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And now for something completely different:

por Cristina Nobre Soares, em 29.10.19

Se a história da Branca de Neve fosse um abstract de um artigo científico (sim, o meu trabalho é um coisa muito peculiar):

Tem-se comumente observado que alguns monarcas em estado de viuvez apresentam alguma propensão para casar com indivíduos do sexo feminino portadores de distúrbios narcísicos, os quais, com elevada frequência, afectam a socialização com enteados. Em Grimm & Grimm (1822) são observados alguns desses comportamentos, que podem ser considerados, segundo estes autores, como patologia extrema, especialmente os relacionados com o enviesamento do reflexo da sua própria imagem.
Neste trabalho foi observado que o convívio com um número primo de indivíduos portadores de nanismo pode, por si só, constituir uma terapia provisória para os enteados rejeitados. Igualmente, observou-se que o consumo de certas variedades de pomóideas submetidas previamente a manipulação química, pode induzir estados narcolépticos, os quais apenas passíveis de serem quebrados através de troca de fluidos salivares entre um individuo de sexo masculino e outro do sexo feminino.

#comunicaçãodeciência

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Medos portugueses

por Cristina Nobre Soares, em 27.10.19

Há vários medos que fazem isto de ser português: o medo de ser feito de parvo talvez seja o maior. Depois, o medo de arranjar chatices, que isto toda a gente se conhece. O medo de parecer mal e daquilo que os outros possam dizer. O medo de dar com os burrinhos na água e por isso deixa-te estar quieto, não te envergonhes. E o medo de parecer provinciano, pacóvio, saloio. Que é um medo que, no fundo, junta os outros todos.

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Ideias feitas

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.19

Há quem ache que todas as louras são burras. Que todos os betos são arrogantes. Que todas as mulheres vaidosas são fúteis. Que todos os intelectuais são presumidos. Que todos os adolescentes são melodramáticos e infantis. Que a malta nova nunca sabe o que quer. Que quem é velho já não aprende nada.Que quem não vive na cidade nunca viu o mundo. Que uma investigadora pós-doutorada não pode gostar de trapos. E que quem gosta de trapos nunca terá cabeça para ser investigadora. Que quem lê Thomas Mann não vê concursos de televisão. Que quem ouve Antena 2 não ouve música pop. Que quem nunca viajou não tem horizontes. Que quem viaja muito é muito culto. Que toda a gente de esquerda tem mente aberta. Que toda a gente de direita é elitista. Que todos os católicos são beatos. Que todos os ateus são inteligentes. Que quem é de ciências não se interessa por literatura. Que quem foi para letras não sabe o que é uma tangente. Que quem é do Norte troca os vês pelos bês. Que todos os açoreanos têm sotaque de S.Miguel. Que quem é gordo não tem força de vontade. Que quem é magro não come alheiras. Que quem tem uma depressão é porque pode. Que quem se ri muito é tonto. Que quem é muito sério é básico. Que quem não tem filhos é egoísta. Que quem tem seis é inconsciente. Que quem tem dois é igual a toda a gente. Que quem faz muitos posts no Facebook é porque não faz mais nada. Que quem não faz é porque tem a mania. E que quem tem ideias feitas são sempre os outros, nunca eu.

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Longe da vista

por Cristina Nobre Soares, em 17.10.19

Hoje, por causa da chuva da madrugada, não se podia passar no caminho da casa dos cães. Tive de dar uma volta maior. Aproveitei para reparar em casas nas quais, ao fim destes anos todos de aqui estar, ainda não tinha reparado. Não são muito diferentes das outras que já conheço, com os seus painéis de azulejo, geralmente a evocar um santo ou apenas com o nome da casa, resultado da junção dos nomes próprios dos donos e os seus jardins atravessados por caminhos a fingir, feitos de bocados de pedra, cheios de plantas, um limoeiro, duas cameleiras, uma buganvília, um hibisco cheio de piolho, vários canteiros de jarros e hortências junto às escadas, deixando apenas pequenas manchas de escalracho à vista, onde não cabe um pé, nem um pequeno de criança. É engraçado este medo que temos do vazio, seja dos espaços amplos, sem nada, seja do silêncio. E por causa deste medo enchemos paredes, divisões e silêncios com inutilidades. Como aquelas casas onde todas as paredes têm um móvel encostado ou estão cobertas por quadros, fotos, pratos, relógios, tapetes a taparem todos os bocadinhos de soalho, cestos e vasos com plantas no espaço vazio dos cortinados, medalhas, bibelôs, molduras com retratos dos filhos a encher todas as prateleiras, sofás cheios de almofadas e mantas, topos de frigorífico cheios de recordações de férias e potes que nunca se encheram. Temos muito medo do vazio. E da chuva. Quando cheguei ao café, parou um carro em cima do passeio, a condutora ligou os dois piscas e depois correu para dentro do café, com a carteira em cima da cabeça. Depois, lá dentro, disse, olha, está a engrossar, e olharam todos pela janela. Há coisas que, tal como os jardins, para algumas pessoas talvez sejam só para ver de longe. Outras, como as paredes vazias, há-que mantê-las longe da vista.

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Superstições

por Cristina Nobre Soares, em 14.10.19

A avó da Patrícia tinha muitas superstições e presságios. Afligia-se quando entornava sal, benzia o pão antes de o cortar (e beijava-o antes de o deitar fora, dizendo Nosso Senhor me perdoe), dizia cruzes canhoto quando via um gato preto e lagarto, lagarto, batendo na mesa, quando alguém falava de alguma coisa má que podia acontecer. Não gostava de pássaros grandes, dizia que traziam má sorte, nem partir copos e coisas de vidro, está aí para vir alguma coisa má. E tinha rezas para evitar todo o tipo de azares. Sentava-se no banco da cozinha, de cabeça baixa, com uma mão a segurar a testa e mexia a boca em surdina. Lembro-me da reza à Santa Bárbara, afastai a trovoada lá para bem longe, onde não haja eira nem beira, que dizia mesmo quando não trovejava, bastava que, dizia ela, o dia tivesse acordado carregado dentro do peito. Não sei se ainda será viva. Se for, terá os seus noventa e picos. Perto da idade que o meu pai teria se fosse vivo. Que não gostava de mesas com 13 pessoas.

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Não percebo

por Cristina Nobre Soares, em 09.10.19

Há uns tempos, uma amiga, que volta e meia me lê por aqui, deu-me uma grande prédica sobre as minhas piadolas e parvoeiras. Tens de perceber que tens uma carreira e, quem sabe, uma imagem para pôr para a frente e, em Portugal, já sabes, quem se ri muito e faz rir os outros é palhaço. Qualquer dia ninguém te leva a sério e, pior, ainda são capazes de pensar que as piadas lhes são dirigidas. Respondi-lhe qualquer coisa parecida com um encolher de ombros.
Mas podia ter-lhe dito que o riso é a coisa mais séria que tenho na vida. Que sem isso e as minhas escrevinhices era capaz de hoje ser alguma coisa parecida com um estilhaço. E que não consigo perceber como é que as pessoas muito sérias passam pela vida incólumes, perfeitinhas, sem qualquer escoriação. Não percebo como é que nunca precisaram que o riso as salvasse delas próprias. Não percebo.

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Novos e velhos

por Cristina Nobre Soares, em 01.10.19

Confesso que não percebo esta divisão (que sempre houve) entre ser velho e ser novo. Como se fossem criaturas mutuamente exclusivas, ou há uma coisa ou há outra, onde estão uns não podem estar outros. O que é simplesmente estúpido. As melhores equipas são as que têm gente de todas as idades. Sangue novo, aquele que supostamente anda na guelra, precisa-se, para novos horizontes e novas perspectivas sobre os que já existem. Sem os novos não há perpétuo movimento. Mas o sangue mais velho também é preciso. A chamada experiência e o tão mal visto cinismo perante o mundo são fundamentais para ajustar a tais perspectivas. E nada disto é absoluto, pois não sei com que tipo de pessoas é que vocês se dão, mas olhem que conheço miúdos de 20 que parecem saídos da brigada do reumático e pessoas de 70 que dão 10 a 0 em progressismo à malta nova.

Penso que já contei esta história por aqui, mas um dos momentos que mais me marcou quando recomecei a minha vida do zero foi ouvir um senhor, mais ou menos da minha idade (e por sinal bem instalado numa universidade estrangeira) dizer-me, a propósito de um grupo de trabalho comum, que “tínhamos de dar o lugar aos mais novos”. Ou seja, como quem diz, “já estás muito velha para estas andanças”. Como se houvesse um prazo para contribuir de forma válida, como se ser novo ou velho fosse um valor ou um peso por si só.

Volto a dizer: é estúpido. As novas gerações vão substituir-nos de qualquer das formas, quando nós, os tais mais velhos, já estivermos a fazer tijolo. Que é coisa que acontece mais depressa do que se julga. E talvez seja melhor gastar este instantezinho insignificante, que é a vida, menos a estereotipar por faixa etária e mais a construir um tempo onde haja espaço para aprendermos uns com os outros.

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