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Cheiro a flores

por Cristina Nobre Soares, em 28.04.18

Ontem, a noite cheirava a flores, um cheiro adocicado, quase enjoativo. Tentei lembrar-me que flores seriam, tive a certeza de já ter estado num sítio que cheirava assim. Perto de mim, um rapaz e uma rapariga beijavam-se encostados à parede. Olha aí, disse a rapariga ao dar pela minha presença. Riram-se.Continuei a fingir que não os via, afastei-me e devolvi-lhes a invisibilidade. E a minha também. Os beijos dos outros são corpos estranhos no nosso pudor. O cheiro voltou. Lembrei-me que havia noite, uma porta entreaberta, daquelas com vidros martelados, luzes das escadas acesas, o mesmo cheiro lá fora, alguém que passou, olha aí, tenho de ir, disse eu. Mas continuei sem me conseguir lembrar que flores seriam. As memórias misturam-se umas com as outras, tendemos a completar-lhes os hiatos com coisas que não aconteceram, obcecados em lhes dar um sentido. Talvez não houvesse porta nenhuma, talvez tivesse fechada e não passasse ninguém. Mas lembro-me do mesmo cheiro e que fiquei.

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1 comentário

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De David Marinho a 03.05.2018 às 08:25

Acontece-me o mesmo. Pior é quando a memória é tremendamente nítida quando cheiramos algo.

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