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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

A coragem é um bocado treta

Cristina Nobre Soares, 01.02.17

A coragem é uma coisa muito mal entendida. A coragem, tal como o amor, é uma coisa que fica sempre melhor nos filmes. O amor dos filmes é muito mais arranjadinho. Acorda sempre sem ramelas e sem os olhos inchados. O amor dos filmes tem sempre a música de fundo certa e as cenas de sexo são perfeitas. Ninguém fica com as calças enroladas nos tornozelos, nem com os colchetes do soutien empenados. É a mesma coisa com a coragem. Nos filmes as pessoas corajosas têm sempre o peito muito para fora e multidões a segui-las. A coragem dos filmes é épica, muda vidas (a música de fundo também ajuda muito a compor a coisa), inspira as pessoas só por verem o trailer. Na vida real a coragem é um bocado treta. É a chamada também-não-tinha-outro-remédio. Tem muito pouco glamour, porque as pessoas vão sempre de esguelha, encolhidas, a suarem debaixo dos braços e com a boca mais seca do que nas ressacas. A coragem das pessoas reais é como quando a gente passa por uma matilha de cães com muito mau ar. A ideia é passar depressa, sem olhar para o lado para ver se os cães não dão pela adrenalina. Depois ajeita-se a roupinha, limpa-se o suor das mãos e segue-se caminho. Passou. Os outros depois dizem, ena que valente que tu foste! E uma pessoa diz, ah, pois fui muito valente, sim senhor. Mas pensa, também não tive outro remédio. A outra hipótese era ficar quieto à espera da morte. E em andamento sempre lhe damos mais trabalho.