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Cinta

por Cristina Nobre Soares, em 13.08.19

A minha vizinha do rés-do-chão era muito bonita. De cabelo louro, sempre muito bem pintada e arranjada. A minha mãe dizia que ela tinha ar de andar na rambóia, não sabia o que isso queria bem dizer, mas não devia ser bom. Cedo percebi que as mulheres que se arranjavam e pintavam muito tinham qualquer coisa de proibido e reprovável que justificava o mal que as outras diziam delas.

A única vez que entrei em casa dessa minha vizinha foi para ir buscar uma peça de roupa que a minha mãe tinha deixado cair do estendal. Das outras vezes dissera-me para esperar à porta, mas dessa vez pediu-me para entrar.

Estava ao telefone. Senta-te, disse-me antes de voltar a pegar no auscultador e apontou-me o sofá de veludo azul, com uma grande pelada num dos braços.

- Desculpa, tive de ir atender a miúda de cima – Piscou-me o olho.

Os tamboretes de pele de zebra, uma estatueta de uma lavadeira, um dente de marfim cheio de homens pequeninos por dentro, vários pratos chineses na parede, medalhas de bronze em pequenos suportes pretos por cima da televisão, os olhos dela pintados de verde metalizado, uma cigarreira de tartaruga com rebordo dourado, que ela abriu para tirar um cigarro, igual aos da minha irmã, o cheiro de penumbra e de janelas que raramente se abriam, o roupão cor de cereja a imitar seda, por cima do joelho.

- Sim, ficamos para as sete e meia, mais coisa, menos coisa. Dou o jantar mais cedo à minha mãe e deixo-a a ver televisão.

Pousou o auscultador. Vivia com uma mãe velha, que andava a custo, muito marreca. Olhou para mim.

- Vamos lá buscar a roupa que a tua mãe deixou cair.

Apertou melhor a laçada do roupão. O cigarro por acender entre os dedos. Parecia-me tão chique, tão moderna. Abriu a janela.

- Que peça de roupa foi?

Corei muito e respondi.

- Uma cinta.

Riu-se e entregou-ma.

- Todas as mulheres acabam por se enfiar numa.

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5 comentários

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De Cláudia Ventura a 13.08.2019 às 17:28

Para ser sincera, também eu já precisava de uma cinta....
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De imsilva a 13.08.2019 às 18:31

Todas as mulheres "deveriam" acabar por se enfiar numa, como faziam antigamente, mas, são outros tempos...
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De Marco Batista a 14.08.2019 às 18:05

Cara Cristina, venho aqui com frequência mas já algum tempo que não comento o que a Cristina escreve, e não quero hoje deixar de o fazer. Penso que um escritor famoso cujo nome não me lembro terá dito algo como isto "numa história, mais importante do que o conteúdo é a maneira como a história é contada". E, de facto, isso verifica-se no que a Cristina escreve aqui no Em linha recta. A Cristina tem a capacidade de pegar numa situação corriqueira, banal, comum e escrever sobre isso de uma maneira singular, poética, melodiosa e indelével. Espero que nunca deixe de o fazer. Sentirei falta se assim for. Obrigado.
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De Cristina Nobre Soares a 14.08.2019 às 18:07

Obrigada, Marco. :)
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De Novembro a 14.08.2019 às 19:47

A minha imaginação voou ... estou a ler ou a assistir a uma cena de um filme?!
Adorei.

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