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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Duas semanas em casa

Cristina Nobre Soares, 27.03.20

Duas semanas em casa. Ir ao supermercado deixou de ser fácil. As pessoas estão ansiosas, com medo, atrás das suas máscaras e luvas e a voz a pedir rapidez e distância de segurança dá um ar distópico à coisa. No campo não se nota diferença nenhuma. Tirando o sino da igreja que se calou. Mas na cidade as ruas estão vazias. Até a prostituta que costuma estar na rotunda, uma mulher muito gasta que entra nos carros dos velhos que encostam mais à frente para disfarçar, desapareceu. Comprei tudo o que precisava e acrescentei um vaso de rosmaninho. Lembrei-me da "Lavender" dos Marillion, mas a música do rádio, aquela muito conhecida dos Snow Patrol, atropelou-a, enquanto eu esfregava as mãos com álcool. Lá em cima, no cemitério velho, o guarda passou entre as campas e eu, em vez de ligar o carro, fiquei a vê-lo como se fosse um acontecimento extraordinário.

Passei o rosmaninho para um vaso maior, devia estar a trabalhar, tenho muito trabalho atrasado, mas, hoje, as horas pesaram-me um bocadinho e sentei-me cá fora a cheirar as mãos, sem me ralar com as unhas sujas de terra, a agarrar a normalidade antes que ela me escape por entre os dedos.

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