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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Sempre que mudo de fotografia de perfil acontecem duas coisas: tenho uma quantidade de likes abismal relativamente aos meus textos, o que me leva a pensar que devo ser melhor a sorrir do que a escrever, e um ou dois reparos por parte de almas mais atentas sobre a necessidade de edição dos meus pés de galinha. E eu, como em muitas coisas na vida, fico a pensar. Que somos criaturas que temem a memória na proporção inversa ao fascínio que têm pela ilusão. Lembro-me de ser miúda e ficar a suster a respiração quando o ilusionista serrava a assistente ao meio. É tudo a fingir, diziam-me os adultos, para me tranquilizar. E eu sabia que era, mas metade da piada daquilo era eu fingir que aquilo era magia, porque assim a tornava possível. E cedo percebi que há mentiras que nos fazem tremendamente felizes. Parecermos dez anos mais novos numa fotografia, depois de a editarmos no Photoshop, é uma delas. Mas por cada linha, cada ruga que apagamos, há uma memória que vai atrás. Um preço um pouco elevado, talvez, a pagar por esta ilusão. O senado romano aplicava a damnatio memoriae, a condenação da memória, aos traidores e aos que tivessem desonrado Roma. Esta consistia na eliminação do passado dessa pessoa, como se nunca tivesse existido. A censura de Estaline ficou conhecida por fazer o mesmo, chegando mesmo a apagar, de fotografias, o rosto de membros dissidentes do partido. Se apagares, se eliminares, se não falares é porque não existiu, não aconteceu. Porque mesmo que saibas que é uma ilusão, com sorte um dia acreditas no próprio truque. Eu prefiro lembrar, aliás a coisa mais preciosa que tenho é a memória, sem a qual não escreveria. Eu prefiro lembrar por mais que me doa ver a passagem do tempo no meu rosto. Lembrar é sempre um exorcismo. Seja ele pessoal ou social. Mas vão por mim, que a memória é única magia realmente honesta que temos. Feita de oxidação, de caminho, de rugas, erros, vergonhas. Mas sem ela seremos apenas corpos estranhos a vaguear no espaço-tempo da ilusão dos outros.
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