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Reflexo

por Cristina Nobre Soares, em 28.11.19

No outro dia, olhei-me ao espelho e vi a minha mãe. Passava pelo corredor quando a vi reflectida num dos espelhos, por cima do aparador. As minhas rugas na testa são iguais às dela, arqueiam muito quando algo não é do nosso agrado. Passei-lhes as pontas dos dedos (que já as sinto com as pontas dos dedos). Quando eu era criança a minha mãe já era uma mulher no fim dos seus quarenta anos, principio dos seus cinquenta e eu tinha a certeza que iria demorar uma eternidade a chegar à idade dela. Era a mais velha de todas as mães da minha escola, uma vez perguntaram-me se era minha avó e eu fiquei triste por acharem a minha mãe tão velha. Esses 41 anos que nos separam nem sempre nos facilitaram a vida, especialmente durante a adolescência. Há uma grande incompreensão entre duas margens de tempo tão distantes.
Ficámos as duas frente-a-frente. A minha mãe será sempre mais bonita e eu tenho este torcer de boca irónico do meu pai. Mas estou muito parecida com ela, sim. Envelhecer é também tornarmo-nos numa espécie de reflexo dos nossos pais.

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Ficou tudo como estava

por Cristina Nobre Soares, em 25.11.19

Ele interrompia-a sistematicamente. Falava por ela. Outras vezes, desmentia-a em público. Era brusco, agressivo.

“É a maneira dele ser”, diziam-me. “No fundo é boa pessoa, e gosta muito dela, tem é aquela maneira de falar.”

Ela era submissa. A última palavra era dele. Não fazia nada sem lhe perguntar ou pedir autorização.

“Cada um sabe de si”. “Há mulheres que são felizes assim.”

Uma vez, ela atrasou-se. Ficou numa aflição inexplicável. A mim pareceu-me medo.

“Estás a ver coisas onde não existem.”

Outra vez ele gritou-lhe, daquele gritar de quem manda sempre, de quem humilha. E baixou a voz quando viu que eu os observava.

“Estás a ver coisas onde não existem.”
“Não te metas."

E eu não me meti.
Nem ninguém se meteu.
Ficou tudo como estava.

#DiainternacionalpelaEliminaçãodaViolênciacontraaMulher

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Pequenas coisas absurdas

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.19

Uma vez, alguém confessou-me que, numa altura em que vivera longe de casa, as saudades eram tantas que nunca desfazia a mala, deixando-a aberta entre Verões, altura em que vinha de visita. Assim, parecia que faltava pouco para voltar a casa, disse-me. Lembrei-me de uma casa onde vivi, perfeita, quase de revista, na qual nunca pus fotografias nas molduras. As quais não chegaram a sair da gaveta. Havia uma mesmo ainda embrulhada no papel de seda. Essas molduras foram as primeiras coisas que tirei dos caixotes quando aqui cheguei. Escolhi três fotografias nossas e pu-las em cima da lareira, ainda com a sala completamente vazia. No fundo, sabemos perfeitamente quando estamos de passagem e quando finalmente chegámos a casa. Mas precisamos de pequenas coisas absurdas que, ao nos darem a ilusão de poder controlar alguma coisa, nos fazem suportar a espera.

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Ontem, fomos ver o acender das luzes de Natal. Estava uma imensidão de gente à volta da praça principal. Muita gente a fazer ao mesmo tempo o que toda a gente faz. Por cima de nós, numa varanda de um primeiro andar, estava uma mulher, de meia-idade (que é o que dizemos quando não sabemos dizer se pessoa é nova ou velha), sozinha, embrulhada num xaile de lã grená. A minha filha invejou-a, disse que ela é que via bem o concerto e o acender da árvore e sem sair na casa dela, já viste? Olhei-a e achei-a sozinha. Sim, claro, não é por uma pessoa estar sozinha numa varanda que se torna numa pessoa só. Mas a maneira como ela não se encosta ao parapeito, como as luzes de dentro não estão acesas, como a porta está descuidadamente aberta deixando o frio entrar, como alguém nunca olha para dentro, nem para as pessoas cá em baixo procurando uma cara conhecida, construiu-me uma solidão tão grande que me distraiu do acender das luzes. Olha, a árvore este ano está mesmo bonita, disse a minha filha. É verdade, disse-lhe eu. E a mulher aconchegou-se no xaile.

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Não me habituo

por Cristina Nobre Soares, em 10.11.19

Passo quatro meses a tentar habituar-me às noites maiores. Perante os meus lamentos dizem-me, é assim todos os anos, já devias estar habituada. Mas não me habituo. Todos os anos é o mesmo desconforto, a mesma melancolia e, desconfio, uma inexplicável desilusão.
Ontem, contaram-me mais uma história de discriminação. Que não foi por causa da cor da pele, nem da nacionalidade, nem do género da pessoa que a sofreu. Foi por causa do estrato social a que essa pessoa pertence. Das suas origens. Por não querer parecer aquilo que não é. Uma pessoa com capacidade de trabalho e com talento, impedida de progredir por não corresponder ao estereótipo de um grupo social.
Dizem-me, o mundo é assim, sempre houve elites que trancam as portas aos que consideram ser menos, já devias estar habituada. Mas não me habituo. Sempre que me confronto com isto é o mesmo desconforto, a mesma melancolia e, desconfio, uma inexplicável desilusão.

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Pequeno aviso à navegação

por Cristina Nobre Soares, em 06.11.19

A partir de hoje também estarei por aqui: https://estradaparadamasco.blogs.sapo.pt/

Se gostarem desta coisa da comunicação de ciência, da ciência para todos, espreitem ;)

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