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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Caligrafia

Cristina Nobre Soares, 04.01.21
Comecei um diário. Aproveitei um caderno que a minha filha me deu o ano passado para ver se eu voltava a desenhar. Mas, em vez de desenhar, aproveitei-o para voltar a escrever à mão. Deitei fora as primeiras folhas onde escrevi, queria muito que a primeira página ficasse com a letra com aspecto aceitável, que bonita já desisti que fosse desde que comecei a escrever. Nessa altura a minha mãe comprou-me cadernos de caligrafia, ensinou-me a pegar com leveza na caneta, mas em vão. Saíam-me letras de tamanho diferente, mal fechadas pela pressa em acompanhar o meu pensamento, os dedos esborratdos com tinta que parece que me nascia por pegar na caneta com tanta força, letras a levantarem-se das linhas e a irem pelas margens adentro. Ah, as margens, que ódio eu tinha àquelas linhas vermelhas e como gostava de escrever nas folhas brancas que roubava das resmas de escrever à máquina do meu pai, sem margens, sem regras, as linhas a irem de esguelha umas vezes para cima e para baixo, não escrevas deitada no chão, a minha mãe a ralhar-me, assim essa letra vai ser sempre torta. Assim que pude, já no liceu, enchi o dossiê com folhas brancas e lisas. A minha vida é feita de muitas rebeldias insignificantes destas, só eu dei por elas. Algumas professoras resmungavam, mas não fiz caso e elas também não, afinal eu era boa aluna e cedo aprendir a sorrir para conseguir o que queria.

Acabei por me resignar com a letra que deixei no tal diário, sei que daqui a uns tempos até eu vou ter dificuldade em percebê-la, paciência, os “as” por fechar”, os “ms e os “ns” invertidos a parecerem uma sequência de “us”, as laçadas exageradas dos “fs”, dos “gs” e dos “agás”, a letra a ficar cada vez mais corrida, sempre um passo atrás da minha urgência e os dedos a gelarem-se-me.

Que frio que está. Dou por mim a cruzá-los e a soprá-los como o meu pai fazia nos dias de Inverno em que se lembrava de Moçambique, esta terra é um gelo, dizia ele e a minha mãe troçava dele, isto é Lisboa, sabes lá tu o que é frio, homem. Facilmente nos tornamos na ausência dos nossos pais. Mas o meu pai, ao contrário de mim, tinha uma caligrafia elegante, dava um balanço teatral com a mão antes de começar a escrever e concedia uma rara paciência à lentidão da sua própria mão, sabes lá tu o que é frio, homem e as pontas de dos dedos também a gelarem-se-me agora, por cima do teclado, essa bênção sem rasuras dos impacientes que escrevem, esta terra é um gelo, Lá, agora, seria Verão.

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