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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
A arca do enxoval era o tesouro de uma menina. Jogos de lençóis de linho bordados, turcos com remates de crochet, naperons, toalhas de mesa para o dia-a-dia e para receber. Peças que dificilmente se poriam a uso, umas pelo trabalho que davam a engomar, outras por serem totalmente inúteis. A arca do enxoval era tema de conversa entre as mulheres, que gabavam o número de jogos de lençóis que as netas e as filhas já tinham, como se a felicidade lhes dependesse dos metros de pano de linho, do primor dos bordados, das horas postas na renda. Era motivo de orgulho, de felicidade briosa e asseada. Era uma espera para a única vida que se podia esperar: casar.
Também tive uma arca do enxoval. Desdenhava-a profundamente, que eu era diferente, eu tinha horizontes maiores, mais largos e importantes. As pessoas não percebem, mas a arrogância, frequentemente se torna o único caminho que temos para a libertação. Apesar disso, às vezes, às escondidas, longe de todas as conotações e olhares opressivos, espreitava aquelas riquezas, passava os dedos pelos bordados e admirava-lhes a perfeição. A liberdade também é isso: quando as coisas bonitas são apenas coisas bonitas, sem significarem ou pesarem mais nada.
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