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Buganvília

por Cristina Nobre Soares, em 31.07.19

A caminho do café há uma casa com uma grande buganvília fúchsia. As buganvílias, especialmente as desta cor, são plantas belíssimas. Ao contrário do que muita gente pensa, não são as flores que lhes dão aquela cor exuberante, mas sim as brácteas, que servem para proteger as flores pequeninas, nas quais quase ninguém repara. Observo-a com um bocadinho mais de atenção. É realmente formidável, tapa quase toda a parede azul que dá para a rua, sobrando apenas as janelas, rasgadas até ao chão, onde a dona da casa costuma estar a ver quem passa, pensando, talvez, que os cortinados de renda branca a conseguem esconder. Conheço-a de vista, costuma ir ao mesmo café do que eu, e, embora fale de pessoas que eu não conheço, percebo que as maldiz, e com um certo gosto. Embirro com muita coisa na vida, mas não embirro com pessoas que dizem mal das outras. Eu também o faço. Convenhamos que a má-língua tem uma certa utilidade na nossa saúde mental: não só entretém bastante, e bem sabemos não há nada pior para os nervos do que o ócio, como tem propriedades analgésicas, pois enquanto andamos a embirrar com os outros não nos lembramos da grande merda que somos.

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Cinzeiro

por Cristina Nobre Soares, em 28.07.19

Tenho um cinzeiro de vidro, um belo cinzeiro quadrado, um peso monstro permanentemente esquecido no aparador da sala, dado que cá em casa ninguém fuma. Comprei-o a pensar na imensa gente que na altura fumava, e sempre era uma coisa mais apresentável do que lhes indicar o pires do café para largarem a cinza. Agora, já quase ninguém fuma, e os que fumam fogem para a rua, desculpem, que tenho de ir fumar um cigarro, dizem eles com um ar entre a aflição e o de quem vai assaltar alguém à mão armada. E eu fico com um cinzeiro sem serventia nenhuma. E uma máquina de escrever. E discos de vinil. E um abre-cartas. Estou a ficar velha, caramba.

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Fim de Julho

por Cristina Nobre Soares, em 27.07.19

O que tivesse de acontecer na avenida, que começava na esquina da lavandaria e ia até à escola secundária, fossem primeiros beijos, declarações ou fins de namoro, tinha de acontecer até meados de Julho. Depois disso a avenida esvaziava-se e ficavam apenas os prédios de estores corridos e as pracetas suspensas até Setembro. Foi num Julho desses que, sob o calor liquefeito de uma última tarde, que descobri que podemos perceber que alguém nos ama pela forma como diz o nosso nome.

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Em câmara lenta como na TV

por Cristina Nobre Soares, em 18.07.19

Aos 22 anos eu não queria saber como seria aos 45. Nem sequer pensava nisso e se na altura houvesse uma app, duvido que quisesse saber. Aos 22 anos somos eternos e as pessoas de 45 parecem-nos gastas e cansadas. Aos 22 ter 45 fica-nos tão longe que temos a certeza que vamos demorar uma vida a lá chegar. Aos 22 a vida ainda passa em câmara lenta como na TV. A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã.

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Mais devagar

por Cristina Nobre Soares, em 11.07.19

Uma mulher, com as gorduras a sobrarem-lhe por debaixo do cós do soutien, entra no café a queixar-se do calor. Limpa a testa brilhante do suor, que raça, isto hoje já está a assentar bem. Deixe lá, diz a rapariga do balcão, já cá tardava o Verão. Isso és tu que és nova, diz a mulher. Quando chegares à minha idade vais ver o que é ter calor. E chegas lá mais depressa do que pensas, que isto um dia uma é pessoa nova e amanhã já está assim. A rapariga ri-se, é por isso que eu gosto do Verão, o calor faz o tempo passar mais devagar.

(e eu penso, olha, isso é que era serviço.)

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Susana

por Cristina Nobre Soares, em 10.07.19

A minha tal amiga (não sei se já vos terei dito que se chamava Susana), não era bem minha amiga. Temos este comodismo de chamar amigos a quem se torne vagamente próximo. Como alguém que more do outro lado da nossa rua, com quem se troque receitas, bons dias e comentários sobre o tempo. Alguém que nos convide, de vez em quando, para entrar em sua casa, que nos sirva um café, embora nunca se lembre se bebemos com ou sem açúcar. Alguém que apenas nos ajude a ultrapassar a inércia do tempo. Será isto um amigo? Não sei. Mas queria eu contar-vos que essa minha amiga, Susana, tinha outro hábito: mostrar o álbum de casamento. Um álbum de capa de couro com debruns dourados, com as páginas separadas por papel de seda. O tafetá do vestido, cor de marfim e não pérola como parece ser nas fotografias, dizia, foi mandado vir de encomenda, doze metros. Esta é a tia Mitó, já faleceu, que Deus a tenha, este senhor é amigo de infância do meu pai, o senhor Antunes, um homem cultíssimo, esta, de verde, é a minha prima Laura, médica nos Estados Unidos, ao lado, de gravata a condizer com o vestido, o marido, que é americano, mas uma jóia. Depois, fechava o álbum, acariciava o couro da encadernação, e dizia, é, sem dúvida, um dia que marca uma mulher. Mostrou-me o álbum duas vezes. Só depois me contou que não podia ter filhos.

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Parece que nunca aqui estivemos

por Cristina Nobre Soares, em 09.07.19

A amiga do quarto vazio foi a mesma que me ensinou a fazer massa choux e a deixar a fruta das compotas a macerar em parte do açúcar de uma noite para a outra. Também me explicou o preceito das dobras da massa folhada, que nunca pus em prática por me parecer uma empreitada demasiado ambiciosa, acabando por deixar a receita esquecida dentro de um livro qualquer. Essa minha amiga também me ensinou tudo sobre lotes de café (e que o café de balão é o melhor de todos), tipos de chá e que a carne deve repousar antes de ser servida. Para além de ser um repositório de trivialidades perfeitas a minha amiga tinha outra particularidade: não deixava cair uma migalha no chão enquanto cozinhava, deixando tudo impecável. Quando saíamos da cozinha, depois das aulas que me dava, dizia-me com imenso orgulho (daquele orgulho que se confunde, talvez, com alivio): Já reparaste? Parece que nunca aqui estivemos.

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8 anos vazio

por Cristina Nobre Soares, em 08.07.19

Contou-me que, quando desistiram de tentar ter filhos, transformaram o quarto que esteve quase oito anos vazio, três ou quatro caixotes ao pé do guarda-fatos e uma bicicleta de ginástica que nunca foi usada, num quarto de visitas. Para os amigos que os quisessem visitar, passar um fim-de-semana a dar dois dedos de conversa e respirar o ar do campo. Compraram a mobília no IKEA, o Zé João montou-a, ainda esfolou um polegar a montar as mesinhas de cabeceira, e aproveitou uns tapetes velhos de uma prima que entretanto se mudara para o Porto. Ficou impecável, disse-me, parecia quase um quarto de hotel. Os amigos, tal como os filhos, nunca vieram. Ele era as vidas complicadas, a escola dos miúdos, a falta de tempo, a distância, que parece sempre maior quando somos nós a fazê-la. E ela voltou a pôr a bicicleta de ginástica no quarto. Para quando começar a fazer exercício. Nunca começou.

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