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A ciência quando nasce é para todos?

por Cristina Nobre Soares, em 15.05.19

 

Há 19 anos, mais ou menos por esta altura, defendia o meu trabalho final de licenciatura. Com um pomposo título de 18 palavras, não é mais do que um estudo sobre a qualidade de água de 3 albufeiras. Só que em vez de usar parâmetros químicos, como o teor em oxigénio, nitratos, etc., usámos a presença de determinados insectos. Isto porque há insectos que só se dão em águas muito limpas (a ordem Plecoptera, por exemplo) e outros, cuja presença é logo sinal de que aquilo não está nada bom (ordem Diptera, por exemplo). Ou, como o meu primo Carlos muito bem disse e resumiu, foi um estudo sobre melgas, alfaiates e águas inquinadas.

Depois de quase um ano a identificar milhares (sim, milhares) de insectos aquáticos e horas infindas a processar dados em computadores, aos quais só faltava um pedal, lá comecei a escrever a bendita tese.

Dado que 99,9% da bibliografia que me serviu de suporte era em inglês, a boa da Cristina achou que podia escrever uma tese como os ingleses e os americanos escrevem: de forma simples, sem floreados, nem talha dourada. Claro que dei com os burros na água logo na revisão das primeiras páginas e ainda tive de ouvir: a Cristina escreve como se tivesse saído da escola primária. Ou seja, mal.

A partir daí lancei-me na empreitada de escrever como a academia escreve: de maneira a que só quem tenha estudos a consiga perceber. Afinal isto era uma coisa disruptiva (não era, os americanos tinham litros destes estudos), complexa (não foi, foi trabalhosa, que é uma coisa muito diferente) e multidisciplinar (treta, basicamente fiz tudo sozinha). Mas tive de escrever de forma a parecê-lo. E deve ter parecido, dado que tive 19 valores.

Ainda assim, no dia da defesa, ouvi que o meu relatório estava redigido de forma ”Um pouco simples demais para a formação académica de quem a ia ler. Qualquer dia estamos a escrever para o trolha”. Ou seja, não tinha voz passiva, nominalizações e frases com mais de 50 palavras em quantidade suficiente para ter sainete académico.

Só que não.

A escrita de ciência é como o sol (e a água de boa qualidade): quando nasce tem de ser para todos. Não é um quintalzinho privado, nem um galão para se puxar. É conhecimento que, através de uma passagem de testemunho de milhares de anos, nos trouxe até aqui. Partilhá-lo de forma clara e acessível é uma forma de gratidão, de dever, nem que seja pelos contribuintes.

Lembro-me de uma história que um amigo meu me contava: que quando tinha ido fazer o ERASMUS à Suécia, também mais ou menos há 20 anos, as senhoras da limpeza da universidade também eram chamadas para assistir aos seminários. Os seminários, lá, eram para todos.

Hoje, depois da minha vida ter dado muitas voltas e de ironicamente de me ter feito retornar ao ponto de partida, mas agora juntando os meus dois mundos, a escrita e a ciência, passam-me pelas mãos teses de mestrado, às quais eu dou uma ajuda na estrutura narrativa e na clarificação dos conceitos. E penso várias vezes: será que o trolha e a senhora da limpeza perceberiam a utilidade desta tese? Tomara que sim. Seria sinal de que a comunicação de ciência caminhava para um sítio melhor: um sítio para todos.

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4 comentários

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De Sarin a 15.05.2019 às 16:29

Mas não.
Academicamente, a escrita quer-se (querem-na) hermética e cheia de tecnicismos, nada de conceitos fluídos e claros.

A Ciência, as Leis... porque abrir os textos à compreensão dos comuns cidadãos é democratizar os feudos onde o corporativismo é suserano.

Resolvi parte do problema com tabelas, fluxogramas, esquemas vários e imagens. Adoro pão com queijo, mas nestas alimento a seco.
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De Maribel Maia a 15.05.2019 às 21:24

Ler talvez não, mas explicado em palavras mais simples, provavelmente sim...
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De Narciso Santos a 16.05.2019 às 14:28

Parabéns pelo post!
Tive essas dificuldades na minha tese de mestrado e agora 100000000% de dificuldades na minha tese de doutoramento!
Eu vem digo a minha orientadora que não sei escrever "doutorês" ou como eu apelido de "vossa linguagem", mas o que é certo e que ninguém me obrigou a me meter nesta dor de cabeça, logo há que aprender a escrever linguagem cientifica mesmo que a mesma no "mundo real" não seja necessária para nada!
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De Mia a 23.05.2019 às 20:54

Por vezes leio textos dos quais não percebo nada. Não são textos académicos, suspeito que as vezes se complica para parecer mais inteligente.
Gostei do post

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