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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Duas semanas em casa

Cristina Nobre Soares, 27.03.20

Duas semanas em casa. Ir ao supermercado deixou de ser fácil. As pessoas estão ansiosas, com medo, atrás das suas máscaras e luvas e a voz a pedir rapidez e distância de segurança dá um ar distópico à coisa. No campo não se nota diferença nenhuma. Tirando o sino da igreja que se calou. Mas na cidade as ruas estão vazias. Até a prostituta que costuma estar na rotunda, uma mulher muito gasta que entra nos carros dos velhos que encostam mais à frente para disfarçar, desapareceu. Comprei tudo o que precisava e acrescentei um vaso de rosmaninho. Lembrei-me da "Lavender" dos Marillion, mas a música do rádio, aquela muito conhecida dos Snow Patrol, atropelou-a, enquanto eu esfregava as mãos com álcool. Lá em cima, no cemitério velho, o guarda passou entre as campas e eu, em vez de ligar o carro, fiquei a vê-lo como se fosse um acontecimento extraordinário.

Passei o rosmaninho para um vaso maior, devia estar a trabalhar, tenho muito trabalho atrasado, mas, hoje, as horas pesaram-me um bocadinho e sentei-me cá fora a cheirar as mãos, sem me ralar com as unhas sujas de terra, a agarrar a normalidade antes que ela me escape por entre os dedos.

Erros ortográficos

Cristina Nobre Soares, 18.03.20

Fui ao supermercado. Tudo muito calmo, nada de prateleiras vazias. Tirando o açúcar, que não havia, coisa que me deixou intrigada. Fiz uma piadola mental com o facto das pessoas estarem a levar a clausura mesmo a um nível conventual. E fiquei a pensar se o açúcar que ainda tenho em casa é suficiente para o bolo que queria fazer amanhã, que é dia do pai. É capaz de chegar, senão faz-se outra coisa, penso. Inevitavelmente lembro-me do bolo de rum com passas e creme de manteiga, que se fazia por esta data, em casa dos meus pais. Eu recortava a extremidade de um bocado de cartão, de modo a ficar aos bicos e depois arrastava-a por cima da superfície do creme para marcar o ondulado. Era tão bom aquele creme. Mas eu sei que o bolo foi só um pretexto para me lembrar do meu pai.

Semanas depois de ter morrido, ao ajudar a minha mãe a arrumar as papeladas dele, descobri uma carta que ele escrevera ao seu grande amigo Zé (companheiro, como se chamavam um ao outro). Escrevera-a logo depois do retorno. Uma carta que nunca enviou. Três folhas A4, dactilografadas, com erros ortográficos inesperados a revelarem que teria sido escrita de rajada. Para desabafar, talvez. Para fingir que falava com alguém. Fiquei sentada no chão da sala a lê-la e percebi que nunca conhecemos realmente os nossos pais. Conhecemos apenas a imagem que deles construímos. Entreguei em mão essa carta ao seu destinatário, que me contou mais umas aventuras do meu pai. Rimo-nos um bocado (o meu pai tinha um extenso rol de histórias caricatas). E no fim, o Zé disse-me, com os olhos cheios de lágrimas, era um bom homem o teu pai. Fez uma pausa e acrescentou, mas muito machista. Muito machista. Eu fiz que sim com a cabeça, pois era. Tivemos grandes zangas por causa desse machismo. Zangas mesmo muito feias, ainda mais feias do que aquelas que tínhamos por causa da política. Engraçado, agora raramente me lembro dele como o machista que realmente era. A memória é dona de uma generosidade conveniente.

O Zé, a quem eu e os meus irmãos chamávamos tio, o tio Zé, que sem levantar a voz tinha o condão de acalmar as opiniões inflamadas do meu pai, ó Mário, olha que não é bem assim, dizia ele enquanto mexia os cubos de gelo do whisky, com o indicador, o tio Zé também já morreu.

Pago as compras e penso que tenho de dizer à minha mãe que consegui comprar-lhe tudo o que me pediu, menos o álcool. Não havia. Não havia açúcar, digo quando chego a casa. Faço amanhã um crumble com o que aí tenho. A minha filha pergunta ao pai se ele concorda, afinal é o teu dia, diz-lhe. Ele responde que sim, que é uma óptima ideia.

E eu sento-me ao computador a escrever isto de rajada. Felizmente que tenho corrector ortográfico

A morte mata mais a quem cá fica

Cristina Nobre Soares, 06.03.20

Quando alguém importante, o qual por algum acaso se tenha cruzado na nossa vida, morre, há uma grande tentação de nos apropriamos dele. De tal forma que alguns epitáfios, com facilidade, deixam de ser sobre o morto, mas sim sobre nós. Sobre aquela vez em que almoçámos juntos, aquela vez em que o falecido nos fez um elogio ou nos disse algo inspirador, ou simplesmente lembrar o quão próximos e íntimos éramos de tal personagem. Acaba por não ser bem uma lembrança do morto, mas mais um pretexto para falarmos de nós, que afinal ainda aqui estamos.
A morte mata mais quem cá fica, ouvi uma vez num velório. A pessoa, uma mulher que tinha por hábito ir a todos os velórios, mesmo que não conhecesse o morto, repetia isto sempre que dava os pêsames a alguém da família mais próxima. Não sei se a morte mata mais quem cá fica (embora haja lutos que nos definham), mas que há mortes que parecem justificar quem aqui anda, isso, às vezes, parecem.