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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Aviões

Cristina Nobre Soares, 08.02.19

Vinha às terças e quintas-feiras, das seis às sete da tarde. Chamava-se Luís, curvava-se de magreza num corpo desajeitado pelos dezasseis anos. Ele tem muitas dificuldades no inglês, mas é um sobredotado a história, dizia a mãe. É um prodígio a decorar datas, diz lá algumas à Cristina para ela ver, vá anda, é um prodígio, decora tudo o que é datas, ele agora está assim encolhido, mas devia ver, decora tudo, vá, diz lá algumas, que idade tão parva esta valha-me Deus. Para as línguas é que é uma dificuldade, anda, desencolhe-te que assim a Cristina ainda pensa que és parvinho. Ele baixava a cara cheia de acne e agarrava um dos braços. Tinha uns olhos muito escuros e mortiços e meia dúzia de pelos em cima dos lábios. Sentava-se ao meu lado, com um cheiro excessivo a água de colónia ou perfume, que me fazia uma tremenda dor de cabeça e só falava para responder às minhas perguntas, sem nunca me olhar de frente. Falámos uma única vez. O que é gostas de fazer? Perguntei-lhe. Aviões, respondeu-me. Gosto de aviões. Gostavas de pilotar aviões? Não, respondeu-me. Gosto de os ver. Faço colecção. As explicações são um esforço grandote nas nossas contas, mas tem que ser, para ver se ele levanta estas notas, que ele quer ir para direito, não é Luís? Anda, responde, não sejas atado, que a Cristina ainda pensa que és tonto.
(Acabou o ano com 14 a inglês e trouxe-me um avião pequenino, daqueles de brincar, no último dia da explicação. Dura mais do que flores ou aquelas coisas que é costume dar, disse-me. Esteve muito tempo pousado na minha escrivaninha. Perdi-lhe o rasto quando me vim embora de Lisboa.)

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