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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Ainda

Cristina Nobre Soares, 14.11.20
Há sempre uma calmaria antes de chegar a tempestade, dizia a avó da Patrícia, da mesma maneira que disse outras tantas certezas que tinha, encostada ao balcão da cozinha enquanto lanchávamos. Era muito supersticiosa, acreditava em espíritos que voltavam, sabia muitas rezas, muitos responsos, sabia ler nas entrelinhas de todos os acasos, do sal que se entornava, das ventanias e trovoadas, dos dias quentes e abafados, das luas novas e cheias, dos ninhos de andorinha que alguma pedrada desfizera, do piar das corujas e do crocitar dos corvos. Até na lentidão do tempo ela via um presságio e usava a palavra “ainda” como um aviso. Ainda não há notícias, ainda não tocou o telefone, ainda não choveu. Antecipava o passar do tempo por acreditar que antecipava o malfadado destino, que assim o danado não apanharia de surpresa.

O recolher obrigatório ainda não chegou aqui, disse eu, hoje, ao telefone, à minha irmã e a avó da Patrícia levantou-nos as canecas do leite, olhou para o céu limpo pela janela da marquise e disse, vão brincar lá fora, mas só um bocadinho, que eu hoje sei que ainda vai chover.

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