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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Tinha um miúdo na minha turma da 3ª classe, o Luís Filipe, que quando soube que eu tinha nascido em Moçambique, me disse com ar entendido: ah, mas afinal, tu és preta. Não sou nada, disse-lhe eu, a mostrar-lhe a minhas mãos bem leitosas, sou branca. Não, afirmou ele peremptoriamente, és preta por baixo. Vais ver. E eu pensei que se calhar era verdade, porque uma prima minha me tinha dito que eu ia começar a ficar preta pelo umbigo, porque tinha nascido “lá na terra deles". Eu já tinha percebido que ser retornado não devia ser lá uma coisa muito boa, pelos nomes que chamavam ao meu pai quando íamos passear a Sintra, no Cortina de volante ao contrário. E agora, ao ouvir o Luís Filipe, percebia que ser preta ainda devia ser pior. E eu não era preta. Preto era o Eliseu, que se sentava sempre nas carteiras do fundo. Também tinha, na minha turma, um miúdo que era cigano. O Fernando. Nem sempre ia às aulas e a minha professora tratava-o de forma displicente, a dizer que ele tinha de tomar banho. Por isso também devia ser mau ser-se cigano, até porque a minha mãe dizia que eles roubavam nos preços, quando ia à praça de Algés. O Fernando e o Eliseu também foram da minha turma do ciclo. Uma vez deram uma sova a um rapaz que me apalpava sempre à entrada da escola. E disseram que os chamasse se eu precisasse de ajuda, porque sabiam que ser rapariga devia ser complicado. Os outros não fizeram nada.Talvez fossem cegos.
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