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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

A prima Odete

Cristina Nobre Soares, 10.08.20

A prima Odete pôs o marido fora de casa, Domingo, dia sete de Dezembro de mil novecentos e oitenta. Três dias depois de ter apanhado o marido, em quase flagrante, graças a uma factura de bolo de aniversário, massa de pão-de-ló, um quilo e cem, recheio de doce de ovos, duas velas, um dois e um seis, menos sete anos que os seus, feitos Setembro passado, e uma garrafa de espumante. Foi a gota de água ao fim de nove anos de casamento, uma filha e três ou quatro amásias, fora a vizinha do terceiro, que a prima Odete garantia que pelo menos com os olhos ele a tinha comido.

Pôs-lhe a roupa toda, ainda com os cabides e as dobras das gavetas, espalhada na cama com grande dramatismo, como vira numa novela da Globo, que embora anos mais tarde dissesse ter sido o Astro, ficou-lhe na ideia a possibilidade de ter sido naquela em que a Sónia Braga fazia de mãe da Glória Pires, e disse-lhe, Zé Manel, põe-te andar, que a casa está em nome do meu pai.

E o Zé Manel pôs-se andar, se bem que quase inocente dessa vez, nem o bolo nem a garrafa de espumante foram encetados, pois o encontro em casa da aniversariante foi sabotado pela notícia da queda do Cessna do Sá Carneiro, que a rapariga, mais do que militante ferrenha da AD era devota da Snu, usando até uma banana como a dela, ficou em saia e soutien, lavada em lágrimas a ver a notícias na televisão e o arranjinho desfez-se por puro desgosto democrático.

A prima Odete pô-lo então a andar nesse Domingo, antes de almoço.

Depois de ele bater com a porta, foi buscar a filha a casa dos pais. A mãe, a tia Maria Adelina, fez carne assada na panela de pressão e perguntou-lhe o que é que ela ia vestir no dia seguinte para ir trabalhar, que o país estava de luto pelo primeiro-ministro e a prima Odete, enquanto punha a mesa, respondeu:

- Sou capaz de levar o vestido de malha. O vermelho.

 

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