Quando o Platoon estreou no cinema do Centro Comercial Tropical a Patrícia gabou-se de o ter ido ver, apesar de ainda não ter idade. Disse que tinha entrado com uns amigos mais velhos, um deles já tinha dezoito anos, apalmou-me as mamas na segunda parte, comentou. Não duvidei, até porque a Patrícia parecia mais velha pela maneira como se vestia, como fumava e pintava os olhos, pela naturalidade com que falava com os rapazes e pelas coisas que já sabia por tê-las feito com eles. Perguntou-me se eu não ia ver. Não, dizem que é muito violento, respondi. Ela fez-me um sorriso de gozo, e disse-me, és uma maricas. Ela sabia do que falava. A Patrícia escolhia sempre filmes de terror ou de guerra no clube de vídeo, ignorando os meus protestos, não tem nada de especial, dizia-me, vais ver. E voltava a ignorar os meus protestos enquanto víamos o filme, ria-se à gargalhada, sempre que havia sangue, cabeças cortadas e membros decepados, com as pernas debaixo do rabo, a comer as bolachas de sortido que a avó guardava para as visitas, isto está tão mal feito, vê-se mesmo que é a fingir, destapa os olhos, dizia-me a rir-se e tentar tirar-me a mão da cara, és tão maricas, isto não tem nada de mal, tens medo de quê?
Foi o que ela me perguntou quando lhe disse que não ia ver o Platoon, tens medo de quê? Dizem que é muito violento, repeti. Quem o dissera fora a minha mãe. Não é filme para ti, sentenciara, como sentenciara de outros filmes, de outros livros, de conversas de adultos que me mandava sair da sala. E se os livros eu lia às escondias e as conversas ouvia-as atrás das portas, os filmes agradecia secretamente a censura. Por me sobressaltar com todos os tiros e emboscadas, por não conseguir suportar, sem fechar os olhos ou voltar a cara, qualquer cena que metesse sangue ou violência. Por ser uma maricas. Por ter medo de tudo. E detestei a Patrícia. Detestei-a profundamente por ter razão e por ser tão gira e tão fixe. E acima de tudo, por nunca ter medo de nada, por nem sequer saber o que era o medo. Detestei-a até à última vez em que estivemos juntas, já no 10º ano, num lanche forçado que a avó organizou para ver se nos voltávamos a dar. Nessa tarde, achei-a demasiado velha, cheia de olheiras e com as gengivas acastanhadas. Quando nos fechámos no quarto dela e eu recusei a passa de charro, fez a mesma cara de gozo e disse-me: és uma maricas.
(Vi hoje o Platoon)