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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Num mesmo parágrafo, longo, a narradora usa fragor, fremente e inculcada. A página estreita-se e a sua voz esganiça-se com trejeitos de boca. E eu lembro-me de uma tia minha que falava assim, sentada de costas muitas direitas, cujo cabelo era enrolado semanalmente numa banana irrepreensível. Bebia chá por umas chávenas de porcelana muito fina e não comia, debicava. Fazia colecções de tudo, que exibia em vitrinas que iluminavam um corredor estreito, onde uma imitação de tapete persa abafava o ranger das tábuas à nossa passagem. Meninas, não corram, dizia ela muito direita, mas sem nunca se zangar, que isso, decerto não lhe ficaria bem. E nós tentávamos correr em bicos de pés. Ouvia-se na mesma. Volto ao livro, mas continuo a ouvir a voz esganiçada da minha tia ao fundo do corredor. Descalço os sapatos. Talvez assim possa ler sossegada.
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