Duas semanas em casa
Duas semanas em casa. Ir ao supermercado deixou de ser fácil. As pessoas estão ansiosas, com medo, atrás das suas máscaras e luvas e a voz a pedir rapidez e distância de segurança dá um ar distópico à coisa. No campo não se nota diferença nenhuma. Tirando o sino da igreja que se calou. Mas na cidade as ruas estão vazias. Até a prostituta que costuma estar na rotunda, uma mulher muito gasta que entra nos carros dos velhos que encostam mais à frente para disfarçar, desapareceu. Comprei tudo o que precisava e acrescentei um vaso de rosmaninho. Lembrei-me da "Lavender" dos Marillion, mas a música do rádio, aquela muito conhecida dos Snow Patrol, atropelou-a, enquanto eu esfregava as mãos com álcool. Lá em cima, no cemitério velho, o guarda passou entre as campas e eu, em vez de ligar o carro, fiquei a vê-lo como se fosse um acontecimento extraordinário.
Passei o rosmaninho para um vaso maior, devia estar a trabalhar, tenho muito trabalho atrasado, mas, hoje, as horas pesaram-me um bocadinho e sentei-me cá fora a cheirar as mãos, sem me ralar com as unhas sujas de terra, a agarrar a normalidade antes que ela me escape por entre os dedos.
