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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Tinha uma drogaria no rés do chão de um prédio de dois andares. Um prédio velho, de varandas absurdamente estreitas. Era uma pequena loja ensopada com cheiro a tintas e benzina. Vendia sabonetes e pó de talco, pregos e meadas de arame, que embrulhava em papel manteiga. Sentava-se atrás do balcão de madeira, com um caderno de folhas brancas e um lápis afiado à navalha. E, enquanto desjejuava com uns biscoitos de canela que comprava na mercearia em frente, tentava lembrar-se. Porque o que ele queria ser era um grande escritor, daqueles que escrevem livros de capa rija com lombadas largas. Mas as ideias, as histórias, só vinham de noite, naqueles breves instantes que antecedem o adormecer. Histórias formidáveis que se varriam de manhã. Por isso, ele ficava ali atrás do balcão, todas as manhãs, na esperança que lhe pingassem palavras do bico do lápis. Mas nada. Em cima do caderno, só as migalhas dos biscoitos. Até que sineta da porta, que era uma velha sineta de escola, anunciava um cliente. Ele punha o caderno de lado, sacudia os restos de canela das camisa, aviava os pedidos e depois pedia-lhes que fizessem as contas num canto de papel. Sorria meio envergonhado, enquanto ajeitava as latas de tinta na prateleira. Tiraram-me da escola antes de aprender a juntar as letras e números. Diziam que eu não tinha cabeça para os estudos. De lá, só consegui roubar o sino.
(Come chocolates, pequena . 2012)
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