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Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Brandos costumes

Cristina Nobre Soares, 30.01.20

Somos um país que, salvo honrosas excepções, tem duas formas de olhar o que vem de fora: ou com sabujice e lambebotisse (o Dâmaso Salcede que há em nós) ou com desconfiança. E nem sequer é preciso ter outra nacionalidade. Até com os “nossos” somos assim. Basta ver como muita gente lida com os nossos imigrantes ( os mais velhos, os que não eram doutores) ou como lidou com os retornados. Ou então, experimentem mudar-se para uma terra pequena (e não, não é preciso ser uma aldeia) onde não tenham qualquer ligação, nem sequer um primo afastado. Não “ser de sangue” nem ter andado na escola primária com ninguém. Experimentem. E agora imaginem que são de outro país. Uma vez tive uma vizinha que me disse que não gostava de “gente de Leste”. Perguntei-lhe porquê, respondeu-me, “não sei, são diferentes de nós, têm uma cultura que não é nossa”. Ou imaginem que uma família cigana se mudava para a vossa rua. Somem a isto tudo ter uma cor de pele diferente. Pois, é a tal cereja no topo do bolo. Só por curiosidade, façam assim uma conta de cabeça: quantos colegas negros da vossa turma chegaram até ao secundário e também quantos foram convosco para a universidade.
Integração não é os nossos "brandos costumes", que não passam de uma cobardia muito portuguesa de não dizer as coisas pela frente, pois pode parecer mal e o que é que as pessoas vão dizer, para depois cortarmos na casaca à porta fechada e a meia-voz (sim, as paredes continuaram a ter ouvidos depois de 1974). Isso é paz podre. Integração é uma coisa muito diferente. Não sei é se há assim tanta gente a dar por isso.

75 anos da libertação de Auschwitz

Cristina Nobre Soares, 27.01.20

Uma vez, contaram-me o seguinte episódio a propósito da visita a um campo de concentração alemão (que não era Auschwitz, mas já não me lembro qual):
Que ao saírem da visita ao campo, cá fora estava um homem que lhes pediu um cigarro e lhes contou:
- Sabem? Quando era criança e eu a minha família vivíamos numas casas além. Quando os Nazis chegaram o meu pai recusou-se a pôr a bandeira nazi nas janelas. Tivemos de fugir para que não prendessem o meu pai. Passámos muito mal. Todos os meus vizinhos puseram a bandeira. E sabem? Todos os meus vizinhos eram boas pessoas.
A memória é a consciência de que tudo se pode repetir. Não esquecer é a vontade de que não se repita.

Platoon

Cristina Nobre Soares, 19.01.20

Quando o Platoon estreou no cinema do Centro Comercial Tropical a Patrícia gabou-se de o ter ido ver, apesar de ainda não ter idade. Disse que tinha entrado com uns amigos mais velhos, um deles já tinha dezoito anos, apalmou-me as mamas na segunda parte, comentou. Não duvidei, até porque a Patrícia parecia mais velha pela maneira como se vestia, como fumava e pintava os olhos, pela naturalidade com que falava com os rapazes e pelas coisas que já sabia por tê-las feito com eles. Perguntou-me se eu não ia ver. Não, dizem que é muito violento, respondi. Ela fez-me um sorriso de gozo, e disse-me, és uma maricas. Ela sabia do que falava. A Patrícia escolhia sempre filmes de terror ou de guerra no clube de vídeo, ignorando os meus protestos, não tem nada de especial, dizia-me, vais ver. E voltava a ignorar os meus protestos enquanto víamos o filme, ria-se à gargalhada, sempre que havia sangue, cabeças cortadas e membros decepados, com as pernas debaixo do rabo, a comer as bolachas de sortido que a avó guardava para as visitas, isto está tão mal feito, vê-se mesmo que é a fingir, destapa os olhos, dizia-me a rir-se e tentar tirar-me a mão da cara, és tão maricas, isto não tem nada de mal, tens medo de quê?
Foi o que ela me perguntou quando lhe disse que não ia ver o Platoon, tens medo de quê? Dizem que é muito violento, repeti. Quem o dissera fora a minha mãe. Não é filme para ti, sentenciara, como sentenciara de outros filmes, de outros livros, de conversas de adultos que me mandava sair da sala. E se os livros eu lia às escondias e as conversas ouvia-as atrás das portas, os filmes agradecia secretamente a censura. Por me sobressaltar com todos os tiros e emboscadas, por não conseguir suportar, sem fechar os olhos ou voltar a cara, qualquer cena que metesse sangue ou violência. Por ser uma maricas. Por ter medo de tudo. E detestei a Patrícia. Detestei-a profundamente por ter razão e por ser tão gira e tão fixe. E acima de tudo, por nunca ter medo de nada, por nem sequer saber o que era o medo. Detestei-a até à última vez em que estivemos juntas, já no 10º ano, num lanche forçado que a avó organizou para ver se nos voltávamos a dar. Nessa tarde, achei-a demasiado velha, cheia de olheiras e com as gengivas acastanhadas. Quando nos fechámos no quarto dela e eu recusei a passa de charro, fez a mesma cara de gozo e disse-me: és uma maricas.
(Vi hoje o Platoon)

Senta-te aí

Cristina Nobre Soares, 17.01.20

-Senta-te aí.

Levanto a cabeça do telemóvel. À minha frente uma mulher cansada, de cabelo pigarço, com o ondulado crespo muito agarrado à cabeça.

- Senta-te aí.

Ordena ela de novo a um homem com a camisa mal presa nas calças e as mãos encolhidas como se a enfiarem pelo peito adentro. Deve ser tontinho, a minha mãe a dizer naquela piedade, meio aliviada pela sanidade dos seus, meio a esconjurar o medo. Vá, anda, deve ser tontinho, eu miúda e a minha mãe a apertar-me a mão na paragem do autocarro, não olhes, deixa o estar, deve ser tontinho, não sabe o que diz, o homem a berrar coisas sem sentido, cheias de palavrões e cuspo seco e branco aos cantos da boca, não olhes, anda, não ligues, não sabe o que diz, a ver se ele não atravessa a rua, raio do autocarro que não chega, que coisa, não ligues, deve ser tontinho.

O homem ao meu lado diz qualquer coisa que não se percebe.

- Deixa-te estar aí.

Pergunto à mulher do cabelo crespo se se quer sentar. Diz-me que não, obrigada.

Chamam o meu número e levanto-me. Embora haja gente em pé, ninguém se senta no lugar que deixei vago. Até que a mulher do cabelo crespo pousa a mala na cadeira, mais os envelopes dos exames e o casaco que trazia pendurado no braço. A compor o vazio. O homem não diz nada, não se mexe. Mesmo assim ela diz-lhe:

- Deixa-te estar aí.

Noutros assuntos:

Cristina Nobre Soares, 15.01.20

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Sabe explicar de uma forma simples o que é uma molécula? Ou uma gimnospérmica? Ou um macroinvertebrado?

Comunicar ciência para fora do meio científico não é uma tarefa fácil: a linguagem usada “entre pares” é difícil de perceber e a falta de um fio narrativo pode tornar os temas pouco interessantes e demasiado complicados. E facilmente se perde a oportunidade de passar uma mensagem que é importante para todos nós. Comunicar ciência de forma clara e acessível pode ser o caminho que nos leva a uma ciência para todos."

 

Como não há 2 sem 3, aí vem a 3ª edição do  curso "Comunicar Ciência Clara" no Instituto Superior de Agronomia (sim, dado por mim).

Mais informações, programa e inscrições em: https://fenix.isa.ulisboa.pt/degrees/clccc

Ide, inscrevei-vos! Que eu lá vos espero ;)

 

Mini azul

Cristina Nobre Soares, 12.01.20

Descemos as escadas até à estrada e espreitámos para dentro do edifício novo. Está fechado, disse-me ele e eu, a propósito de nada, ou talvez por ter passado um Mini azul, dos antigos, em tudo igual ao primeiro carro de uma grande amiga minha, no qual demos grandes passeios até ao Guincho e fizemos imensos planos que nunca se concretizaram, contei-lhe um episódio que nunca lhe tinha contado. Acho que vou precisar de uma vida inteira para te conhecer, disse-me ele. E eu, em tom de provocação, respondi-lhe, por detrás da estridência do sino das cinco da tarde, uma vida inteira é uma unidade de medida muito curta. Acho que não me ouviu, pois respondeu-me comentando o frio que da tarde, que realmente assentava bem e nos fez encolher nas golas dos casacos grande parte do caminho, e eu, agora pensando bem, acho que o Mini da minha amiga era de um azul mais escuro, mas a memória é aquilo que fazemos dela

Lembrar com irmãos

Cristina Nobre Soares, 11.01.20

É bonito lembrar com irmãos. Não há uma história única, mas sim uma memória, ou uma verdade, com vários corpos. Os nossos corpos. Cada um deles marcados com amor, dores, raiva, alegrias, ressentimentos diferentes. Tão diferentes que por vezes nem os espaços em que vivemos nos parecem iguais. Lembrar com irmãos é perceber que nesta vida não afirmamos nada. Apenas, talvez, possamos acrescentar.

Números imaginários

Cristina Nobre Soares, 05.01.20

Vim sentar-me cá fora. À hora em que as nossas sombras ficam maiores que a gente, como ouvia dizer a uma vizinha que morava duas casas abaixo de uma tia minha e que se vinha sentar, enquanto cortava a hortaliça da sopa para dentro de um alguidar, nos degraus de pedra à entrada da casa, por entre os vasos de sardinheiras e hortênsias que faziam o lugar do gradeamento.

(Os meus vizinhos da última casa brincam com a filha que já anda. E eu comento para dentro, sem saber se me ouvem, a bebé da casa do fundo já anda, isto passa a correr, caramba.)

E já estamos noutro ano, diria essa minha tia, duas casas acima da vizinha dos degraus de pedra e dos vasos de sardinheira, má raça do tempo, que ainda ontem tinha a vossa idade e num instantinho fiz-se-me velha. Fico a empreender nessa coisa do tempo e na discussão que vai no meu mural sobre se afinal começou a década ou se começa para o ano, se há ano zero ou não há.

(Os meus vizinhos entraram em casa.)

Lembro-me da vez em que o meu irmão me explicou que havia números “atrás” do zero, no Verão antes de eu entrar para o ciclo. Puxou de uma folha e traçou uma linha com um zero no meio. À direita os números que conhecia, até a uns pontinhos a fazer de infinito. À esquerda os mesmos números mas com um menos à frente. E os mesmos pontinhos a fazer de infinito. Não fiques tão espantada, um dia vais aprender que existem muitos mais e uns que até se chamam números imaginários. Lembro-me que não percebi muito a explicação dos números negativos que o meu irmão me deu, mas achei formidável na mesma.

(Estou cá fora, grito para dentro, ao “Onde estás?”, vindo do corredor.)

O céu ficou púrpura. É sinal que amanhã está bom, diria a tal vizinha das sardinheiras. Já nem sequer há sombras no chão. Mas já se notam os dias. Janeiro fora uma hora, ela com alguidar encaixado na anca, o pé a travar a porta e a faca de cabo de madeira na outra mão, e quem bem procurar mais meia hora há-de encontrar.

(E antes dos números imaginários ainda vieram os irracionais, penso, antes de entrar em casa.)