Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Perguntam-me muitas vezes como é viver na província. Noto-lhes nos olhos, cansados das rotinas urbanas, uma espécie de desejo de terra prometida. E para lhes preservar o idílio digo-lhes o que querem ouvir. Falo-lhes da tranquilidade, do tempo que parece ser maior, da ausência de cinzento e horas perdidas no trânsito. Não lhes minto, que isto é uma grande verdade. A verdade que me vai fazendo ficar, apesar das saudades da cidade. A outra verdade, a que tem menos pássaros pela manhã, guardo-a para mim. Não lhes conto que viver na província é ser estrangeiro para sempre. Troca-se o anonimato da cidade pelo rótulo “não é de cá”. Na província as pessoas cresceram juntas, conhecem sempre alguém que conhece outro alguém. Uma cadeia de ligações que nunca nos toca, porque desemboca sempre no passado. Num passado que aconteceu um dia antes de chegarmos à província. Não, isto eu não conto às pessoas da cidade. Em vez disso, continuo a falar da qualidade de vida, do faisão que sobe e desce a minha rua, sem vergonha nenhuma, do homem que me cumprimenta sempre no cruzamento, e de quem eu não sei o nome, mas sei que ele saberá o meu e onde moro, que tenho um filha e que não sou de cá. As pessoas da cidade suspiram e dizem que um dia farão como eu. Eu sorrio e respondo sempre a mesma coisa: um dia também regresso à cidade. Afinal, para ser estrangeira preciso de ter um sítio onde voltar. Um lá. Que é de onde sempre fui: de lá. Os de cá têm a sua razão.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.