Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.

Cristina Nobre Soares, 14.02.20

Hoje, é um mau dia para se fazer anos, diz a rapariga do balcão. Olha, era pior se fizesses anos no dia de Natal, que aí só te davam uma prenda, diz uma mulher com uma gola alta que lhe salienta a papada e o pescoço curto, quem faz anos no dia de Natal está lixado, recebe prendas pela metade.

A rapariga do balcão encolhe os ombros e repete, mas é muito mau dia para se fazer anos e para se estar sozinha. Deixa-te disso, diz a mulher, és nova. Mau é ser-se velho e sozinho. Tantos que a gente sabe desprezados. É verdade, diz a rapariga ao balcão, é verdade, sim senhora.

Pago o café e, ao dar-me o troco, a rapariga diz-me baixinho, mas é uma tristeza uma pessoa fazer anos neste dia. Ainda nos faz mais sozinhos, não é?

Sorrio-lhe sem responder e à vinda para casa reparo que o terreno dos castanheiros está coberto de azedas. O chiar de um estendal na rua vazia. Os meus primos ensinaram-me a partir o caule das azedas e a chupar-lhe a seiva adocicada. Detestava o sabor, mas imitava-os para não fazerem pouco. Tal como me fiz de valente quando um miúdo da aldeia do outro lado da estrada nacional matou uma cobra das grandes e andava com ela espetada num pau para fazer medo. Voltei a cara e fiz que não vi, esperando que ele não desse por eu ser da cidade, que os da cidade, ali, são fáceis de meter medo e humilhar. Não deram por isso, mas ficou-me, até hoje, pelo canto do olho, a imagem do raio da cobra já meia seca, com o pau atravessado por debaixo da cabeça.

O varredor sobressalta-me com um bom dia do outro lado da rua. Respondo-lhe de volta. E a minha sombra estica-se quase até meio do caminho de terra batida. Todos os dias são dias para não sermos sozinhos.

Chão da cozinha

Cristina Nobre Soares, 09.02.20

Limpo as bancadas, passo-lhes depois um pano seco, deito duas medidas de detergente no balde da água e lavo o chão. Lembro-me de um conto de uma mulher que lavava um chão de ladrilhos pretos e brancos, não me lembro como terminava, só que ela lavava o chão sempre da mesma maneira, todos os dias depois de jantar e que, na altura, me causou alguma estranheza por a mulher fazer sempre a mesma coisa. Depois, apagava as luzes, primeiro a da cozinha, depois a do corredor, talvez a das escadas que ficara esquecida, com o pé puxara o tapete da entrada, depois o vaso da planta ao canto da porta, na sala ajeitara as almofadas com umas palmadas secas, dobrara as mantas esquecidas nos tamboretes, uma delas caída no chão, correra os estores (mas antes acenara ao vizinho que passara para cima), fechara os cortinados, apagara a luz de cima, acendera a do candeeiro de pé, tirara o livro de cima da pilha esquecida na mesinha, deitara os olhos à estante numa tentativa pouco esforçada de se lembrar onde lera o conto da mulher que lavava o chão da cozinha e passou-lhe, a medo, a ideia de que a mulher fosse eu enquanto alguém me lia.

O meu feminismo é melhor que o teu

Cristina Nobre Soares, 07.02.20

Feminismo de esquerda e feminismo de direita. Feminismo para maiores de 18, menores de 40 e para maiores de 65. De Norte ou Sul. Interior ou Litoral. Continental ou insular. Louro, ruivo ou moreno. Com mais de 55kg. Ou menos. Feminismo de 4ª classe ou com o 12º ano. Ou com um curso universitário. Ou com pós-doc. Feminismo de letras ou de ciências. De artes plásticas ou performativas. Casado ou solteiro. Com ou sem filhos. De parto natural ou cesariana. Feminismo do Sporting ou do Benfica. Ou Porto. Ou da Académica. Feminismo vegan, macrobiótico ou paleo. De chá, café ou laranjada. Feminismo Apple ou Windows. Da costa de Prata ou da Verde. De mar ou de campo. Feminismo de iscas com elas ou bacalhau com todos.

O meu feminismo é melhor que o teu.

 

 

 

 

Cinco e vinte

Cristina Nobre Soares, 04.02.20

A Lídia começava a arrumar a secretária às cinco e vinte. Em ponto. Punha as canetas numa lata pintada pelo filho mais novo, as pastinhas de cartolina na papeleira, o abre-cartas, que usava para cortar as folhas em pequenos rectângulos de papel que serviam para escrever recados, em cima da agenda de capa verde-escura. Com uma mão a fazer de lâmina limpava as aparas de borracha. Com outra, em concha na borda da secretária, apanhava-as. Depois, se faltasse um ou outro minuto para as cinco e trinta, fazia um bocadinho de conversa de circunstância. Qualquer coisa sobre o tempo ou uma receita nova que iria experimentar ao jantar. Um dia, a propósito da licença de casamento de uma colega da contabilidade, contou-me que a mãe tinha ido vestida de preto ao seu casamento. Para me mostrar que desaprovava que eu me casasse com um homem que não tinha nada de seu. Nem uns sapatos novos levou, disse-me. É uma mágoa que tenho.