Brandos costumes
Somos um país que, salvo honrosas excepções, tem duas formas de olhar o que vem de fora: ou com sabujice e lambebotisse (o Dâmaso Salcede que há em nós) ou com desconfiança. E nem sequer é preciso ter outra nacionalidade. Até com os “nossos” somos assim. Basta ver como muita gente lida com os nossos imigrantes ( os mais velhos, os que não eram doutores) ou como lidou com os retornados. Ou então, experimentem mudar-se para uma terra pequena (e não, não é preciso ser uma aldeia) onde não tenham qualquer ligação, nem sequer um primo afastado. Não “ser de sangue” nem ter andado na escola primária com ninguém. Experimentem. E agora imaginem que são de outro país. Uma vez tive uma vizinha que me disse que não gostava de “gente de Leste”. Perguntei-lhe porquê, respondeu-me, “não sei, são diferentes de nós, têm uma cultura que não é nossa”. Ou imaginem que uma família cigana se mudava para a vossa rua. Somem a isto tudo ter uma cor de pele diferente. Pois, é a tal cereja no topo do bolo. Só por curiosidade, façam assim uma conta de cabeça: quantos colegas negros da vossa turma chegaram até ao secundário e também quantos foram convosco para a universidade.
Integração não é os nossos "brandos costumes", que não passam de uma cobardia muito portuguesa de não dizer as coisas pela frente, pois pode parecer mal e o que é que as pessoas vão dizer, para depois cortarmos na casaca à porta fechada e a meia-voz (sim, as paredes continuaram a ter ouvidos depois de 1974). Isso é paz podre. Integração é uma coisa muito diferente. Não sei é se há assim tanta gente a dar por isso.