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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Domingos

Cristina Nobre Soares, 20.11.20

A prima Odete embirrava solenemente com Domingos. Eram uma pasmaceira, não passava nada de jeito na televisão e tinha de cumprir o frete de ir à missa com a mãe, que o pai tinha sempre alguma coisa para arranjar em casa ou o carro para limpar e a irmã tinha aquela conversa cansativa da religião ser o ópio do povo.

Para além de tudo isso era uma maçada de um dia, pois estava tudo fechado, nem para comprar tabaco, o que implicava que ao sábado tivesse de comprar maços a fazer com conta com Domingo. Pão, só o do dia anterior torrado ou então as carcaças que a tia Maria Adelina congelava à sexta-feira. E bica nem vê-la.

Foi portanto uma alegria para a prima Odete quando, em mil novecentos e oitenta e cinco, abriu uma grande pastelaria ao fundo da rua, que tinha pão de forma fresco (a um preço exorbitante, segundo a Tia Maria Adelina) e ficava aberta até às seis da tarde de Domingo.

- Agora só falta haver um supermercado aberto ao Domingo – comentou a prima Odete, em tom de vitória.

A prima Maria Isabel deu-lhe uma grande prédica sobre os direitos dos trabalhadores, sobre o egoísmo do consumismo ( o tio Macedo achou muita piada a esta rima), que, só porque lhe dava jeito ter onde ir beber a bica e comprar tabaco, não podia lixar a vida aos outros.

A prima Odete suspirou e revirou os olhos, não havia paciência para as coerências da irmã.

E a tia Maria Adelina pegou no saco de pão duro e enquanto dava um beijinho a cada uma das carcaças antes de as deitar fora, disse:

- Sempre vivemos com tudo fechado ao Domingo e ninguém morria. O que é uma dor de alma é deitar pão fora, assim desta maneira.

- Os Domingos doem-me mais – retorquiu a prima Odete.

 

Fruta cristalizada

Cristina Nobre Soares, 18.11.20

Ao contrário da Prima Odete, que vivia para esta altura do ano, a prima Maria Isabel tinha uma embirração particular pelo mês de Dezembro. Não gostava de bacalhau, achava que o Natal era mais uma forma de opressão pelo consumo desenfreado, dizia que o Pai Natal era apenas uma caricatura da água suja do capitalismo americano e no que dizia respeito à religião, limitava-se a revirar os olhos.

Mas, na verdade, a embirração da prima Maria Isabel tinha a ver com uma certa tristeza que os dias curtos cheios de humidade e cheiro a fritos lhe causavam. A pastelaria onde bebia café a meio da manhã todos os dias tresandava a azevias e filhós a partir de dia nove de Dezembro. Eram dias de uma certa agonia.

- É o costume – dizia para o empregado de bigode, ao chegar ao balcão.

Este gritava, “Sai bica! “ e lembrava-a que só aceitavam encomendas de Bolo-rei até dia vinte e um.

A prima Maria Isabel agradecia e acrescentava.

- Não sou grande apreciadora de frutas cristalizadas.

Facto que mudou em Dezembro de mil novecentos e noventa e dois, quando, na Confeitaria Nacional, conheceu o Nuno Maria. Afortunado encontro que lhe trouxe as maravilhas da casca de laranja cristalizada com chocolate e um grande amor e assim lhe superou para o resto da vida a melancolia causada pela mudança da hora de Inverno e alguns assentos à direita da bancada parlamentar. Mas, até morrer, a prima Maria Isabel recusou-se a compactuar com a história do Pai Natal e a fazer o presépio, dizendo:

- É nos detalhes que se revelam os princípios de cada um. O resto é a vida.

 

Ainda

Cristina Nobre Soares, 14.11.20
Há sempre uma calmaria antes de chegar a tempestade, dizia a avó da Patrícia, da mesma maneira que disse outras tantas certezas que tinha, encostada ao balcão da cozinha enquanto lanchávamos. Era muito supersticiosa, acreditava em espíritos que voltavam, sabia muitas rezas, muitos responsos, sabia ler nas entrelinhas de todos os acasos, do sal que se entornava, das ventanias e trovoadas, dos dias quentes e abafados, das luas novas e cheias, dos ninhos de andorinha que alguma pedrada desfizera, do piar das corujas e do crocitar dos corvos. Até na lentidão do tempo ela via um presságio e usava a palavra “ainda” como um aviso. Ainda não há notícias, ainda não tocou o telefone, ainda não choveu. Antecipava o passar do tempo por acreditar que antecipava o malfadado destino, que assim o danado não apanharia de surpresa.

O recolher obrigatório ainda não chegou aqui, disse eu, hoje, ao telefone, à minha irmã e a avó da Patrícia levantou-nos as canecas do leite, olhou para o céu limpo pela janela da marquise e disse, vão brincar lá fora, mas só um bocadinho, que eu hoje sei que ainda vai chover.

Em que pensas tu?

Cristina Nobre Soares, 08.11.20






Hoje, quando acordei, chovia a cântaros. Da minha janela só se via uma cortina cinzenta. Parece aqueles desenhos animados de leste que passavam no programa do Vasco Granja, comentei. Ou aqueles japoneses em que havia uma criancinha órfã à chuva. Quando parou de chover e abriu um bocadinho, fui ao quintal que está cheio de folhas dos carvalhos que vivem do outro lado do muro. Tenho de esperar que o chão seque para varrer as folhas. O Outono é um trabalho de Sísifo no meu quintal. Fiquei cá fora, a pensar nos livros que tenho em cima da mesinha da sala e que ainda não li, no barulho da água nas valetas, um sinal de que chovera realmente muito e que há muitos domingos que não tinha nada urgente para fazer. Só mesmo isso, a pensar nos livros que tenho para ler, nas folhas no quintal e na chuva dos bonecos japoneses e do Vasco Granja. Como eu odiava de morte esses bonecos que eu só via na esperança que ele passasse a Pantera Cor-de-Rosa. Fiquei ali, em pé, imóvel, tão imóvel como ficava em criança, sentada no chão do meu quarto com as pernas à chinesa e a minha mãe a perguntar, em que tanto pensas tu? E eu a dizer-lhe sempre, em nada, talvez já na altura soubesse que os nossos nadas, por não terem espaço no nosso, sobejam quase sempre no entendimento dos outros. Voltei para dentro e comentei, devia ter dado mais uma demão de protector nas cadeiras do jardim. Em que pensas tu? Perguntou-me o Facebook. Em nada, respondi-lhe eu.












 





Essa gente

Cristina Nobre Soares, 02.11.20

Quando a prima Odete descobriu que a deslavada da Anabela tinha vindo de Luanda, passou a embirrar com todos os retornados e a referir-se a eles como “aquela gente”. Dizia que tinham a mania, que tinham vivido à custa do IARN , que tinham trazido droga e dado cabo da miudagem de cá, que se aquilo lá era tão bom que voltassem para a terra deles.

- Olha que não é bem assim, Détinha… – Dizia-lhe a tia Maria Adelina.

A prima Odete ficava danada com quem tentasse defender os retornados. Levava aquilo mesmo a peito, claro que era bem assim, “aquela gente” devia voltar para a terra deles e não andar cá a roubar o que era dos de cá. O emprego, por exemplo.

- É mesmo o desemprego que te dói, Détinha?

- Mas afinal de que lado é a que mãe está?

E a tia Maria Adelina desconversava, falava da novela, da vizinha maluca do terceiro, que deixava o lixo no patim e era um cheiro que não se podia, dos acabamentos da saia e casaco que fora buscar à modista, com aquele corte de fazenda que comprámos na Rua Augusta, lembras-te? Agora é um castigo para me fazer as coisas a tempo e horas e bem acabadas. Qualquer dia começo a vestir-me só no pronto-a-vestir. É que não fica mais caro do que mandar fazer, o que é que tu pensas? E há coisas tão jeitosas, mas é um castigo encontrar número para mim. Uma pessoa enforma com a idade e não há nada que lhe sirva.

- É gente que não interessa a ninguém. – Repetia a prima Odete.

A tia Maria Adelina levantava-se e fazia-lhe uma festa na cabeça.

- Tudo passa, filha. Vai cada um à sua vida e daqui a uns anos já ninguém se lembra de nada.

A prima Odete apagava irritada o cigarro na borda do pires.

- E depois de esquecermos tudo ficamos com o quê?