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Barricadas

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.18

Uma vez, a propósito de um caso de uma mulher da vizinhança, que, após anos a levar pancada do marido, tinha saído de casa com os filhos e feito queixa na polícia, alguém disse: sempre se soube que ele lhe batia e agora é que anda toda a gente a falar nisto. Antes ninguém fez nada. Fingiam que não viam. E era verdade. Até a mulher dar o grito do Ipiranga, toda a gente fingia que não via, cumprimentavam o homem com se nada fosse. E mesmo sabendo que as sessões de pancada aconteciam sempre que ele bebia, nunca este homem terá bebido sem a companhia dos “amigos do costume”. Às vezes, falava-se por detrás, nas costas, coitada, a cruz que aquela mulher tem, coitada. Mas não passava disso. Quando a mulher saiu de casa, aí sim, soube-se dos podres todos, com todos os detalhes sórdidos. O sórdido que todo a gente conhecia, mas sobre o qual ninguém dizia nada. Ninguém queria chatices. Até ao dia em que a mulher resolveu mudar as coisas. E, já se sabe, à conta deste caso, mais um ou outro vieram a lume. Há coragens que só se ganham a quente. E também há vinganças que só acontecem à boleia. Aliás, as vinganças gostam muito de aproveitar a sombra das revoluções.

Porque as revoluções são assim. Há sempre 2 tipos de revolucionários: os que abrem os olhos quando ainda dói e lutam para que as coisas mudem, custe o que custar e os que se calam e só se manifestam depois da revolução estar feita. Os que só têm voz na turbamulta. Os que no dia antes da revolução ainda dizem, “fala mais baixo, que as paredes têm ouvidos” e que no dia seguinte participam em manifestações libertárias. Hipócritas? Talvez. Eu acredito mais em pessoas com medo e com alguma coisa a perder. Que constituem cerca de 95% da humanidade. Depois também há os oportunistas, os que aproveitam as revoluções para resolver pendências pessoais e vingançazinhas. E estes oportunistas muitas vezes acabam por pôr em causa a justiça de uma revolução. E novas vítimas se fazem. Estes oportunistas também surgem porque as revoluções têm um terreno muito fértil para que eles cresçam: as barricadas. Tu ou és ou não és dos nossos. Dos nossos, nunca de todos. Sendo que os nossos são sempre os bons. Obviamente. As revoluções sofrem da tentação crónica da tomada de partidos. O meio-termo nunca foi muito revolucionário, infelizmente. Aliás o meio-termo acaba sempre por apanhar com uma bala perdida em tempos de revolução. E é pena, porque o meio-termo costuma ser o gajo mais lúcido do processo. É aquele tipo que vê as coisas como elas são dos dois lados. As vantagens e os perigos. É o gajo que no bairro é capaz de dar uma ajuda à mulher que apanhava pancada, mas que também não apedreja todos os outros que apenas levantam ligeiramente a voz. É o gajo que perante os apedrejamentos diz, cautela, qualquer dia qualquer um leva com um calhau e, pior, qualquer dia um caso destes torna-se banal. Mas também é o gajo que diz, ainda bem que a mulher deu o grito do Ipiranga e ainda bem que à conta da coragem dela houve outras que também ganharam coragem, isto assim é capaz de mudar. Mas ninguém quer saber destes gajos de consenso. As barricadas são mais atraentes, trazem-nos mais comparsas. Mais "nossos" a quem pertencemos. Mas também trazem feridas. Que podem demorar muitas décadas a passar. Quando passam. Há cicatrizes que, de tão fundas, doem sempre que o tempo muda. 
Com o #metoo será a mesma coisa.

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