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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Cafeteira italiana

Cristina Nobre Soares, 29.05.20

Faço mais um café na cafeteira italiana. Deixámos a máquina de cápsulas há algum tempo por causa do lixo que fazia. Quando quero um café forte vou à rua. Mas a pandemia trocou-me as voltas e durante o tempo em que estivemos confinados não tive outro remédio senão habituar-me a este café mais liquefeito e sem espuma. Passo os olhos pelo Facebook. Este "scroll" do meio da manhã é o abrir do estore que me falta. Faço alguns "likes", nenhum comentário. A olhar pelo meu “feed” parece que estamos na pasmaceira de Agosto, mas sem as fotografias da praia e das férias que têm de parecer absolutamente felizes. Estas foram substituídas por notícias sobre a pandemia e sobre a crise, por posts sobre medo, receio, cansaço e claustrofobia e algumas fotografias sobre o alívio do desconfinamento. Também há mais murais em silêncio, como se tivessem ido para fora. Eu própria não tenho grande vontade de escrever alguma coisa. A incerteza é um vazio sem grande material de escrita. A cafeteira gorgoleja, apago o lume e sirvo o café numa chávena pequenina. Sabe-me bem o silêncio. Fecho o Facebook. Não há Verão que não passe.

Está sol

Cristina Nobre Soares, 02.05.20

O café da rua principal está a vender em “take away”. A dona, de viseira, atende num balcão improvisado à entrada. As pessoas, umas com máscara, outras sem, fazem uma bicha mais ou menos disciplinada no passeio. Volta e meia, um carro pára, abre-se o vidro e lá de dentro cumprimentam alguém que esteja na bicha. Falam uns com os outros com aquele entusiasmo que pomos quando não vemos alguém há muito tempo.
Bebemos o café, em copinhos de papel, encostados ao carro. No prédio em frente um homem observa-nos por detrás do vidro da janela. Partilhamos o pacote de açúcar. Comento que o homem da janela tem a barriga à mostra. Rimos. Está sol. Apesar de ter posto açúcar a mais e já estar morno, o café sabe-me pela vida.