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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Ela suspira e comenta resignada: Afinal temos de pertencer a algum sítio, não é? Eu digo-lhe que sim. Porque sei que é algo, que de alguma forma, conforta as pessoas. E lembro-me de ser miúda e dos meus pais dizerem a meu respeito, esta nasceu lá. Lá, era como eles se referiam a Moçambique. Lá. Um sitio sem nome, fossilizado num tempo que deixara de existir. E lembras-te de alguma coisa? Perguntavam-me as pessoas. Eu dizia que não. Veio muito pequenina, tinha ano e meio, diziam os meus pais. E as pessoas perdiam o interesse, porque uma pessoa sem memórias ainda é pior do que uma pessoa sem terra. E não tens vontade de lá voltar, de a conhecer? Também não. Lá, era um sitio que morava apenas nos álbuns de fotografias e nas conversas de olhos húmidos, dos adultos. Cá, o sitio onde cresci, quase se tornou na minha terra. E era um bairro suburbano feito de prédios mal construídos e rotinas pardas. Mas era tambéma harmónica do amola tesouras nos primeiros dias de chuva, os descampados à espera da construção de outros prédios, onde brincávamos aos índios e cowboys e apanhávamos azedas para chupar. Era o quiosque do senhor Leonel, aonde a minha irmã me mandava comprar a TV guia e um maço de português suave. Era uma terra onde ninguém tinha nome, onde toda a gente tinha aquela invisibilidade dos desenraizados. Se temos de pertencer a algum sítio? Não sei. Talvez porque a minha terra seja eu. Uma espécie de corpo errático que se empresta, sem nunca pertencer a sítio algum.
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