urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharectaEm linha rectaNunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.LiveJournal / SAPO BlogsCristina Nobre Soares2021-02-02T15:47:54Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:3010012021-02-02T15:45:00Balancete2021-02-02T15:46:29Z2021-02-02T15:47:54Z<div><br /><div class="" dir="auto"><br /><div id="jsc_c_4j" class="ecm0bbzt hv4rvrfc e5nlhep0 dati1w0a"><br /><div class="j83agx80 cbu4d94t ew0dbk1b irj2b8pg"><br /><div class="qzhwtbm6 knvmm38d"><br /><div class="kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto"><span style="font-size: 14pt;">Cat Stevens na playlist, uma chávena de um chá estranho de hibisco e cereja, uma noite mal dormida, três cafés, um trabalho em atraso, um curso a começar daqui a umas horas, uma grande vontade de sair do ruído, alguns quadrados de chocolate a mais, um melro, um chapim-azul, mais uns tantos pássaros que não faço ideia do que sejam, a minha vizinha que veio contar que andam a destruir um ninho de vespas, uma miúda a passear o cão, menos trezentos e menos não sei quantos mais dias à espera que isto melhore, dois livros a meio e mais nada para dizer.</span></div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">“I listen to my words but they fall far below”</div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /><div><br /><div class="stjgntxs ni8dbmo4 l82x9zwi uo3d90p7 h905i5nu monazrh9"><br /><div class="l9j0dhe7"><br /><div class="bp9cbjyn m9osqain j83agx80 jq4qci2q bkfpd7mw a3bd9o3v kvgmc6g5 wkznzc2l oygrvhab dhix69tm jktsbyx5 rz4wbd8a osnr6wyh a8nywdso s1tcr66n"><br /><div class="bp9cbjyn j83agx80 buofh1pr ni8dbmo4 stjgntxs"><br /><div class="oajrlxb2 g5ia77u1 qu0x051f esr5mh6w e9989ue4 r7d6kgcz rq0escxv nhd2j8a9 nc684nl6 p7hjln8o kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x jb3vyjys rz4wbd8a qt6c0cv9 a8nywdso i1ao9s8h esuyzwwr f1sip0of lzcic4wl l9j0dhe7 abiwlrkh p8dawk7l" tabindex="0" role="button" aria-label="Coragem: 1 pessoa"> </div><br /></div><br /><div class="kb5gq1qc pfnyh3mw c0wkt4kp"> </div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:3004952021-01-28T15:54:00Espera2021-01-28T15:54:16Z2021-01-28T15:54:16Z<div dir="auto">No outro dia, depois de eu pagar as compras, a rapariga da caixa puxou de um caderno e uma caneta e perguntou-me:</div><br /><div dir="auto">- Se definisse este ano que passou numa única palavra qual era? É para um trabalho que ando a fazer.</div><br /><div dir="auto">Respondi sem hesitar.</div><br /><div dir="auto">- Espera. A palavra seria espera.</div><br /><div dir="auto">Ela apontou e olhou para mim.</div><br /><div dir="auto">- É verdade. Andamos todos à espera que isto passe não é?</div><br /><div dir="auto">- É.</div><br /><div dir="auto">Peguei nos sacos e saí. Fui a pensar até ao carro que não me referia apenas à espera das coisas grandes e importantes, de que todos esperamos. Claro que todos esperamos que cheguem as vacinas, que baixem os números, que a tal normalidade volte. Que "isto passe". Falava também das inúmeras insignificâncias que adiámos. Listei de memória todas as pequenas coisas que deixei suspensas neste ano que passou. Algumas nem eu sabia que existiam, ou se calhar sabia, mas temos este pudor (ou pensamento mágico) de achar que só os grandes problemas devem ser verbalizados e esquecemo-nos que são sempre as pequenas coisas que nos salvam a normalidade. Como se a moralidade das grandes coisas fosse a nossa salvação. Ah, coitados dos que acreditam nisto.</div><br /><div dir="auto">No meio da tal lista, que fui fazendo de regresso a casa, lembrei-me do meu sobretudo cor-de-rosa novo, há tanto tempo à espera para ver a luz do dia, à espera que tudo passe, de o levar para trabalhar, a um teatro, jantar fora.</div><br /><div dir="auto">Que se lixe, da próxima vez que vier ao supermercado visto-o. Antes que seja Verão outra vez.</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2999702021-01-27T17:51:00Reserva2021-01-27T17:51:27Z2021-01-27T17:51:27Z<div class="kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Desde segunda que cai uma chuva miudinha e passa na rádio uma música dos Oasis, a da banda sonora do “Butterfly effect”. Reparo que devia pôr gasolina, mas sinceramente nem para isso tenho paciência. Também não vou a lado nenhum. E se fosse, para onde iria? Todos os sítios parecem-me absurdamente iguais, a irem dar a lugar absolutamente nenhum.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Don't be scared (don't be scared)</div><br /><div dir="auto">Your destiny may keep you warm</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Lembro-me de não ter adorado o filme da primeira vez que o vi. Não gostei do fim. Mas também que fim poderá ter uma história de alguém que volta sempre atrás para mudar o que não lhe agrada no presente e que descobre que por mais que mude o presente este será sempre a mesma desilusão? Penso como teria sido este ano que passou se nunca tivesse havido pandemia. Se calhar uma bela merda, como tantos anos da minha vida já foram, só que aí a falta de ar seria só minha. Uma bela merda na mesma, mas com a diferença que podia fugir à vontade. Será que podia? Teria sempre de me levar na fuga. Se calhar é essa a diferença deste ano. Estarmos presos a nós mesmos e pouca coisa nos tiram tanto o ar do que o excesso de convívio connosco. Ligo o limpa-para-brisas, que neura de tempo. A luz da reserva acendeu.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Don't be scared</div><br /><div dir="auto">You'll never change what's been and gone</div><br /></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2994232021-01-26T10:05:00Contar carneiros2021-01-26T10:05:20Z2021-01-26T10:05:20Z<div dir="auto">Hoje, o dia foi longo. Tão longo que, quando terminou, dei por mim, e já era amanhã. Talvez por isso agora não tenha sono. Desço até à cozinha, faço um chá de camomila, a única tisana que tolero, todas as outras me agoniam, deito-me no sofá e pego numa manta. Chove lá fora (e a saturação do confinamento também faz com que, ultimamente, chova um bocadinho cá dentro). Dou por mim a pensar que se tivesse agora uma insónia, poderia escrever alguma coisa sobre isso. Sobre o deambular pelo silêncio da casa, a solidão da noite, a lentidão das horas, a vigília de uma escrita urgente e febril. Mas que sei eu sobre insónias? Eu que tenho um sono santo e para quem as duas da manhã sempre foram altas horas da madrugada? Bebo a tisana com o esgar de quem toma um medicamento (mas quem é que gosta de ervas fervidas com água, senhores?), abro o computador para escrever alguma coisa e lembro-me de uma história parva, uma zanga que tive com a minha professora primária a propósito da interpretação de um texto. Um texto sobre um miúdo que não conseguia dormir e que a dada altura, depois de a mãe tentar vários truques com ele (as coisas de que me lembro, valha-me deus, amanhã, se me quiser lembrar da lista supermercado só trago metade das coisas), o miúdo lá adormeceu. Perguntou-nos a minha professora o que é que o tinha feito adormecer. Eu pus o dedo no ar e respondi que tinha sido o piar da coruja, das cigarras (que deviam ser ralos) e o som da brisa noite. Muito bonita a tua resposta, Cristina, mas está errada, disse ela, foi por contar carneiros que ele adormeceu. Eu achei aquilo um perfeito disparate (mas alguém dorme a contar carneiros?) e teimei com ela. Não, insistiu ela, foi por contar carneiros. Fiquei zangadíssima. E ainda hoje acho que eu é que tinha razão,</div><br /><div dir="auto">Acho que já contei esta história, por aqui. Mas, também, já não deve andar por aqui ninguém, por isso é a altura perfeita para contar histórias que não interessam um caracol. E, mesmo sem coruja, ralos e som da brisa da noite, vou-me deitar. A vigília febril terá de ficar para uma outra vez.</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2988962021-01-12T18:10:00Luz 2021-01-12T18:11:07Z2021-01-12T18:11:07Z<div dir="auto">Nos últimos dias, por esta hora, a luz lá fora, de tão oblíqua, quase que toca no chão.</div><br /><div dir="auto">Encosto-me à cadeira e fico a olhá-la. Apenas a olhá-la. Depois volto ao teclado, lamentando não saber escrever poesia. Nunca soube. Não sei dizer as coisas para além do que elas realmente são.</div><br /><div dir="auto">Lá fora, a esta hora, há uma luz tão oblíqua que quase toca no chão. E, por alguma razão que não sei explicar (e teria de o saber?) dá-me uma grande tranquilidade. E, isto, apenas isto, parece-me tanto à primeira vista, que fico sem vontade de me contentar com mais do que pouco.</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2984202021-01-04T18:43:00Caligrafia2021-01-04T18:44:09Z2021-01-04T18:44:09Z<div dir="auto">Comecei um diário. Aproveitei um caderno que a minha filha me deu o ano passado para ver se eu voltava a desenhar. Mas, em vez de desenhar, aproveitei-o para voltar a escrever à mão. Deitei fora as primeiras folhas onde escrevi, queria muito que a primeira página ficasse com a letra com aspecto aceitável, que bonita já desisti que fosse desde que comecei a escrever. Nessa altura a minha mãe comprou-me cadernos de caligrafia, ensinou-me a pegar com leveza na caneta, mas em vão. Saíam-me letras de tamanho diferente, mal fechadas pela pressa em acompanhar o meu pensamento, os dedos esborratdos com tinta que parece que me nascia por pegar na caneta com tanta força, letras a levantarem-se das linhas e a irem pelas margens adentro. Ah, as margens, que ódio eu tinha àquelas linhas vermelhas e como gostava de escrever nas folhas brancas que roubava das resmas de escrever à máquina do meu pai, sem margens, sem regras, as linhas a irem de esguelha umas vezes para cima e para baixo, não escrevas deitada no chão, a minha mãe a ralhar-me, assim essa letra vai ser sempre torta. Assim que pude, já no liceu, enchi o dossiê com folhas brancas e lisas. A minha vida é feita de muitas rebeldias insignificantes destas, só eu dei por elas. Algumas professoras resmungavam, mas não fiz caso e elas também não, afinal eu era boa aluna e cedo aprendir a sorrir para conseguir o que queria.</div><br /><div dir="auto">Acabei por me resignar com a letra que deixei no tal diário, sei que daqui a uns tempos até eu vou ter dificuldade em percebê-la, paciência, os “as” por fechar”, os “ms e os “ns” invertidos a parecerem uma sequência de “us”, as laçadas exageradas dos “fs”, dos “gs” e dos “agás”, a letra a ficar cada vez mais corrida, sempre um passo atrás da minha urgência e os dedos a gelarem-se-me.</div><br /><div dir="auto">Que frio que está. Dou por mim a cruzá-los e a soprá-los como o meu pai fazia nos dias de Inverno em que se lembrava de Moçambique, esta terra é um gelo, dizia ele e a minha mãe troçava dele, isto é Lisboa, sabes lá tu o que é frio, homem. Facilmente nos tornamos na ausência dos nossos pais. Mas o meu pai, ao contrário de mim, tinha uma caligrafia elegante, dava um balanço teatral com a mão antes de começar a escrever e concedia uma rara paciência à lentidão da sua própria mão, sabes lá tu o que é frio, homem e as pontas de dos dedos também a gelarem-se-me agora, por cima do teclado, essa bênção sem rasuras dos impacientes que escrevem, esta terra é um gelo, Lá, agora, seria Verão.</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2978092020-11-20T14:03:00Domingos2020-11-20T14:04:35Z2020-11-20T14:04:35Z<p>A prima Odete embirrava solenemente com Domingos. Eram uma pasmaceira, não passava nada de jeito na televisão e tinha de cumprir o frete de ir à missa com a mãe, que o pai tinha sempre alguma coisa para arranjar em casa ou o carro para limpar e a irmã tinha aquela conversa cansativa da religião ser o ópio do povo.</p>
<p>Para além de tudo isso era uma maçada de um dia, pois estava tudo fechado, nem para comprar tabaco, o que implicava que ao sábado tivesse de comprar maços a fazer com conta com Domingo. Pão, só o do dia anterior torrado ou então as carcaças que a tia Maria Adelina congelava à sexta-feira. E bica nem vê-la.</p>
<p>Foi portanto uma alegria para a prima Odete quando, em mil novecentos e oitenta e cinco, abriu uma grande pastelaria ao fundo da rua, que tinha pão de forma fresco (a um preço exorbitante, segundo a Tia Maria Adelina) e ficava aberta até às seis da tarde de Domingo.</p>
<p>- Agora só falta haver um supermercado aberto ao Domingo – comentou a prima Odete, em tom de vitória.</p>
<p>A prima Maria Isabel deu-lhe uma grande prédica sobre os direitos dos trabalhadores, sobre o egoísmo do consumismo ( o tio Macedo achou muita piada a esta rima), que, só porque lhe dava jeito ter onde ir beber a bica e comprar tabaco, não podia lixar a vida aos outros.</p>
<p>A prima Odete suspirou e revirou os olhos, não havia paciência para as coerências da irmã.</p>
<p>E a tia Maria Adelina pegou no saco de pão duro e enquanto dava um beijinho a cada uma das carcaças antes de as deitar fora, disse:</p>
<p>- Sempre vivemos com tudo fechado ao Domingo e ninguém morria. O que é uma dor de alma é deitar pão fora, assim desta maneira.</p>
<p>- Os Domingos doem-me mais – retorquiu a prima Odete.</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2974062020-11-18T11:17:00Fruta cristalizada2020-11-18T11:18:18Z2020-11-18T11:28:28Z<p>Ao contrário da Prima Odete, que vivia para esta altura do ano, a prima Maria Isabel tinha uma embirração particular pelo mês de Dezembro. Não gostava de bacalhau, achava que o Natal era mais uma forma de opressão pelo consumo desenfreado, dizia que o Pai Natal era apenas uma caricatura da água suja do capitalismo americano e no que dizia respeito à religião, limitava-se a revirar os olhos.</p>
<p>Mas, na verdade, a embirração da prima Maria Isabel tinha a ver com uma certa tristeza que os dias curtos cheios de humidade e cheiro a fritos lhe causavam. A pastelaria onde bebia café a meio da manhã todos os dias tresandava a azevias e filhós a partir de dia nove de Dezembro. Eram dias de uma certa agonia.</p>
<p>- É o costume – dizia para o empregado de bigode, ao chegar ao balcão.</p>
<p>Este gritava, “Sai bica! “ e lembrava-a que só aceitavam encomendas de Bolo-rei até dia vinte e um.</p>
<p>A prima Maria Isabel agradecia e acrescentava.</p>
<p>- Não sou grande apreciadora de frutas cristalizadas.</p>
<p>Facto que mudou em Dezembro de mil novecentos e noventa e dois, quando, na Confeitaria Nacional, conheceu o Nuno Maria. Afortunado encontro que lhe trouxe as maravilhas da casca de laranja cristalizada com chocolate e um grande amor e assim lhe superou para o resto da vida a melancolia causada pela mudança da hora de Inverno e alguns assentos à direita da bancada parlamentar. Mas, até morrer, a prima Maria Isabel recusou-se a compactuar com a história do Pai Natal e a fazer o presépio, dizendo:</p>
<p>- É nos detalhes que se revelam os princípios de cada um. O resto é a vida.</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2967952020-11-14T20:07:00Ainda2020-11-14T20:07:39Z2020-11-14T20:07:39Z<div dir="auto">Há sempre uma calmaria antes de chegar a tempestade, dizia a avó da Patrícia, da mesma maneira que disse outras tantas certezas que tinha, encostada ao balcão da cozinha enquanto lanchávamos. Era muito supersticiosa, acreditava em espíritos que voltavam, sabia muitas rezas, muitos responsos, sabia ler nas entrelinhas de todos os acasos, do sal que se entornava, das ventanias e trovoadas, dos dias quentes e abafados, das luas novas e cheias, dos ninhos de andorinha que alguma pedrada desfizera, do piar das corujas e do crocitar dos corvos. Até na lentidão do tempo ela via um presságio e usava a palavra “ainda” como um aviso. Ainda não há notícias, ainda não tocou o telefone, ainda não choveu. Antecipava o passar do tempo por acreditar que antecipava o malfadado destino, que assim o danado não apanharia de surpresa.</div><br /><div dir="auto">O recolher obrigatório ainda não chegou aqui, disse eu, hoje, ao telefone, à minha irmã e a avó da Patrícia levantou-nos as canecas do leite, olhou para o céu limpo pela janela da marquise e disse, vão brincar lá fora, mas só um bocadinho, que eu hoje sei que ainda vai chover.</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2964102020-11-08T20:10:00Em que pensas tu?2020-11-08T20:10:38Z2020-11-08T20:17:00Z<div><br /><div class="" dir="auto"><br /><div id="jsc_c_5s" class="ecm0bbzt hv4rvrfc e5nlhep0 dati1w0a"><br /><div class="j83agx80 cbu4d94t ew0dbk1b irj2b8pg"><br /><div class="qzhwtbm6 knvmm38d"><br /><div class="kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Hoje, quando acordei, chovia a cântaros. Da minha janela só se via uma cortina cinzenta. Parece aqueles desenhos animados de leste que passavam no programa do Vasco Granja, comentei. Ou aqueles japoneses em que havia uma criancinha órfã à chuva. Quando parou de chover e abriu um bocadinho, fui ao quintal que está cheio de folhas dos carvalhos que vivem do outro lado do muro. Tenho de esperar que o chão seque para varrer as folhas. O Outono é um trabalho de Sísifo no meu quintal. Fiquei cá fora, a pensar nos livros que tenho em cima da mesinha da sala e que ainda não li, no barulho da água nas valetas, um sinal de que chovera realmente muito e que há muitos domingos que não tinha nada urgente para fazer. Só mesmo isso, a pensar nos livros que tenho para ler, nas folhas no quintal e na chuva dos bonecos japoneses e do Vasco Granja. Como eu odiava de morte esses bonecos que eu só via na esperança que ele passasse a Pantera Cor-de-Rosa. Fiquei ali, em pé, imóvel, tão imóvel como ficava em criança, sentada no chão do meu quarto com as pernas à chinesa e a minha mãe a perguntar, em que tanto pensas tu? E eu a dizer-lhe sempre, em nada, talvez já na altura soubesse que os nossos nadas, por não terem espaço no nosso, sobejam quase sempre no entendimento dos outros. Voltei para dentro e comentei, devia ter dado mais uma demão de protector nas cadeiras do jardim. Em que pensas tu? Perguntou-me o Facebook. Em nada, respondi-lhe eu.</div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /><div><br /><div class="stjgntxs ni8dbmo4 l82x9zwi uo3d90p7 h905i5nu monazrh9"><br /><div class="l9j0dhe7"><br /><div class="bp9cbjyn m9osqain j83agx80 jq4qci2q bkfpd7mw a3bd9o3v kvgmc6g5 wkznzc2l oygrvhab dhix69tm jktsbyx5 rz4wbd8a osnr6wyh a8nywdso s1tcr66n"><br /><div class="bp9cbjyn j83agx80 buofh1pr ni8dbmo4 stjgntxs"><br /><div class="oajrlxb2 g5ia77u1 qu0x051f esr5mh6w e9989ue4 r7d6kgcz rq0escxv nhd2j8a9 nc684nl6 p7hjln8o kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x jb3vyjys rz4wbd8a qt6c0cv9 a8nywdso i1ao9s8h esuyzwwr f1sip0of lzcic4wl l9j0dhe7 abiwlrkh p8dawk7l" tabindex="0" role="button" aria-label="Gosto: 2 pessoa(s)"> </div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2957362020-11-02T11:16:00Essa gente2020-11-02T11:16:41Z2020-11-02T11:30:44Z<p>Quando a prima Odete descobriu que a deslavada da Anabela tinha vindo de Luanda, passou a embirrar com todos os retornados e a referir-se a eles como “aquela gente”. Dizia que tinham a mania, que tinham vivido à custa do IARN , que tinham trazido droga e dado cabo da miudagem de cá, que se aquilo lá era tão bom que voltassem para a terra deles.</p>
<p>- Olha que não é bem assim, Détinha… – Dizia-lhe a tia Maria Adelina.</p>
<p>A prima Odete ficava danada com quem tentasse defender os retornados. Levava aquilo mesmo a peito, claro que era bem assim, “aquela gente” devia voltar para a terra deles e não andar cá a roubar o que era dos de cá. O emprego, por exemplo.</p>
<p>- É mesmo o desemprego que te dói, Détinha?</p>
<p>- Mas afinal de que lado é a que mãe está?</p>
<p>E a tia Maria Adelina desconversava, falava da novela, da vizinha maluca do terceiro, que deixava o lixo no patim e era um cheiro que não se podia, dos acabamentos da saia e casaco que fora buscar à modista, com aquele corte de fazenda que comprámos na Rua Augusta, lembras-te? Agora é um castigo para me fazer as coisas a tempo e horas e bem acabadas. Qualquer dia começo a vestir-me só no pronto-a-vestir. É que não fica mais caro do que mandar fazer, o que é que tu pensas? E há coisas tão jeitosas, mas é um castigo encontrar número para mim. Uma pessoa enforma com a idade e não há nada que lhe sirva.</p>
<p>- É gente que não interessa a ninguém. – Repetia a prima Odete.</p>
<p>A tia Maria Adelina levantava-se e fazia-lhe uma festa na cabeça.</p>
<p>- Tudo passa, filha. Vai cada um à sua vida e daqui a uns anos já ninguém se lembra de nada.</p>
<p>A prima Odete apagava irritada o cigarro na borda do pires.</p>
<p>- E depois de esquecermos tudo ficamos com o quê?</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2954212020-10-08T09:02:00#Prima Odete - Clássicos da literatura2020-10-08T08:03:47Z2020-10-08T08:13:27Z<div><br /><div class="" dir="auto"><br /><div id="jsc_c_6z" class="ecm0bbzt hv4rvrfc e5nlhep0 dati1w0a"><br /><div class="j83agx80 cbu4d94t ew0dbk1b irj2b8pg"><br /><div class="qzhwtbm6 knvmm38d"><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"> </div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /><div><br /><div class="stjgntxs ni8dbmo4 l82x9zwi uo3d90p7 h905i5nu monazrh9"><br /><div class="l9j0dhe7"><br /><div class="bp9cbjyn m9osqain j83agx80 jq4qci2q bkfpd7mw a3bd9o3v kvgmc6g5 wkznzc2l oygrvhab dhix69tm jktsbyx5 rz4wbd8a osnr6wyh a8nywdso s1tcr66n"><br /><div class="kb5gq1qc pfnyh3mw c0wkt4kp"><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">A prima Maria Isabel tinha a mania de atirar para o ar comentários que ninguém percebia. Como aquele que ela dizia sempre em reuniões de família e também nas reuniões do Partido:</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">- Desculpem lá, mas não tenho inteligência que chegue para conseguir ver a lã de que é feito o tecido das vossas lindas fatiotas.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Nunca ninguém percebeu onde é que ela queria chegar com isto, mas também, no que diz respeito à sua família mais directa, ninguém era muito amigo de ler, muito menos clássicos da literatura infantil. Na casa da tia Maria Adelina e do tio Macedo realmente não abundavam os livros. Tirando “A Enciclopédia da Saúde” e uma colecção de "clássicos", encadernados a vermelho, com letras douradas na lombada, que o Tio Macedo comprara nas Selecções do Reader’s Digest, mas só para ver ser lhe saía um automóvel, (mais tarde diria que aquilo era tudo uma grande aldrabice, pois, apesar da quantidade de envelopes dourados a felicitá-lo por ser finalista que ia recebendo na caixa do correio, não havia maneira das Selecções sortearem o bendito automóvel). Tirando esses livros, que compunham muito bem a estante de castanho, madeira boa, um peso monstro que era preciso a família toda para conseguir arredá-la nas limpezas, não havia mais grande coisa que se lesse, tirando a TV Guia e a Nova Gente compradas todas as semanas pela prima Odete, no quiosque ao pé da paragem do autocarro.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">Já a prima Maria Isabel, a dada altura, à conta daquelas amizades muito cultas do Partido, que isto uma pessoa nunca gosta de ficar para trás, começou a ler à séria, e obras da literatura universal, daquelas que dão sustância a qualquer conversa, com frases como aquela outra que a prima Maria Isabel também costumava atalhar, com um rebolar de olhos muito pedante, sempre que havia zaragatas na família:</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">- Já se sabe, todas as famílias infelizes são-no à sua maneira.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">De maneiras que nunca realmente ninguém percebeu aquela conversa da lã que a prima Maria Isabel não via. Só muito anos mais tarde quando, num almoço de Natal, já o tio Macedo tinha morrido há anos, a prima Maria Isabel mandou essa a meio do almoço e a Ana Marta desatou-se a rir e disse-lhe.</div><br /><div dir="auto"> </div><br /></div><br /><div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"><br /><div dir="auto">- Ai tia, ainda bem que não tens Facebook!</div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div><br /></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2947092020-08-17T19:12:00Tio Macedo2020-08-17T18:12:28Z2020-08-25T09:53:03Z<p>O tio Macedo era quatro anos mais novo e uns cinco centímetros mais baixo que a tia Maria Adelina. Por causa da diferença de altura a tia Maria Adelina nunca usava saltos altos nem mises muito armadas. Não que ele lhe pedisse, que o tio Macedo não era pessoa para se ocupar dessas miudezas, mas a ela metera-se-lhe na ideia que os anos e os centímetros a menos davam a ideia que ela se vira aflita para arranjar um marido, que nem era mentira nenhuma, mas<span class="text_exposed_show"> há coisas que não se precisam de saber.</span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p>O tio Macedo reformara-se antes dos sessenta, à conta de um joelho desfeito num acidente de trabalho, a qual era uma história um bocadinho mal contada dado que ele fora um manga de alpaca toda a vida. Era um homem de gostos simples, duas latinhas de atum com uma batatinha cozida eram o suficiente para o deixar feliz . Segundo dizia a filha mais velha era um grandessissímo reaccionário (com um azar sem explicação ao Vasco Gonçalves). Tirando isso não ligava grande coisa a política, preferindo outro tipo de programas de variedades, tanto na rádio como na televisão. Era um fiel seguidor do “Pão com Manteiga”, de tal modo que quando o Carlos Cruz começou com o “Um, dois, três”, as segundas à noite tornaram-se sagradas.</p>
<p>- Este gajo é um sádico, caramba! - comentava o tio Macedo, quando o Carlos Cruz trocava as voltas e fazia suspense com os concorrentes. Coitado do tio Macedo, sofria como se fosse com ele caso os concorrentes rejeitassem o objecto que dava o carro ou os electrodomésticos.</p>
<p>A fixação com o "Um, dois, três" era tão grande que mesmo tendo um carocha branco de 1978 e não bebendo leite, dizia ele que no seu tempo o leite era para as criancinhas e para quem já não tinha dentes, convenceu a tia Maria Adelina a comprar Cola Cao a cada duas semanas para ver ser lhes calhava o automóvel:</p>
<p>- Com dois rótulos de cada vez temos mais chances!</p>
<p>Coisa que obrigou a tia Maria Adelina a criar toda uma panóplia de receitas com Cola Cao, como o "molotof mulato" e a "mousse de chocolate um, dois , três".</p>
<p>O tio Macedo carregava algum desgosto pela falta de sorte das filhas, que a ele lhe parecia ser mais uma grande falta de juízo e, em acto de contrição, talvez a falta da rédea curta que ele não tinha sido capaz de lhes dar.<br />Sobre os genros dizia apenas:</p>
<p>- Cada tiro, cada melro.</p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2944812020-08-16T21:40:00Dia de finados2020-08-16T20:40:56Z2020-08-18T08:33:18Z<p>Depois do divórcio, a prima Odete andou entre o alívio e a euforia, durante quase um ano. O Zé Manel não quis ficar com nada, tirando as coisas que tinha levado de solteiro, entre as quais uma belíssima aparelhagem estéreo onde ouvia a sua grande colecção de discos.</p>
<p>A prima Odete dizia que se sentia num “relax” como há muito não se sentia, apesar de nesse Verão ter chegado a fumar três maços por dia (mais de noite, que o tabaco a ajudava a passar as noites em branco). O “relax” da prima Odete acabou no dia de finados de mil novecentos e oitenta e um, quando, ao chegar a casa, a tia Maria Adelina lhe disse que ao sair do 17, na Praça do Chile, tinha dado de caras com o Zé Manel.</p>
<p>- Vinha com o braço por cima de uma fulana. Não me viu ou então fez que não me viu.</p>
<p>A prima Odete perguntou-lhe se a fulana era jeitosa, se era nova, se era gorda, se era alta, se era baixa, se tinha um tipo fino, se tinha ar rameloso. Que não, que tinha parecido à tia Maria Adelina uma mulher normalíssima, nem feia nem bonita.</p>
<p>- Já ele, olha, digo-te, está um com rico aspecto. Até parece que remoçou.</p>
<p>A prima Odete torceu o lábio.</p>
<p>- Mais uma. Não deve passar do Natal.</p>
<p>Passou desse Natal, e do Natal seguinte. O Zé Manel casou-se com a Anabela.</p>
<p>- Dou-lhes um ano, é só passar a novidade. – disse a prima Odete.</p>
<p>Passaram dois. E nasceu-lhes o primeiro filho.</p>
<p>- Agora é que vão ser elas. Com a criança, ao fim de seis meses o Zé Manel arranja outra.</p>
<p>Não arranjou. Passaram mais dois anos e nasceu-lhes outro filho.</p>
<p>- Agora com dois catraios é que aquilo vai pelo cano.</p>
<p>Não foi.</p>
<p>- Deixa-a ficar pesadona da idade e a gente logo fala. É só ela ter um cheirinho a meia-idade.</p>
<p>Anabela foi uma mulher magra até dois mil e dezoito, ano em Zé Manel morreu de enfarte e em que fariam trinta e cinco anos de casados. No dia a seguir à tia Adelina ter visto o Zé Manel abraçado à Anabela na Praça de Chile, a prima Odete resolveu comprar um gira-discos portátil para preencher o vazio que ficara na mesa de imitação de mármore, lugar que, durante anos, fora cativo da aparelhagem estéreo do Zé Manel. Pôs a tocar um disco da Maria Bethania, nessa e em muitas outras noites dos oito anos em que lhe demoraram a passar o dorido e a raiva de ver o Zé Manel a amar outra mulher, muito mais do que alguma vez a tinha amado a ela ( e sempre que pensava nisso tinha a certeza que o verbo amar soava de modo muito menos parolo quando dito com sotaque brasileiro), até lhe fazer um risco numa das "portas entreabertas" do refrão. Ouvia-o tanto que, anos mais tarde, a filha, Ana Marta, haveria de ter um azar tão grande à Maria Bethânia, que mudava a estação de rádio aos primeiros acordes da bendita música, comentando:</p>
<p>-Ainda por cima é feia que nem uma bota da tropa.</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2941582020-08-14T14:38:00Tinham a mania2020-08-14T13:42:44Z2020-08-14T15:25:50Z<p>A prima Maria Isabel nunca foi muito à bola com o cunhado Zé Manel, sempre lhe topou as manhas de engatatão. Mas a bem dizer também nunca se deu muito bem com a irmã. Nem com a mãe, muito menos com o pai, com quem se pegava dia sim, dia não, por causa da política. Zangou-se com uma série de amigos, uns por serem fascistas reaccionários, outros por serem da extrema-esquerda, outros por serem burgueses sem rumo político, uns por serem pedantes, outros por não terem maneiras. Também não tinha muita paciência para os devotos do rock progressivo, muito menos para os que só ouviam música de intervenção e desprezava profundamente pessoas, como a irmã, que ouviam Roberto Carlos e o “Foram cravos, foram prosas” da Manuela Moura Guedes. Não suportava homens de bigode, nem mulheres platinadas, nem a dona da papelaria, nem a vizinha do direito. Topava à légua as fraquezas dos outros, especialmente as iguais ou do género das suas. Lia todos os segundos sentidos, ninguém, mas ninguém lhe comia as papas na cabeça.</p>
<p>- És uma complexada de merda – disse-lhe uma vez o Tó, depois de ter passado quase uma hora a ouvi-la dizer mal de uma colega de trabalho, que segundo ela, “tinha a mania”.</p>
<p>Maria Isabel levantou-se do sofá de rompante, disse-lhe que não lhe admitia, mais duas ou três verdades, que ela tinha de se ficar sempre com a última resposta, e foi para a marquise fumar. A vizinha do esquerdo, que usava um rabo-de-cavalo preso ao lado, ouvia Abba em altos berros. Maria Isabel imaginou-se a gritar a letra do "The winner takes it all" a todos os que não a compreendiam, assim como, muitos anos mais tarde, a Meryl Streep faria com o Pierce Borsnan naquele musical insuportavelmente piroso. Naquele tempo, Maria Isabel, da Meryl ainda só tinha visto o Kramer contra Kramer, mas já aí embirrava com ela. Era com ela e com a Isabel Baía. Davam-lhe nervos. Tinham a mania e um nariz horrível.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2939252020-08-13T17:21:00As primeiras são vassouras2020-08-13T16:25:33Z2020-08-14T10:37:31Z<p>Os nove anos de casamento com Zé Manel foram tudo menos um mar de rosas. A prima Odete não tinha uma ideia certa de quando teria começado o inferno das discussões. As razões podiam ter sido, e se calhar foram, por causa de dinheiro, de dívidas, dos copos, das chegadas a casa a altas horas da noite, da sogra, da mãe, da chave que a mãe tinha, das vezes que a mãe ia lá buscar e levar roupa, arrumar as gavetas, deixar sopa feita, do pai, do apartamento não estar em nome dele, dos ciúmes, das noites em branco por causa da miúda, dos dias em branco por causa da miúda. Mas ela só se lembrava das amantes e da quantidade de pares deles que ele lhe pusera. E dizia ela que as zaragatas (uma delas tão grande, que acabou com o Zé Manel a rebentar com a porta da casa de banho, onde Odete se tinha trancado) teriam começado depois da Ana Marta ter nascido.</p>
<p>- Ele não lidou bem com o nascimento da filha. É um péssimo pai, vê-se o castigo que é para pagar a pensão.</p>
<p>Mas não era bem assim. Não só como as discussões tinham começado muito antes, logo no regresso da lua-de-mel, cinco dias num hotel de quatro estrelas, só dormida e pequeno-almoço, em Vilamoura pagos pelos padrinhos de casamento dele, como Zé Manel revelou ser um pai extremoso com os dois filhos nascidos do segundo casamento e a pensão de alimentos acabava sempre por vir (embora, volta e meia com algumas fungadelas, mas isto, neste país, seja ex-marido, seja patrão ou porteiro ninguém gosta de falar de dinheiro). Ainda assim, a prima Odete, que passava a vida a vender chuchas sobre termos de ser todos “muita luz” uns para os outros, que tudo o que dizemos mal dos outros volta para nós em dobro, fazia questão de lembrar à filha, sempre que, a propósito de alguma coisa, o pai vinha à baila:</p>
<p>- Não tenhas grandes ilusões, que para o sacana do teu pai só existem os dois filhos que teve com a mosca morta da Anabela. É tudo do bom para a nova família, a velha que se lixe. Bem diz a tua avó que as primeiras são vassouras, já as segundas...</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2938612020-08-12T13:21:00Uma mulher independente2020-08-12T12:21:33Z2020-08-12T12:23:11Z<p>A prima Odete era irmã mais nova da prima Maria Isabel, fazendo entre elas três anos e seis meses de diferença.</p>
<p>- São a noite e o dia, estas minhas duas filhas – dizia a tia Maria Adelina.</p>
<p>Eram realmente diferentes as duas irmãs. A prima Maria Isabel era uma mulher independente, que abraçara a causa do proletariado e da redistribuição da propriedade privada desde Maio de setenta e quatro, mas só da boca para fora e em debates de almoços de família, não tendo nunca, que se soubesse, sido filiada em algum partido ou grupo revolucionário. A prima Maria Isabel era uma boémia que não via novelas, dizia ela que alienavam o povo, e se recusava a usar soutien (mas também era uma tábua), fumava dois maços de Sintra por dia, fez uma permanente que a tornou numa versão de metro e sessenta da Lara Li, teve vários empregos como secretária e antes de ir viver com o Tó para um apartamento de uma assoalhada, mais marquise, em Benfica, viveu quase dois anos com um retornado de Nova Lisboa, a quem a tia Maria Adelina, mesmo reconhecendo que ele era bom rapaz e trabalhador, se fartou de torcer o nariz:</p>
<p>- Só me faltava agora era ter netos mulatos.</p>
<p>Já o Tó era o genro dos olhos da tia Maria Adelina:</p>
<p>- Tirando lá o ser comunista, é uma jóia de rapaz.</p>
<p>A prima Maria Isabel e o Tó viveram juntos até mil novecentos e oitenta e nove. Separaram-se umas semanas depois da queda do muro de Berlim.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2936232020-08-11T14:55:00Pernas como as da Gabriela2020-08-11T14:06:01Z2020-08-18T10:47:16Z<p>A prima Odete nunca foi uma grande estampa, um mulherão. Tinha uma daquelas caras que de tão normais toda a gente esquece. E quando, por alguma razão, alguém precisava de descrever a prima Odete ficava-se pelo “muito morena, com penteado à Mireille Mathieu”, o que era bastante vago, especialmente se o interlocutor não gostasse de música francesa. A prima Odete também nunca pautou por grande sentido de estilo. Usava sapatos de pala e tacão, muito canastrões, e cal<span class="text_exposed_show">ças de pinça que conjugava com camisas estampadas, algumas de laçada, apropriadas para a formalidade que o emprego de bancária lhe pedia. Depois do divórcio passou a maquilhar-se mais um bocadinho, batom cor de vinho, a dar mais para o castanho, um risquinho de crayon nos olhos. Depois do divórcio perdeu uns bons quilos, com uma dieta passada por uma médica, comadre de uma colega de trabalho, que a obrigava a comer tostas da Diese e toranja todos os dias. Coisa com a qual a tia Maria Adelina resmungava, pois as tostas custavam os olhos da cara e toranjas nem sempre havia no mercado, só encomendando na mercearia do bairro.</span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p>- Como se fosse o raio da toranja que te fizesse perder os quilos...</p>
<p>Raramente se via a prima Odete com uma saia ou vestido. Tirando aquele vestido de malha vermelho que usara na sua primeira segunda-feira de mulher desquitada, tricotado pela tia Maria Adelina na máquina (comprada a prestações numa loja de electrodomésticos em Campo de Ourique) e uma saia rodada em crepe branco, tirada dos moldes de uma Burda de mil novecentos e oitenta e picos, sempre a viram ou de calças ou de bermudas largueironas, as quais ela usou durante as duas semanas de férias que fez em Portimão, durante os Verões de oitenta e seis a oitenta e nove. E era uma pena que ela andasse sempre de calças, pois, segundo os homens da família, a prima Odete, não sendo uma grande estampa, tinha umas ricas pernas. Ela sabia-o e por isso, mesmo doendo-lhe horrores a ponto de lhe trazer aos olhos umas lágrimas que parece que vinham da cana do nariz, fazia questão de tirar os pêlos das pernas com cera quente, todas as quatro semanas, às mãos de uma esteticista que vinha ao cabeleireiro do bairro e que também lhe arranjava as sobrancelhas e lhe tirava as peles roídas à volta das unhas:</p>
<p>– Não desfazendo, já me disseram que as minhas pernas são iguais às da Gabriela.</p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2931462020-08-10T14:43:00A prima Odete2020-08-10T13:44:09Z2020-08-17T11:20:53Z<p>A prima Odete pôs o marido fora de casa, Domingo, dia sete de Dezembro de mil novecentos e oitenta. Três dias depois de ter apanhado o marido, em quase flagrante, graças a uma factura de bolo de aniversário, massa de pão-de-ló, um quilo e cem, recheio de doce de ovos, duas velas, um dois e um seis, menos sete anos que os seus, feitos Setembro passado, e uma garrafa de espumante. Foi a gota de água ao fim de nove anos de casamento, uma filha e três ou quatro amásias, fora a vizinha do terceiro, que a prima Odete garantia que pelo menos com os olhos ele a tinha comido.</p>
<p>Pôs-lhe a roupa toda, ainda com os cabides e as dobras das gavetas, espalhada na cama com grande dramatismo, como vira numa novela da Globo, que embora anos mais tarde dissesse ter sido o Astro, ficou-lhe na ideia a possibilidade de ter sido naquela em que a Sónia Braga fazia de mãe da Glória Pires, e disse-lhe, Zé Manel, põe-te andar, que a casa está em nome do meu pai.</p>
<p>E o Zé Manel pôs-se andar, se bem que quase inocente dessa vez, nem o bolo nem a garrafa de espumante foram encetados, pois o encontro em casa da aniversariante foi sabotado pela notícia da queda do Cessna do Sá Carneiro, que a rapariga, mais do que militante ferrenha da AD era devota da Snu, usando até uma banana como a dela, ficou em saia e soutien, lavada em lágrimas a ver a notícias na televisão e o arranjinho desfez-se por puro desgosto democrático.</p>
<p>A prima Odete pô-lo então a andar nesse Domingo, antes de almoço.</p>
<p>Depois de ele bater com a porta, foi buscar a filha a casa dos pais. A mãe, a tia Maria Adelina, fez carne assada na panela de pressão e perguntou-lhe o que é que ela ia vestir no dia seguinte para ir trabalhar, que o país estava de luto pelo primeiro-ministro e a prima Odete, enquanto punha a mesa, respondeu:</p>
<p>- Sou capaz de levar o vestido de malha. O vermelho.</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2929842020-07-16T11:37:00Todos os verões parecem iguais2020-07-16T10:38:01Z2020-07-16T10:38:01Z<p>Os dias quentes parecem-se sempre com os outros dias quentes passados. Hoje, de manhã cedo, quando abri a porta da cozinha que dá para o pátio, entrou o mesmo ar abafado que entrava pela porta da cozinha da minha tia, anda tens de comer antes de ires brincar com os teus primos, assim não cresces. As noites quentes têm sempre o estalar da ventoinha que viera de Moçambique e o meu pai debruçado na varanda. O silêncio da tarde traz-me a leitura na penumbra no meu quarto de par<span class="text_exposed_show">edes cor-de-rosa. As madrugadas quentes são as madrugadas em que atravessávamos a ponte até ao Algarve. O cheiro a coco do bronzeador da minha irmã ou do creme nívea na minha cara, o cheiro de todas as marés baixas, os passos surdos na areia de alguém que se aproxima, vidro aberto do carro em todos os regressos a casa, para o ano há mais.<br />Todos os verões parecem iguais, só as outras estações são diferentes à sua maneira.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2927292020-06-20T17:50:00A cultura não é uma esmola2020-06-20T16:50:21Z2020-06-20T16:50:21Z<p>O país ficou a saber pela manhã que lhe tinha morrido mais um actor. Um país que não gasta dinheiro em cultura, um país que tem como “velho normal” não pagar a quem escreve, a quem filma, a quem encena, a quem representa, a quem pinta, a quem dança. Um país que fica à espera que a Câmara Municipal lhe proporcione eventos de rua gratuitos, os quais criam a ilusão de que aquele trabalho não custa nada, é feito de graça, é um passatempo, uma extravagância, acordou chocado e choroso por perder mais um dos seus.<br />A cultura não se dá, pois não é uma esmola. É a base de um país. Mas no nosso a cultura parece ser apenas uma triste cadeia de trabalho desvalorizado. E a culpa, infelizmente, não é de nenhum governo. É nossa.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2924002020-05-29T11:24:00Cafeteira italiana2020-05-29T10:24:48Z2020-05-29T10:36:10Z<p>Faço mais um café na cafeteira italiana. Deixámos a máquina de cápsulas há algum tempo por causa do lixo que fazia. Quando quero um café forte vou à rua. Mas a pandemia trocou-me as voltas e durante o tempo em que estivemos confinados não tive outro remédio senão habituar-me a este café mais liquefeito e sem espuma. Passo os olhos pelo Facebook. Este "scroll" do meio da manhã é o abrir do estore que me falta. Faço alguns "likes", nenhum comentário. A olhar pelo meu “feed” p<span class="text_exposed_show">arece que estamos na pasmaceira de Agosto, mas sem as fotografias da praia e das férias que têm de parecer absolutamente felizes. Estas foram substituídas por notícias sobre a pandemia e sobre a crise, por posts sobre medo, receio, cansaço e claustrofobia e algumas fotografias sobre o alívio do desconfinamento. Também há mais murais em silêncio, como se tivessem ido para fora. Eu própria não tenho grande vontade de escrever alguma coisa. A incerteza é um vazio sem grande material de escrita. A cafeteira gorgoleja, apago o lume e sirvo o café numa chávena pequenina. Sabe-me bem o silêncio. Fecho o Facebook. Não há Verão que não passe.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2922432020-05-02T12:18:00Está sol2020-05-02T11:18:18Z2020-05-02T11:18:18Z<p>O café da rua principal está a vender em “take away”. A dona, de viseira, atende num balcão improvisado à entrada. As pessoas, umas com máscara, outras sem, fazem uma bicha mais ou menos disciplinada no passeio. Volta e meia, um carro pára, abre-se o vidro e lá de dentro cumprimentam alguém que esteja na bicha. Falam uns com os outros com aquele entusiasmo que pomos quando não vemos alguém há muito tempo.<br />Bebemos o café, em copinhos de papel, encostados ao carro. No prédio em frente um homem observa-nos por detrás do vidro da janela. Partilhamos o pacote de açúcar. Comento que o homem da janela tem a barriga à mostra. Rimos. Está sol. Apesar de ter posto açúcar a mais e já estar morno, o café sabe-me pela vida.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2918852020-04-23T19:55:00Quarenta dias2020-04-23T18:55:44Z2020-04-23T22:28:38Z<p>Hoje, reparei que passaram quarenta dias de recolhimento. Pensei em escrever algo formidável, a assinalar a efeméride. Mas não me ocorre nada. Absolutamente nada. Não noto o ar mais leve, o céu mais azul ou a Primavera mais exuberante. As pequenas coisas comovem-me tanto como já me comoviam. Não chorei uma lágrima a mais nem uma a menos. As horas passaram com o mesmo tamanho que já tinham, sem qualquer compressão ou expansão. Noto, talvez, as noites mais frias, mas isso prov<span class="text_exposed_show">avelmente não tem relação nenhuma. Também noto os dias maiores, mas já vamos quase no fim de Abril. Sinto a falta das mesmas coisas de que toda a gente sente falta. Sinto-me farta das mesmas coisas de que toda a gente se sente farta. Tenho os mesmo medos que toda a gente diz ter. E também as mesmas esperanças e as mesmas determinações. Fiz pão, scones e brioche, como toda a gente, mas já os tinha feito noutra altura. O meu cabelo cresceu muito, mas também, há muitos anos, já esteve deste comprimento. Agora ando sempre com ele apanhado, como faço todos os anos na praia, a minha filha diz que me fica bem, eu acho que nem por isso, mas também acho sempre que nada me fica bem.<br />Só me custa é a lembrar a que dia estou. Isso acho que custa mais do que o costume. Ontem, também não sabia que dia era. Nem no dia anterior. Por isso fui agora ao calendário do meu computador e vi que era quinta-feira, dia vinte e três. E pensei, olha, engraçado, passaram quarenta dias sem se passar nada de novo. Acho que isso nunca me tinha acontecido.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:linharecta:2917632020-04-11T12:36:00A despropósito2020-04-11T11:36:30Z2020-04-11T11:42:28Z<p>Nunca liguei muito à Pascoa. Em criança era a altura de me empanturrar de chocolate e amêndoas. Em adolescente eram umas férias ainda melhores que as do Verão, pois tinha os amigos todos por perto e não demoravam tanto a passar. Em adulta, apenas um pretexto para os almoços e obrigações de família. O Natal também passou pelo mesmo processo.<br />Tem-me feito imenso jeito, nestes dias estranhos de isolamento e distância, este meu desamor pelos pretextos. Somos menos sozinhos quando vivemos a despropósito.</p>