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Morrer com dignidade

por Cristina Nobre Soares, em 25.05.18

Acompanhei um pai enfermo e velho nas suas últimas idas ao hospital. Sei com que falta de esperança são tratados os velhos enfermos, por mais profissionalismo que haja da parte de quem os trata. O fim é óbvio para todos. Mesmo quando só muito tempo depois de este acontecer nos apercebemos que ele já havia sido anunciado pela forma como se trata um velho e enfermo.

Sempre fui e sou uma defensora do direito à eutanásia. Morrer com dignidade é um direito. Mesmo que esse direito não seja para nós e que nunca se aplique à nossa vida e aos nossos valores.

No entanto, morrer com dignidade não passa apenas pela eutanásia. Passa também e acima de tudo pela existência de cuidados paliativos dignos e por uma maior humanização do nosso Sistema Nacional de Saúde. A legalização da eutanásia tem de ser avaliada neste todo. Se o que está em causa é o direito à escolha, então devemos ter acesso todas as escolhas possíveis e estas têm de ser reais e não apenas teóricas. Não se deve (pois infelizmente pode) olhar para o problema apenas por um dos prismas. A cegueira começa sempre pelos ângulos mortos. E isto pode ser perigoso.

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Os nossos heróis

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.18

Há muitos anos, li um livro do Érico Veríssimo, “Música ao longe”. A protagonista, Clarissa, passa o livro a suspirar por um poeta, autor do livro “Música ao longe”. Imagina-o à imagem e semelhança dos seus poemas: belo, eloquente, enigmático. 
Um dia, o poeta vem à sua cidade e Clarissa conhece-o. Uma desilusão. O poeta afinal é uma criatura grotesca, desajeitada e nada, mas mesmo nada eloquente. Clarissa repudia-o e nunca mais olhará para os poemas da mesma maneira.
É um risco conhecermos os nossos heróis. Podemos descobrir que são tão humanos quanto nós.

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Da política

por Cristina Nobre Soares, em 23.05.18

A política

No princípio dos anos 80, as crianças não tinham direito a grande coisa. Não havia workshops de música clássica para crianças. Não havia canais de desenhos animados 24 horas, sobre 24 horas. Havia uma hora por dia ao fim da tarde e ao fim de semana de manhã. À conta disso papava-se tudo o que passava na televisão, do Vasco Granja à TV Rural e Direito de Antena. Sem contar com os anúncios, dos quais sabíamos os "jingles" de cor. Era uma grande seca. Para além disso os adultos ignoravam-nos bastante, quando não em absoluto, vá, vai lá brincar com os outros meninos, que isto é conversa de crescidos. Eu, como fui muitas vezes a única criança no meio de adultos, nem sempre tinha essa opção. Entretinha-me a ouvi-los. A ouvir, porque nessa altura ninguém queria saber da opinião dos miúdos para nada, e os miúdos que a davam eram considerados “mal-educados” e pespinetas. De maneira que eu entretinha-me a ouvir.

No princípio dos anos 80 os adultos falavam muito de política, exaltavam-se com isso. O estado da nação discutia-se em qualquer sala comum. Aprendi que a política era uma coisa extremamente importante, capaz de fazer zangar famílias inteiras, mas também de juntar amigos para a vida.

Havia expressões que significavam sempre qualquer coisa política, como aquela do “chateia-me ser sequestrado” ou “ o povo é sereno” ou “ olhe que não, olhe que não” que o meu pai dizia muito em tom de troça. E havia nomes que fui fixando. De há uns anos para cá esses nomes têm vindo a morrer. Há uma espécie de orfandade nisso. Mas, curioso, eu tenho quarenta e quatro anos, sempre tive muito "sangue na guelra" no que diz respeito à politica,mas raramente falo de política com a minha filha. Pergunto-me o que terá acontecido durante estes anos.

Há dias em que acho que a minha filha tem mais sorte do que eu. Outros, confesso, acho que a sortuda afinal fui eu.

 
 
 

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Dia do autor português

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.18

- Ah, eu isso também seria capaz de fazer.
- Mas não fizeste.

Pode ser um livro de 500 páginas, pode ser uma única frase que se torna a impressão digital de qualquer coisa. Não interessa. É algo que foi criado, que antes não existia, que talvez nunca existisse se não fossem as mãos e o pensamento desse tal autor. É algo que teve de ser pensado, repensado, criado, alterado, reescrito, deitado fora, vezes sem conta. Algo que demorou horas e horas de trabalho de alguém a ser criado. De trabalho. De trabalho. Que tantas vezes por não ter relógio de ponto, por não ser quantificável como um projecto de engenharia, como uma consulta de medicina, é visto eternamente como um hobbie, como uma tentação do ego, uma vaidade que se paga com elogios e palmadinhas nas costas.

Não é.

Pensemos nisto no dia do autor português. E no valor desse trabalho.
Que o respeito pelo autor e pelo seu trabalho, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não se mede em aplausos.

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Dona Carlota

por Cristina Nobre Soares, em 21.05.18

Hoje, enquanto fazia o jantar lembrei-me da avó da Patrícia. Lembro-me muitas vezes dela, da forma como ela tirava o pé do sapato e o encostava na perna enquanto mexia as coisas no fogão. Dos bolinhos de coco que eu adorava e da sopa de couve-flor que eu detestava. Dos trava-línguas, das canções, das histórias de quando era rapariga nova. Dela debruçada a apanhar a roupa do estendal enquanto nós brincávamos na marquise. Do quadro, logo à entrada, da menina a ler com um vestido amarelo, mais os de flores bordadas a ponto cruz e o prato de loiça com uma quadra, da fruteira com fruta de plástico a fingir, das palavras que ela dizia mal e das novas que nos ensinou, da bata que vestia por cima da roupa, isto é para trazer por casa, da forma como ela me limpava as lágrimas, és muito chorona, dizia-me ela, e olha, quando a gente chora muito ficamos feias. Chamava-se Dona Carlota.

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Decluttering

por Cristina Nobre Soares, em 18.05.18

Embirro solenemente com o uso de palavrinhas inglesas, armadas aos cágados, que, a maior parte das vezes, só lá estão para dar patine a ideias pífias e inconsistentes. Mas há palavras em inglês que adoro por terem um significado que não se traduz. Por trazerem uma ideia nova. Uma delas é o "decluttering". Life decluttering. Volta e meia tem de ser.

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Em sal te tornarás

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.18

Acordei a meio da noite por causa de uma insónia, raramente as tenho. Lá fora, havia uma escuridão completa por ter faltado a luz na vila. Não se via nada, até por ser lua nova. Lembrei-me que ainda há dias escrevi um texto sobre isto, sobre confiar no que não se vê e, ao lembrar-me, os cães uivaram lá ao fundo ( ou talvez tivessem uivado antes ?). Demorei para voltar a adormecer, assim como demorei o dia inteiro para acordar. Hoje, foi um dia estranho, daquela estranheza que arrasta nas horas e as faz parecer lentas. A dormência do tempo foi decerto uma ilusão criada por um Deus qualquer que se terá compadecido da nossa mortalidade. 
A meio da tarde, comentei com o Mário, a propósito da necessidade de deixar o passado para trás, que seria incapaz de o olhar como terra queimada. Respondeu-me que bastava deixá-la ao abandono. Penso nisto agora, sem chegar a conclusão alguma. Nada me ocorre. Talvez por ter sido um dia estranho. Talvez por não ter dormido. Talvez por ter medo de olhar por cima do ombro. Em sal te tornarás.

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Apazigua-me

por Cristina Nobre Soares, em 15.05.18

Apazigua-me escutar uma história absurda de tão real, o silêncio, o não saber que horas são, pentear o cabelo da minha filha, encontrar um resto de chocolate no fim do armário, o passos na gravilha, de alguém que espero, o ladrar dos cães na escuridão, o som suspenso de um carro que passa, e o deixar-me ficar a esmorecer no contorno negro, ainda morno, das árvores. Depois disto tudo o que havia antes torna-se facilmente num resto.

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Sentir falta

por Cristina Nobre Soares, em 15.05.18

Sentiste falta? Pergunta uma mulher na mesa ao lado. Não sei, responde a outra, acho que foram mais saudades.
E eu penso, enquanto bebo o resto do café e reparo que ainda não é hoje que o tempo vai melhorar, que o que às vezes nos faz mesmo falta é a falta de sentir saudades.

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Não gosto da canção de Israel. Fiquei desiludida por esta ter ganho. Ah, e sim, acho que a indumentária da rapariga a faz parecer a Pucka. E mesmo se eu gostasse da canção continuaria a parecer-me a Pucka.

Mas agora chego aqui ao pelourinho e parece que o que está a dar é humilhar a Netta. Que é gorda, que parece uma porca, etc, etc. (até já andam a dizer que se apropriou da cultura do Japão). Sobre isto não vou sequer perder tempo, pois não há palavras que valham a pena a esta necessidade de humilhar. Porque insultar os outros publicamente é humilhação.

Continuo a não gostar da música e a achar que a indumentária da rapariga é parecida com a da Pucka. Mesmo depois de ter percebido que a letra não é assim tão inconsequente e tem uma mensagem relacionada com o movimento #metoo.Continuo a achar que apesar de até ser uma música diferente, nada tem a ver com a do Salvador Sobral (como já vi comparada por aí). A canção do Salvador, para mim, era boa música. A canção da Netta, para mim*, não é. Ah, que também disseram que o Salvador Sobral era esquisito, parecia um maluquinho. E parecia. E às vezes parece. Mas é genial. Posso estar a ser muito obtusa, mas para mim*, a Netta não é genial. É um produto de qualquer coisa.

Ou seja, como a outra dizia: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O facto de eu achar simplesmente indecente e porco (sim, isto sim é ser-se porco) andarem a humilhar a rapariga, não torna a actuação dela melhor.Para mim* , para variar, passamos da humilhação, da selvajaria nojenta, para o paternalismo. E um dia o meio-termo será lembrado como uma atitude estranha que algumas pessoas extravagantes tomavam. Quando pensar, reflectir sobre os assuntos será uma coisa que nos parece tão estranha, como alguém se vestir com um fato da Pucka para cantar uma canção com cacarejos.

*Sim, para mim. Nada de verdades absolutas e populares. Tranquilos.

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