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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Ontem, a noite cheirava a flores, um cheiro adocicado, quase enjoativo. Tentei lembrar-me que flores seriam, tive a certeza de já ter estado num sítio que cheirava assim. Perto de mim, um rapaz e uma rapariga beijavam-se encostados à parede. Olha aí, disse a rapariga ao dar pela minha presença. Riram-se.Continuei a fingir que não os via, afastei-me e devolvi-lhes a invisibilidade. E a minha também. Os beijos dos outros são corpos estranhos no nosso pudor. O cheiro voltou. Lembrei-me que havia noite, uma porta entreaberta, daquelas com vidros martelados, luzes das escadas acesas, o mesmo cheiro lá fora, alguém que passou, olha aí, tenho de ir, disse eu. Mas continuei sem me conseguir lembrar que flores seriam. As memórias misturam-se umas com as outras, tendemos a completar-lhes os hiatos com coisas que não aconteceram, obcecados em lhes dar um sentido. Talvez não houvesse porta nenhuma, talvez tivesse fechada e não passasse ninguém. Mas lembro-me do mesmo cheiro e que fiquei.
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