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A Greta e os cestos de pão e peixe.

por Cristina Nobre Soares, em 29.08.19

Acho engraçada esta divisão entre os que gostam da Greta e os que não gostam da Greta. Tipo gostar ou não de cozido. Por estas redes sociais acima ( ou abaixo) as paixões dividem-se entre o bota-abaixismo fatela contra a miúda e a sua sacralização com um piquinho a Sãozinha de Alenquer. A Greta tem 16 anos. Tal como todos nós já tivemos 16 anos. Uns com mais sangue na guelra do que outros. Com mais convicções do que outros. Com boas intenções ou nem por isso. A Greta faz-nos pensar, caraças, eu com a idade dela o mais radical que fazia era dizer mal do Cavaco. Ou mandar vir contra a comida da cantina. E mesmo agora, com mais uns anos em cima, a coisa fica-se por umas bocas por aqui, uns #hashtags e uns perfis lindinhos “por qualquer coisa” comigo a fazer pose para a selfie. A miúda tem espírito, mexe-se, levanta o rabo por aquilo que acredita. Quantos de nós fomos assim? Pois. Foi o que eu calculei.
Mas (vocês sabiam que havia um mas) o problema da Greta não é a Greta, é a algazarra à volta da Greta. O problema da Greta é o vazio cívico ser tão grande que o pessoal se agarra a algo que supostamente uma miúda de 16 anos representa, como se não houvesse amanhã, como se não tivesse mais nada. Ou como se tivesse apenas cestas vazias de pão e peixe, à espera que façam a multiplicação por eles (ou do que há-de vir). Para além disso, tem um certo lado perverso, um certo sacudir a água do capote, do “ah, isto agora só as novas gerações é que podem dar a volta isto, que nós já não temos estaleca”. Isto, sim, é o que me agasta no tema Greta. Só que disto a Greta não tem culpa nenhuma. 
Podem engalfinhar-se à vontade que não é o gostar ou não gostar da Greta que nos vai encher as cestas. É o perguntar: o que é que eu já fiz hoje para que isto mude? E, já agora, o que é que fizeram?

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Um café sem interesse nenhum

por Cristina Nobre Soares, em 23.08.19

Gostava muito de conhecer o café de que tanto falas nos teus textos, disse-me uma amiga. É um café de aldeia, que também é padaria, respondi-lhe, não tem nada de especial. Tem fitas de plástico na porta, mesas de fórmica branca com porta-guardanapos a dizerem Compal, ladrilhos brancos no chão, uma arca com gelados da Olá, uma vitrina com sumos e leites achocolatados em baixo e bolos em cima (de lado, a fazer esquina, é só para o pão), um quadro de cortiça onde se afixam os anúncios de pessoas que engomam para fora, que dão explicações de matemática, que vão a casa fazer limpezas, das aulas de danças de salão da colectividade recreativa, das tasquinhas de verão, nas paredes algumas molduras com fotografias de Nova York e Paris, compradas na loja do chinês, mulheres velhas que levam os netos, mulheres mais novas que não trabalham, outras que não são novas nem velhas, de porta-moedas e saco de plástico dobrado debaixo do braço, que vêm só para esperar pela carrinha branca do peixe, que passa, se não me engano, duas vezes por semana, um tontinho, sempre com a barriga de fora, a quem a rapariga do balcão costuma dar bolos (fala-lhe como se ele tivesse quatro anos), a rapariga do balcão que não é sempre a mesma, há uma mais velha que tem um filho e o rosto manchado com pano e uma mais nova que só chega depois de almoço, que tenho ideia que também é dona. Homens há poucos, vão aos outros cafés onde só há homens. Tirando um ou outro velho que venha acompanhado pela mulher ou pela filha, por já não se orientar nem dizer coisa com coisa. Há miúdos que vêm ao pão, à hora das fornadas. À tarde, vêm aos gelados.
É um café como tantos outros, sem interesse nenhum.

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Por Macau

por Cristina Nobre Soares, em 18.08.19

Em Santo Amaro, nos anos da passagem de Macau para a China, mesmo em frente à paragem onde eu apanhava o autocarro de regresso a casa, havia uma varanda com um grande pano preto que dizia “Por Macau” em letras pintadas a branco. Esse pano ficou lá pendurado durante anos.

Macau dizia-me muito pouco. A única referência que tinha, para além da do livro de meio físico e social, era a Raquel da minha turma na 3ª classe. A Raquel tinha nascido em Macau, mas por causa do trabalho do pai, que eu nunca soube qual era, os pais tinham regressado a Portugal. A Raquel tinha uns olhos amendoados que não eram bem orientais, mas também não eram como os da maior parte dos outros miúdos. E tinha uma espécie de caneta com oito cores de lápis que eu achava maravilhosa (escolhia-se a cor carregando nas cores na parte de cima da caneta). Invejava-lhe tanto essa caneta que a Raquel deixou-me levá-la para casa num fim-de-semana para eu poder fazer desenhos com ela. Não fiz desenho nenhum. Deixei-a guardada no fundo da mala da escola, sem lhe tocar, como se faz a um tesouro.

Tirando isso Macau não me dizia rigorosamente nada. Era apenas mais um resto anacrónico do império. Como eu o era. Como a Raquel. Como a Flora cujas histórias sofridas tanto me lembrei quando os alunos se juntaram no Pavilhão Polivalente da minha escola a cantar a canção do Luís Represas, por altura do massacre de Santa Cruz.

Enquanto esperava pelo autocarro tentava imaginar como seria a pessoa que pusera aquele pano. Seria um velho a cheirar ao mofo dos valores da Exposição do Mundo Português? Seria um macaense? Ou seria apenas um desenraizado como eu? Nunca soube. Assim como nunca mais soube da Raquel nem da Flora. Tudo boas histórias para contar. Mas o autocarro entretanto chegava, chega sempre, e a vida ainda faz conta comigo para jantar.

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Agosto

por Cristina Nobre Soares, em 18.08.19

Nas últimas semanas, na aldeia, aumentou o número de carros com matrícula estrangeira e o português traçado com palavras francesas. É Agosto. 
Nos subúrbios da cidade também havia pais emigrantes. Não eram tantos como na aldeia, mas também os havia. Os filhos viviam com as  mães ou com os avós e, quando os pais vinham em Agosto, não havia festa nem algazarra, pois em Agosto, nos subúrbios, ficavam apenas prédios de estores corridos e o silêncio daqueles que não tinham dinheiro para fazer férias. Por isso poucos davam pelos carros novinhos em folha, de matrícula francesa, suíça ou alemã, estacionados nas pracetas. O pai do Nuno trabalhava em Inglaterra, mas não vinha em Agosto. Vinha em Junho ou Julho, muitas vezes pelo Natal e sempre de avião. Se perguntávamos ao Nuno se o pai dele era emigrante ele respondia peremptoriamente que não, o meu pai não é emigrante, o meu pai é engenheiro numa grande empresa em Inglaterra, é como se trabalhasse cá, mas, por acaso, trabalha lá. Ser emigrante é uma coisa muito diferente. Por diferente eu sabia que ele queria dizer pior. Já na altura eu o percebia. Embora ainda hoje não o compreenda.

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Milá

por Cristina Nobre Soares, em 17.08.19

A Milá tinha quarenta e tal anos e vivia sozinha por cima de uma loja de enxovais. Tinha muitas teorias sobre a vida e adorava dar conselhos sem que lhos pedissem. Nunca saiam à rua sem se arranjar convenientemente, pois nunca se sabe quem podemos encontrar. Sempre muito bem arranjadas, hem? Até para ir pôr o lixo! Disse-nos ela, enquanto folheava uma Hola e, com uma toalha turca à volta dos ombros presa com uma mola da roupa, fazia tempo para a tinta do cabelo (que não era louro, afirmava ela, mas castanho dourado médio). Mas Milá, dificilmente encontraremos alguém importante junto ao contentor do lixo, respondi-lhe eu. Nunca se sabe! Nunca se sabe! Disse ela.
O que é certo é que me lembro várias vezes desse conselho, mas normalmente a título póstumo, e, embora nunca tenha encontrado ninguém importante junto do contentor do lixo, é realmente verdade que se encontram pessoas nos sítios mas absurdos e inconvenientes. 
Lembrei-me hoje de manhã da Milá, enquanto esperava pelo fim da centrifugação, mas, apesar de não me ter arranjado para ir à lavandaria pôr um edredão a lavar (estava lá apenas um casal de americanos), não foi por causa desse conselho. Foi por causa de outro:
- Nunca confessem nem em quem votam nem que livros lêem. Há sempre alguém com a mania que vos fica a cortar na casaca por causa disso.

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Vidas

por Cristina Nobre Soares, em 15.08.19

Uma manhã, ao passarmos pela casa da Verónica para irmos para as aulas (fazíamos isto todas as manhãs, menos à sexta, dia em que o padrinho a levava de carro), a mãe dela apareceu à porta com o olho e o lado direito da cara todo roxo e a Verónica parecia que ia para uma festa, um vestido preto, muito justo ao corpo, todo cheio de pérolas pequeninas e a boca pintada de vermelho. Não dissemos nada. Ela também não. Nem mais à frente, quando passámos a praceta onde os rapazes das motas se juntavam, nem quando passámos a farmácia, nem quando passámos o café, nem quando atravessámos a estrada. Só ao portão da escola é que ela disse, ontem a minha mãe caiu e aleijou a cara. Mais nada. E nós, pois, coitada. Mais nada. Ao fim do dia comentei com a minha mãe que a mãe da Verónica tinha caído e aleijado a cara. Tem um olho todo negro, disse eu. E a minha mãe, depois de um minuto ou dois de silêncio, abanou a cabeça e disse, vidas.

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Cinta

por Cristina Nobre Soares, em 13.08.19

A minha vizinha do rés-do-chão era muito bonita. De cabelo louro, sempre muito bem pintada e arranjada. A minha mãe dizia que ela tinha ar de andar na rambóia, não sabia o que isso queria bem dizer, mas não devia ser bom. Cedo percebi que as mulheres que se arranjavam e pintavam muito tinham qualquer coisa de proibido e reprovável que justificava o mal que as outras diziam delas.

A única vez que entrei em casa dessa minha vizinha foi para ir buscar uma peça de roupa que a minha mãe tinha deixado cair do estendal. Das outras vezes dissera-me para esperar à porta, mas dessa vez pediu-me para entrar.

Estava ao telefone. Senta-te, disse-me antes de voltar a pegar no auscultador e apontou-me o sofá de veludo azul, com uma grande pelada num dos braços.

- Desculpa, tive de ir atender a miúda de cima – Piscou-me o olho.

Os tamboretes de pele de zebra, uma estatueta de uma lavadeira, um dente de marfim cheio de homens pequeninos por dentro, vários pratos chineses na parede, medalhas de bronze em pequenos suportes pretos por cima da televisão, os olhos dela pintados de verde metalizado, uma cigarreira de tartaruga com rebordo dourado, que ela abriu para tirar um cigarro, igual aos da minha irmã, o cheiro de penumbra e de janelas que raramente se abriam, o roupão cor de cereja a imitar seda, por cima do joelho.

- Sim, ficamos para as sete e meia, mais coisa, menos coisa. Dou o jantar mais cedo à minha mãe e deixo-a a ver televisão.

Pousou o auscultador. Vivia com uma mãe velha, que andava a custo, muito marreca. Olhou para mim.

- Vamos lá buscar a roupa que a tua mãe deixou cair.

Apertou melhor a laçada do roupão. O cigarro por acender entre os dedos. Parecia-me tão chique, tão moderna. Abriu a janela.

- Que peça de roupa foi?

Corei muito e respondi.

- Uma cinta.

Riu-se e entregou-ma.

- Todas as mulheres acabam por se enfiar numa.

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Queda da folha

por Cristina Nobre Soares, em 11.08.19

Hoje, a minha filha mostrou-me um recanto na vila que eu não conhecia. Sentámo-nos por debaixo de uma latada em frente a um muro de onde pendiam marmelos já feitos, só falta ganharem cor, comentei, a pensar que Setembro se aproxima por cada hora que se encurta ao fim do dia. E lembrei-me de uma empregada que tive, num tempo em que imitei uma vida burguesa, que uma vez me contou que os dias que se encurtavam lhe eram mais difíceis de levar. É quando me passam mais ideias tontas pela cabeça, ideias tristes e muito tontas, olhou para mim para se certificar que eu percebera o que ela quisera dizer e eu, sem saber o que lhe responder, comentei uma trivialidade qualquer sobre a queda da folha, perguntei-lhe pela minha camisa branca e fiz-lhe uma festa desajeitada no braço.

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Casaco de pied poule

por Cristina Nobre Soares, em 07.08.19

Lembro-me da segunda vez que me senti desintegrada. Curiosamente não me lembro da primeira vez, mas tenho a certeza que foi a segunda por ter reconhecido aquela espécie de vergonha como algo que claramente já sentira. Ou talvez sempre me tivesse sentido assim e só dessa vez lhe tenha dado um nome. Vestia, nessa noite, um casaco de fazenda de retrosaria em “pied poule" preto e branco, costurado pela minha mãe e antes de entrarmos a minha amiga avisou-me:
- Agora, por favor, não te ponhas só a falar de política e das tuas ideias comunas, que aqui parece tremendamente mal e ainda fazes má figura.
Nesse momento percebi que o casaco me estava apertado nas costas e debaixo dos braços e passei a noite toda com um sorriso parvo, junto a uma mesa com aperitivos de queijo, evitando dizer fosse o que fosse e medindo os gestos, não fosse o casaco, eu ou aquela noite esgaçarem-se aos olhos de todos. A dada altura, um rapaz de camisa às riscas meteu conversa comigo. Perguntou-me por que razão estava eu ali sozinha e eu respondi, sem pensar, que talvez tivesse perdido um sapato de seda azul. Ele riu-se e disse, dela só gosto dos contos, a poesia tem mar e Grécia a mais. Apesar da blasfémia, também me ri, mas de alívio. Ficámos ali o resto da noite, eu desapertei um dos botões do casaco, disse-lhe que seria incapaz de votar no Cavaco Silva e pedi-lhe uma Cuba Livre com duas medidas de rum e pouco gelo. Nunca mais usei aquele casaco.

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Verde

por Cristina Nobre Soares, em 02.08.19

Uma mulher, com um lenço verde enrolado à volta da cabeça e do pescoço, senta-se ao meu lado e puxa o filho para o colo. O miúdo diz que não quer e eu chego-me para a ponta do muro de maneira a deixar-lhe espaço suficiente para que se sente. Indico-lhe o lugar, a mulher agradece e diz para a criança: Senta aí, mas cuidado para não incomodar a moça. Sorrio com a palavra “moça” e reparo novamente no lenço (a minha mãe, dona de uma vasta gama cromática, talvez chamasse “verde esmeralda” a este tom de verde) e na mulher, que tem um rosto jovem e muito bonito, faz-me lembrar as actrizes de cinema dos anos cinquenta. E lembro-me de outras mulheres de lenço que conheci. Eram lenços mais pardos, muitas vezes negros, atados por debaixo do queixo ou da nuca e os rostos delas eram sempre velhos. Mesmo que alguma delas usasse um lenço com este tom de verde certamente eu iria lembrar-me dele como pardo. Como os gatos à noite, como tudo o que nos convém.

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