludo azul, com uma grande pelada num dos braços.</p> <p>- Desculpa, tive de ir atender a miúda de cima – Piscou-me o olho.</p> <p>Os tamboretes de pele de zebra, uma estatueta de uma lavadeira, um dente de marfim cheio de homens pequeninos por dentro, vários pratos chineses na parede, medalhas de bronze em pequenos suportes pretos por cima da televisão, os olhos dela pintados de verde metalizado, uma cigarreira de tartaruga com rebordo dourado, que ela abriu para tirar um cigarro, igual aos da minha irmã, o cheiro de penumbra e de janelas que raramente se abriam, o roupão cor de cereja a imitar seda, por cima do joelho.</p> <p>- Sim, ficamos para as sete e meia, mais coisa, menos coisa. Dou o jantar mais cedo à minha mãe e deixo-a a ver televisão.</p> <p>Pousou o auscultador. Vivia com uma mãe velha, que andava a custo, muito marreca. Olhou para mim.</p> <p>- Vamos lá buscar a roupa que a tua mãe deixou cair.</p> <p>Apertou melhor a laçada do roupão. O cigarro por acender entre os dedos. Parecia-me tão chique, tão moderna. Abriu a janela.</p> <p>- Que peça de roupa foi?</p> <p>Corei muito e respondi.</p> <p>- Uma cinta.</p> <p>Riu-se e entregou-ma.</p> <p>- Todas as mulheres acabam por se enfiar numa.</p> </div> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:279118 2019-08-11T22:16:00 Queda da folha 2019-08-11T21:17:16Z 2019-08-11T21:18:03Z <p>Hoje, a minha filha mostrou-me um recanto na vila que eu não conhecia. Sentámo-nos por debaixo de uma latada em frente a um muro de onde pendiam marmelos já feitos, só falta ganharem cor, comentei, a pensar que Setembro se aproxima por cada hora que se encurta ao fim do dia. E lembrei-me de uma empregada que tive, num tempo em que imitei uma vida burguesa, que uma vez me contou que os dias que se encurtavam lhe eram mais difíceis de levar. É quando me passam mais ideias tontas pela cabeça, ideias tristes e muito tontas, olhou para mim para se certificar que eu percebera o que ela quisera dizer e eu, sem saber o que lhe responder, comentei uma trivialidade qualquer sobre a queda da folha, perguntei-lhe pela minha camisa branca e fiz-lhe uma festa desajeitada no braço.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:278828 2019-08-07T20:20:00 Casaco de pied poule 2019-08-07T19:21:00Z 2019-08-07T19:21:00Z <p>Lembro-me da segunda vez que me senti desintegrada. Curiosamente não me lembro da primeira vez, mas tenho a certeza que foi a segunda por ter reconhecido aquela espécie de vergonha como algo que claramente já sentira. Ou talvez sempre me tivesse sentido assim e só dessa vez lhe tenha dado um nome. Vestia, nessa noite, um casaco de fazenda de retrosaria em “pied poule" preto e branco, costurado pela minha mãe e antes de entrarmos a minha amiga avisou-me:<br />- Agora, por favor, n<span class="text_exposed_show">ão te ponhas só a falar de política e das tuas ideias comunas, que aqui parece tremendamente mal e ainda fazes má figura.<br />Nesse momento percebi que o casaco me estava apertado nas costas e debaixo dos braços e passei a noite toda com um sorriso parvo, junto a uma mesa com aperitivos de queijo, evitando dizer fosse o que fosse e medindo os gestos, não fosse o casaco, eu ou aquela noite esgaçarem-se aos olhos de todos. A dada altura, um rapaz de camisa às riscas meteu conversa comigo. Perguntou-me por que razão estava eu ali sozinha e eu respondi, sem pensar, que talvez tivesse perdido um sapato de seda azul. Ele riu-se e disse, dela só gosto dos contos, a poesia tem mar e Grécia a mais. Apesar da blasfémia, também me ri, mas de alívio. Ficámos ali o resto da noite, eu desapertei um dos botões do casaco, disse-lhe que seria incapaz de votar no Cavaco Silva e pedi-lhe uma Cuba Livre com duas medidas de rum e pouco gelo. Nunca mais usei aquele casaco.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:278548 2019-08-02T11:09:00 Verde 2019-08-02T10:09:31Z 2019-08-02T10:09:31Z <p>Uma mulher, com um lenço verde enrolado à volta da cabeça e do pescoço, senta-se ao meu lado e puxa o filho para o colo. O miúdo diz que não quer e eu chego-me para a ponta do muro de maneira a deixar-lhe espaço suficiente para que se sente. Indico-lhe o lugar, a mulher agradece e diz para a criança: Senta aí, mas cuidado para não incomodar a moça. Sorrio com a palavra “moça” e reparo novamente no lenço (a minha mãe, dona de uma vasta gama cromática, talvez chamasse “verde es<span class="text_exposed_show">meralda” a este tom de verde) e na mulher, que tem um rosto jovem e muito bonito, faz-me lembrar as actrizes de cinema dos anos cinquenta. E lembro-me de outras mulheres de lenço que conheci. Eram lenços mais pardos, muitas vezes negros, atados por debaixo do queixo ou da nuca e os rostos delas eram sempre velhos. Mesmo que alguma delas usasse um lenço com este tom de verde certamente eu iria lembrar-me dele como pardo. Como os gatos à noite, como tudo o que nos convém.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:278478 2019-07-31T10:06:00 Buganvília 2019-07-31T09:06:39Z 2019-07-31T09:22:07Z <p>A caminho do café há uma casa com uma grande buganvília fúchsia. As buganvílias, especialmente as desta cor, são plantas belíssimas. Ao contrário do que muita gente pensa, não são as flores que lhes dão aquela cor exuberante, mas sim as brácteas, que servem para proteger as flores pequeninas, nas quais quase ninguém repara. Observo-a com um bocadinho mais de atenção. É realmente formidável, tapa quase toda a parede azul que dá para a rua, sobrando apenas as janelas, rasgadas <span class="text_exposed_show">até ao chão, onde a dona da casa costuma estar a ver quem passa, pensando, talvez, que os cortinados de renda branca a conseguem esconder. Conheço-a de vista, costuma ir ao mesmo café do que eu, e, embora fale de pessoas que eu não conheço, percebo que as maldiz, e com um certo gosto. Embirro com muita coisa na vida, mas não embirro com pessoas que dizem mal das outras. Eu também o faço. Convenhamos que a má-língua tem uma certa utilidade na nossa saúde mental: não só entretém bastante, e bem sabemos não há nada pior para os nervos do que o ócio, como tem propriedades analgésicas, pois enquanto andamos a embirrar com os outros não nos lembramos da grande merda que somos.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:278207 2019-07-28T20:45:00 Cinzeiro 2019-07-28T19:46:23Z 2019-07-28T19:46:23Z <p>Tenho um cinzeiro de vidro, um belo cinzeiro quadrado, um peso monstro permanentemente esquecido no aparador da sala, dado que cá em casa ninguém fuma. Comprei-o a pensar na imensa gente que na altura fumava, e sempre era uma coisa mais apresentável do que lhes indicar o pires do café para largarem a cinza. Agora, já quase ninguém fuma, e os que fumam fogem para a rua, desculpem, que tenho de ir fumar um cigarro, dizem eles com um ar entre a aflição e o de quem vai assaltar alguém à mão armada. E eu fico com um cinzeiro sem serventia nenhuma. E uma máquina de escrever. E discos de vinil. E um abre-cartas. Estou a ficar velha, caramba.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:277996 2019-07-27T09:19:00 Fim de Julho 2019-07-27T08:20:14Z 2019-07-27T08:20:14Z <p>O que tivesse de acontecer na avenida, que começava na esquina da lavandaria e ia até à escola secundária, fossem primeiros beijos, declarações ou fins de namoro, tinha de acontecer até meados de Julho. Depois disso a avenida esvaziava-se e ficavam apenas os prédios de estores corridos e as pracetas suspensas até Setembro. Foi num Julho desses que, sob o calor liquefeito de uma última tarde, que descobri que podemos perceber que alguém nos ama pela forma como diz o nosso nome.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:277750 2019-07-18T18:30:00 Em câmara lenta como na TV 2019-07-18T17:30:40Z 2019-07-18T17:30:40Z <p>Aos 22 anos eu não queria saber como seria aos 45. Nem sequer pensava nisso e se na altura houvesse uma app, duvido que quisesse saber. Aos 22 anos somos eternos e as pessoas de 45 parecem-nos gastas e cansadas. Aos 22 ter 45 fica-nos tão longe que temos a certeza que vamos demorar uma vida a lá chegar. Aos 22 a vida ainda passa em câmara lenta como na TV. A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:277265 2019-07-11T11:19:00 Mais devagar 2019-07-11T10:19:32Z 2019-07-11T10:19:32Z <p>Uma mulher, com as gorduras a sobrarem-lhe por debaixo do cós do soutien, entra no café a queixar-se do calor. Limpa a testa brilhante do suor, que raça, isto hoje já está a assentar bem. Deixe lá, diz a rapariga do balcão, já cá tardava o Verão. Isso és tu que és nova, diz a mulher. Quando chegares à minha idade vais ver o que é ter calor. E chegas lá mais depressa do que pensas, que isto um dia uma é pessoa nova e amanhã já está assim. A rapariga ri-se, é por isso que eu gosto do Verão, o calor faz o tempo passar mais devagar.</p> <p>(e eu penso, olha, isso é que era serviço.)</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:277217 2019-07-10T15:02:00 Susana 2019-07-10T14:02:49Z 2019-07-10T14:05:34Z <p>A minha tal amiga (não sei se já vos terei dito que se chamava Susana), não era bem minha amiga. Temos este comodismo de chamar amigos a quem se torne vagamente próximo. Como alguém que more do outro lado da nossa rua, com quem se troque receitas, bons dias e comentários sobre o tempo. Alguém que nos convide, de vez em quando, para entrar em sua casa, que nos sirva um café, embora nunca se lembre se bebemos com ou sem açúcar. Alguém que apenas nos ajude a ultrapassar a inérci<span class="text_exposed_show">a do tempo. Será isto um amigo? Não sei. Mas queria eu contar-vos que essa minha amiga, Susana, tinha outro hábito: mostrar o álbum de casamento. Um álbum de capa de couro com debruns dourados, com as páginas separadas por papel de seda. O tafetá do vestido, cor de marfim e não pérola como parece ser nas fotografias, dizia, foi mandado vir de encomenda, doze metros. Esta é a tia Mitó, já faleceu, que Deus a tenha, este senhor é amigo de infância do meu pai, o senhor Antunes, um homem cultíssimo, esta, de verde, é a minha prima Laura, médica nos Estados Unidos, ao lado, de gravata a condizer com o vestido, o marido, que é americano, mas uma jóia. Depois, fechava o álbum, acariciava o couro da encadernação, e dizia, é, sem dúvida, um dia que marca uma mulher. Mostrou-me o álbum duas vezes. Só depois me contou que não podia ter filhos.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:276772 2019-07-09T21:02:00 Parece que nunca aqui estivemos 2019-07-09T20:02:29Z 2019-07-09T20:02:29Z <p>A amiga do quarto vazio foi a mesma que me ensinou a fazer massa choux e a deixar a fruta das compotas a macerar em parte do açúcar de uma noite para a outra. Também me explicou o preceito das dobras da massa folhada, que nunca pus em prática por me parecer uma empreitada demasiado ambiciosa, acabando por deixar a receita esquecida dentro de um livro qualquer. Essa minha amiga também me ensinou tudo sobre lotes de café (e que o café de balão é o melhor de todos), tipos de chá<span class="text_exposed_show"> e que a carne deve repousar antes de ser servida. Para além de ser um repositório de trivialidades perfeitas a minha amiga tinha outra particularidade: não deixava cair uma migalha no chão enquanto cozinhava, deixando tudo impecável. Quando saíamos da cozinha, depois das aulas que me dava, dizia-me com imenso orgulho (daquele orgulho que se confunde, talvez, com alivio): Já reparaste? Parece que nunca aqui estivemos.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:276587 2019-07-08T13:54:00 8 anos vazio 2019-07-08T12:55:16Z 2019-07-08T13:08:23Z <p>Contou-me que, quando desistiram de tentar ter filhos, transformaram o quarto que esteve quase oito anos vazio, três ou quatro caixotes ao pé do guarda-fatos e uma bicicleta de ginástica que nunca foi usada, num quarto de visitas. Para os amigos que os quisessem visitar, passar um fim-de-semana a dar dois dedos de conversa e respirar o ar do campo. Compraram a mobília no IKEA, o Zé João montou-a, ainda esfolou um polegar a montar as mesinhas de cabeceira, e aproveitou uns tapetes velhos de uma prima que entretanto se mudara para o Porto. Ficou impecável, disse-me, parecia quase um quarto de hotel. Os amigos, tal como os filhos, nunca vieram. Ele era as vidas complicadas, a escola dos miúdos, a falta de tempo, a distância, que parece sempre maior quando somos nós a fazê-la. E ela voltou a pôr a bicicleta de ginástica no quarto. Para quando começar a fazer exercício. Nunca começou.</p>