por Cristina Nobre Soares, em 28.06.18
Arrumo a secretária, coisa que raramente faço. Na secretária onde trabalho, que é enorme, de madeira de cerejeira, mora um caos quase permanente de cadernos, livros, canetas, correspondência, canecas de chá esquecidas. Comprei-a há muitos anos numa loja de móveis muito pequena, tão pequena quase não nos conseguíamos mexer lá dentro, e que hoje é uma loja de artigos esotéricos e de cristais. Os donos, um casal do Norte, fizeram um desconto muito grande, dizendo que não a conseguiam vender por ser grande demais. Tem inclusive gavetas para guardar CDs que, obviamente, não uso há muito tempo, tanto que entretanto a madeira inchou e já não se conseguem abrir. Tem também um compartimento para uma torre, cuja parte de trás teve de ser furada, para que passassem os cabos, por um marceneiro a quem faltavam dois dedos na mão esquerda e a cabeça do polegar da direita. Tem aqui uma secretária para a vida, disse-me, e aconselhou-me a passar óleo de cedro de vez em quando. Adoro o cheiro do óleo de cedro, tanto que às vezes abuso na quantidade que ponho, era assim que ficava a cheirar a casa depois da minha mãe fazer as limpezas grandes. A óleo de cedro e a Pó Vim.
Ficou um mimo depois da arrumação. Lá fora, o céu embrulha-se num cinzento que anuncia chuva e o carvalho agita-se. O vento está feio.