A prima Odete
A prima Odete pôs o marido fora de casa, Domingo, dia sete de Dezembro de mil novecentos e oitenta. Três dias depois de ter apanhado o marido, em quase flagrante, graças a uma factura de bolo de aniversário, massa de pão-de-ló, um quilo e cem, recheio de doce de ovos, duas velas, um dois e um seis, menos sete anos que os seus, feitos Setembro passado, e uma garrafa de espumante. Foi a gota de água ao fim de nove anos de casamento, uma filha e três ou quatro amásias, fora a vizinha do terceiro, que a prima Odete garantia que pelo menos com os olhos ele a tinha comido.
Pôs-lhe a roupa toda, ainda com os cabides e as dobras das gavetas, espalhada na cama com grande dramatismo, como vira numa novela da Globo, que embora anos mais tarde dissesse ter sido o Astro, ficou-lhe na ideia a possibilidade de ter sido naquela em que a Sónia Braga fazia de mãe da Glória Pires, e disse-lhe, Zé Manel, põe-te andar, que a casa está em nome do meu pai.
E o Zé Manel pôs-se andar, se bem que quase inocente dessa vez, nem o bolo nem a garrafa de espumante foram encetados, pois o encontro em casa da aniversariante foi sabotado pela notícia da queda do Cessna do Sá Carneiro, que a rapariga, mais do que militante ferrenha da AD era devota da Snu, usando até uma banana como a dela, ficou em saia e soutien, lavada em lágrimas a ver a notícias na televisão e o arranjinho desfez-se por puro desgosto democrático.
A prima Odete pô-lo então a andar nesse Domingo, antes de almoço.
Depois de ele bater com a porta, foi buscar a filha a casa dos pais. A mãe, a tia Maria Adelina, fez carne assada na panela de pressão e perguntou-lhe o que é que ela ia vestir no dia seguinte para ir trabalhar, que o país estava de luto pelo primeiro-ministro e a prima Odete, enquanto punha a mesa, respondeu:
- Sou capaz de levar o vestido de malha. O vermelho.
