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Rebaldaria

por Cristina Nobre Soares, em 28.06.18

A prima Emília era uma senhora já de uma certa idade, mas com muita classe. Tinha viajado muito e falava várias línguas. Falava sobre qualquer tema, era uma mulher muitíssimo culta e dona de um sentido de humor acutilante. Era também ciosa da separação de classes. Cada macaco no seu galho, dizia. Que isto agora, com o vinte e cinco de Abril, é uma rebaldaria. Por este andar, até o filho do merceeiro acha que pode chegar a Presidente da República. Vejam só.

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Do gostarmos muito uns dos outros

por Cristina Nobre Soares, em 27.06.18

Quando eu estava na faculdade, um dos professores que me fizeram ir às aulas era um pedante insuportável. Um “snob” que se gabava das viagens ao estrangeiro que fazia, de só calçar sapatos italianos e que se referia a políticos e a pessoas do meio artístico pelo primeiro nome. Desprezava-nos profundamente, fosse por não termos lido as “Bucólicas” de Virgílio, fosse por nunca termos ido ao MoMa. Aos olhos dele éramos uns broncos provincianos. Quase todos os meus colegas o detestavam e, de facto, era uma criatura intragável, mas eu adorava as suas aulas. O homem era dono de uma imensa cultura e fazia pontes improváveis entre áreas de conhecimento. E mais do que tudo, fazia-nos pensar. Nem que fosse por discordarmos dele, o que acontecia em quase todas as aulas. Aprendi imenso, cheguei a usar exemplos que ele usava, mais tarde, quando fui professora. É difícil explicar como nos deixamos marcar por pessoas assim, quando há este sentido que temos de gostar muito uns dos outros e sermos todos excelentes pessoas. Espero que ele não tenha conta de Facebook. Coitado, matavam-no.

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Coisa bonitas

por Cristina Nobre Soares, em 25.06.18

A arca do enxoval era o tesouro de uma menina. Jogos de lençóis de linho bordados, turcos com remates de crochet, naperons, toalhas de mesa para o dia-a-dia e para receber. Peças que dificilmente se poriam a uso, umas pelo trabalho que davam a engomar, outras por serem totalmente inúteis. A arca do enxoval era tema de conversa entre as mulheres, que gabavam o número de jogos de lençóis que as netas e as filhas já tinham, como se a felicidade lhes dependesse dos metros de pano de linho, do primor dos bordados, das horas postas na renda. Era motivo de orgulho, de felicidade briosa e asseada. Era uma espera para a única vida que se podia esperar: casar. 
Também tive uma arca do enxoval. Desdenhava-a profundamente, que eu era diferente, eu tinha horizontes maiores, mais largos e importantes. As pessoas não percebem, mas a arrogância, frequentemente se torna o único caminho que temos para a libertação. Apesar disso, às vezes, às escondidas, longe de todas as conotações e olhares opressivos, espreitava aquelas riquezas, passava os dedos pelos bordados e admirava-lhes a perfeição. A liberdade também é isso: quando as coisas bonitas são apenas coisas bonitas, sem significarem ou pesarem mais nada.

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C’est une chanson qui nous ressemble,

por Cristina Nobre Soares, em 24.06.18

Na rua das montras, passo por um homem que toca acordeão, uma música francesa, c’est une chanson qui nous ressemble, só me lembro deste verso, sempre fui um desastre a francês, apesar de achar que é uma língua capaz de tornar até a lista de supermercado em poesia. Levo a música no ouvido, tento lembrar-me que canção seria, até que, à saída do parque, no sitio onde há muitos anos costumava estar uma senhora que vendia caramelos e cordões de pinhões, reparo na varredora. Tem a cabeça coberta por um hijab, cuja cor quase se confunde com a das buganvílias que espreitam pelo gradeamento. Hoje, por estar enevoado parecem mais arroxeadas. A varredora pára de varrer, para me deixar passar. Ainda não há folhas no chão, só algumas flores das tílias, folhas só lá para o fim de Agosto, talvez um pouco antes, se o Verão for muito quente. Les feuilles morts. Era assim que se chamava, cantava-a o Yves Montand.

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Tabaco de cachimbo

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.18

Quando morreste pedi o teu cachimbo à mãe. Penso que eu teria mais ou menos a idade da tua neta quando começaste a fumar cachimbo, com uma teoria qualquer de que fazia menos mal que os cigarros. E eu, durante algum tempo, ofereci-te tabaco pelos teus anos. Lembro-me de um que me custou quase oitocentos escudos, comprei-o na tabacaria do centro comercial, a mãe ralhou muito comigo, que eu tinha era de juntar para as férias, mas vinha numa lata muito requintada e cheirava maravilhosamente. Cânfora, como nos perfumes dos homens. Misturavas este tabaco com outro mais corriqueiro, só para dar aroma, dizias tu. E a sala ficava a cheirar a ti. 
Uma vez, disseram-me que as pessoas só nos morrem quando lhes esquecemos a voz e o cheiro. 
Hoje, farias 90 anos.

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O nome do autor

por Cristina Nobre Soares, em 21.06.18

  • O nome do autor não é vaidade, é um direito.

  • O nome do autor não é divulgação, é respeito.

  • O nome do autor não é um favor, é o trabalho dele.

  • O nome do autor não é protagonismo, é honestidade.

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Tecnologia para encurtar isto

por Cristina Nobre Soares, em 20.06.18

Quando alguém parte dizemos, a gente vê-se, continuamos a falar por Messenger, por Skype, por telemóvel, por Whatsapp, pelo Instagram. Eu vou continuar a seguir os teus posts, a pôr likes, a comentar. A gente continua em contacto, vais ver, e viva a tecnologia. Mas, no fundo, sabemos que não vai ser bem assim. Quando alguém parte sabemos que alguma coisa acabou de mudar. Uma coisa maior que a distância. E ainda não inventaram tecnologia para encurtar isto.

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O eucalipto

por Cristina Nobre Soares, em 18.06.18

Em muitos dos largos das aldeias do Oeste, por vezes, o protagonista é um grande eucalipto de tronco imenso, que só dois ou três homens conseguem abraçar, lembrando que já está ali há muitas, muitas, décadas. Tantas que até os mais antigos têm memórias dele.
Por debaixo da sua imensa copa, que enche o largo com o cheiro mentolado nos dias muito quentes, há sempre um banco onde os velhos se sentam para fugir do sol. Onde as crianças brincam, enquanto os pais se demoram à saída da missa. É um estrangeiro amado, estimado por todos. Faz parte da comunidade. Muito diferente daqueles estrangeiros largados em massa por esses terrenos que já ninguém quer, tantas vezes esquecidos, desprezados, a lutarem entre si por um miserável bocadinho de sol. São culpados fáceis numa terra que não é a deles. Pena que não nos lembremos que o que não tem pertença arde mais facilmente.

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Da importância dos livros

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.18

Explicar a importância que os livros podem ter na nossa vida, a quem não lê, é semelhante a dizer a alguém, que acabou de plantar uma árvore com dois palmos de altura, que dali a 30, 40, 50 anos ela terá tamanho suficiente para que os seus filhos e depois os filhos destes e todos que os venham a seguir se possam sentar à sua sombra. E que é esta sombra que nos separa da aridez.

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A minha outra ( e nova) casa aqui no Sapo blogs - Mais de 40

por Cristina Nobre Soares, em 13.06.18

Informa-se os caros visitantes deste estaminé, que também me podem visitar nesta outra casa, onde mora o projecto Mais de 40. 

 

E o que é o projecto "Mais de 40?"

Quando o Mário Pires inaugurou a exposição das Book Loving Girls pediu às retratadas que estavam presentes que dessem o seu testemunho. Todas, de uma forma de ou de outra, comentaram o quanto a sessão fotográfica com o Mário as tinha ajudado a mudar a ideia que tinham da sua própria imagem. A lidar melhor com as suas imperfeições e acima de tudo com o envelhecimento. E eu, na primeira fase dos meus 40, a aprender a lidar com o meu próprio envelhecimento, a estranhar as minhas primeiras rugas, ao mesmo tempo que começava uma nova vida e me sentia mais nova do que nunca, fiquei a pensar nisso. A pensar que o passar do tempo tem duas velocidades, a do corpo e a outra, interior, muito mais lenta. A pensar que a imagem que o espelho nos devolve não corresponde, muitas vezes, à imagem que temos de nós, que prendemos cá dentro. E a pensar que vivemos numa sociedade anti-tempo. Que a amaldiçoa a passagem do tempo, sem se lembrar que a vida é isso mesmo. E se conseguíssemos retratar a beleza da passagem do tempo? E usássemos isso para quebrar preconceitos? Perguntei eu ao Mário. Ele olhou para mim e disse, “’Bora!”. E nesse momento nasceu este projecto. Um projecto que celebra o tempo. O tempo e as mulheres.

Mais de 40

 

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