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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Azul-petróleo

Cristina Nobre Soares, 21.03.19

A mulher do casaco azul-petróleo, que veio para Lisboa no mesmo autocarro do que eu, também regressa agora. Acho engraçado quando isso acontece. Eu fui dar aulas, esperei o 18 lamentando não ter sombra, passei por debaixo da ponte, ignorei o homem que me pediu lume (isto ainda se faz? ), pensei que as noites em Lisboa são mornas para serem caminhadas, pedi um chá de limão no café ao pé da paragem e a mulher que me atendeu explicou-me, com brio exagerado, que naquela casa os cariocas de limão são sempre servidos em chávena grande, reparei nas luzes das janelas por detrás da treliça de betão. E a mulher do casaco azul-petróleo, o que terá feito, cumprindo as mesmas horas do que eu? Imagino demasiadas hipóteses, algumas verdadeiramente parvas. Só nós é que temos vidas sem nada a assinalar, os outros têm as imensas possibilidades do que não fazemos. Reparo que a treliça de betão faz uma varanda. Isto porque alguém abriu a janela e veio cá fora. O autocarro chega e a mulher do casaco azul-petróleo diz para alguém atrás de mim, eu cheguei depois desta senhora.