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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Casaco de pied poule

Cristina Nobre Soares, 07.08.19

Lembro-me da segunda vez que me senti desintegrada. Curiosamente não me lembro da primeira vez, mas tenho a certeza que foi a segunda por ter reconhecido aquela espécie de vergonha como algo que claramente já sentira. Ou talvez sempre me tivesse sentido assim e só dessa vez lhe tenha dado um nome. Vestia, nessa noite, um casaco de fazenda de retrosaria em “pied poule" preto e branco, costurado pela minha mãe e antes de entrarmos a minha amiga avisou-me:
- Agora, por favor, não te ponhas só a falar de política e das tuas ideias comunas, que aqui parece tremendamente mal e ainda fazes má figura.
Nesse momento percebi que o casaco me estava apertado nas costas e debaixo dos braços e passei a noite toda com um sorriso parvo, junto a uma mesa com aperitivos de queijo, evitando dizer fosse o que fosse e medindo os gestos, não fosse o casaco, eu ou aquela noite esgaçarem-se aos olhos de todos. A dada altura, um rapaz de camisa às riscas meteu conversa comigo. Perguntou-me por que razão estava eu ali sozinha e eu respondi, sem pensar, que talvez tivesse perdido um sapato de seda azul. Ele riu-se e disse, dela só gosto dos contos, a poesia tem mar e Grécia a mais. Apesar da blasfémia, também me ri, mas de alívio. Ficámos ali o resto da noite, eu desapertei um dos botões do casaco, disse-lhe que seria incapaz de votar no Cavaco Silva e pedi-lhe uma Cuba Livre com duas medidas de rum e pouco gelo. Nunca mais usei aquele casaco.