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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Contar carneiros

Cristina Nobre Soares, 26.01.21
Hoje, o dia foi longo. Tão longo que, quando terminou, dei por mim, e já era amanhã. Talvez por isso agora não tenha sono. Desço até à cozinha, faço um chá de camomila, a única tisana que tolero, todas as outras me agoniam, deito-me no sofá e pego numa manta. Chove lá fora (e a saturação do confinamento também faz com que, ultimamente, chova um bocadinho cá dentro). Dou por mim a pensar que se tivesse agora uma insónia, poderia escrever alguma coisa sobre isso. Sobre o deambular pelo silêncio da casa, a solidão da noite, a lentidão das horas, a vigília de uma escrita urgente e febril. Mas que sei eu sobre insónias? Eu que tenho um sono santo e para quem as duas da manhã sempre foram altas horas da madrugada? Bebo a tisana com o esgar de quem toma um medicamento (mas quem é que gosta de ervas fervidas com água, senhores?), abro o computador para escrever alguma coisa e lembro-me de uma história parva, uma zanga que tive com a minha professora primária a propósito da interpretação de um texto. Um texto sobre um miúdo que não conseguia dormir e que a dada altura, depois de a mãe tentar vários truques com ele (as coisas de que me lembro, valha-me deus, amanhã, se me quiser lembrar da lista supermercado só trago metade das coisas), o miúdo lá adormeceu. Perguntou-nos a minha professora o que é que o tinha feito adormecer. Eu pus o dedo no ar e respondi que tinha sido o piar da coruja, das cigarras (que deviam ser ralos) e o som da brisa noite. Muito bonita a tua resposta, Cristina, mas está errada, disse ela, foi por contar carneiros que ele adormeceu. Eu achei aquilo um perfeito disparate (mas alguém dorme a contar carneiros?) e teimei com ela. Não, insistiu ela, foi por contar carneiros. Fiquei zangadíssima. E ainda hoje acho que eu é que tinha razão,

Acho que já contei esta história, por aqui. Mas, também, já não deve andar por aqui ninguém, por isso é a altura perfeita para contar histórias que não interessam um caracol. E, mesmo sem coruja, ralos e som da brisa da noite, vou-me deitar. A vigília febril terá de ficar para uma outra vez.

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