Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Quarenta dias

Cristina Nobre Soares, 23.04.20

Hoje, reparei que passaram quarenta dias de recolhimento. Pensei em escrever algo formidável, a assinalar a efeméride. Mas não me ocorre nada. Absolutamente nada. Não noto o ar mais leve, o céu mais azul ou a Primavera mais exuberante. As pequenas coisas comovem-me tanto como já me comoviam. Não chorei uma lágrima a mais nem uma a menos. As horas passaram com o mesmo tamanho que já tinham, sem qualquer compressão ou expansão. Noto, talvez, as noites mais frias, mas isso provavelmente não tem relação nenhuma. Também noto os dias maiores, mas já vamos quase no fim de Abril. Sinto a falta das mesmas coisas de que toda a gente sente falta. Sinto-me farta das mesmas coisas de que toda a gente se sente farta. Tenho os mesmo medos que toda a gente diz ter. E também as mesmas esperanças e as mesmas determinações. Fiz pão, scones e brioche, como toda a gente, mas já os tinha feito noutra altura. O meu cabelo cresceu muito, mas também, há muitos anos, já esteve deste comprimento. Agora ando sempre com ele apanhado, como faço todos os anos na praia, a minha filha diz que me fica bem, eu acho que nem por isso, mas também acho sempre que nada me fica bem.
Só me custa é a lembrar a que dia estou. Isso acho que custa mais do que o costume. Ontem, também não sabia que dia era. Nem no dia anterior. Por isso fui agora ao calendário do meu computador e vi que era quinta-feira, dia vinte e três. E pensei, olha, engraçado, passaram quarenta dias sem se passar nada de novo. Acho que isso nunca me tinha acontecido.

A despropósito

Cristina Nobre Soares, 11.04.20

Nunca liguei muito à Pascoa. Em criança era a altura de me empanturrar de chocolate e amêndoas. Em adolescente eram umas férias ainda melhores que as do Verão, pois tinha os amigos todos por perto e não demoravam tanto a passar. Em adulta, apenas um pretexto para os almoços e obrigações de família. O Natal também passou pelo mesmo processo.
Tem-me feito imenso jeito, nestes dias estranhos de isolamento e distância, este meu desamor pelos pretextos. Somos menos sozinhos quando vivemos a despropósito.

Chovisca

Cristina Nobre Soares, 06.04.20

Chovisca. Comento que os dias assim, chuvosos e cinzentos, ainda aumentam mais a neura de ter de estar em casa. Responde-me que se estivesse sol era pior, que ficávamos a pensar nas coisas que não podíamos fazer. É provável, respondo, afinal, se pensarmos bem, há sempre qualquer coisa pior. Por isso é que relativizar é sempre bom, diz-me. Olho pela janela. Pois sim, mas o cinzento destes dias parece-me sempre bastante absoluto. Não há racionalidade que me salve.