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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Às vezes gostava de ser burguesa. Mas lendo esta primeira frase é óbvio que nunca o serei, pois “ser burguesa” é coisa que terá caído em desuso no vocabulário por volta de mil novecentos e oitenta e seis. Não é moderno, cheira a piquetes de greve do fim da década de setenta e a muros pintados na vinte e quatro de Julho. Mas às vezes gostava de ser burguesa. Ser uma delas. Têm sempre os cabelos impecavelmente alinhados com o seu enfado perante o mundo. Pegam nas chávenas de chá sem que se lhes notem as mãos, que as burguesas têm mãos invisíveis, que nunca incomodam à vista pois sabem sempre onde estar pousadas. Sabem sempre quando sorrir, quando estar atentas, como falar de política sem mostrar filiação ou entusiasmo. Sabem qual é melhor loja para comprar rilletes em Paris e qual o musical que está em cartaz no Her Majesty’s Theatre. Não roem as unhas, nem lhes pinga o nariz por causa rinite alérgica. Sempre impecáveis. Elas sabem que eu gostava de ser como elas. Talvez por isso me tolerem e finjam que não vêm as nódoas de chá ou café, que me vão caindo no guardanapo enfolado no colo, ou que não reparam no meu cabelo sempre despenteado, e sorriem, maternais, às minhas ideias sobre mudar o mundo, as quais explico sempre com excesso de gestos e de mãos. Riem-se muito de tudo o que lhes digo, ai Cristina, tu e as tuas ideias loucas são o máximo. E penso, que isto de não pertencer a sítio algum é uma maçada.
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