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Vielas

por Cristina Nobre Soares, em 30.06.19

Paro à beira de uma viela na qual nunca reparei. As ruas estreitas, aquelas que, com braços abertos de gigante, quase conseguíamos tocar nas paredes das casas de um lado e do outro, eram das coisas que mais mistério a aldeia me trazia. Duas ou três braçadas de rua cheias de jarros e hortênsias, tanques velhos, onde nos agachávamos para nos esconder, degraus com mulheres de bata sentadas a descascar laranjas para cima do colo, anda, esconde-te aí, que eu finjo que não te vi, lençóis estendidos a rasparem-nos os ombros com o cheiro a sabão, ladrilhos aos pedaços, no cimento às ondas, e que nunca saiam da sombra, um, dois, três, que aí vou eu.

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Porém

por Cristina Nobre Soares, em 29.06.19

A minha companheira de almoço mastiga a fazer beicinho e faz sistematicamente uma pausa teatral ao dizer a palavra “porém”, arregalando um bocadinho os olhos, como se fosse sempre contrapor algo escandaloso ou, pelo menos, digno de algum espanto. Repito mentalmente a palavra "porém", como no jogo que fazíamos com a avó da Patrícia, que consistia em repetir, em voz alta, uma palavra, até esta ser apenas um som desprovido de qualquer sentido. Tal como todas as palavras que me diz agora a minha companheira de almoço. Há pouco contava algo sobre as inconveniências de uma colega de trabalho, qualquer coisa sobre o hábito de levar umas marmitas refogadíssimas que deixam a sala onde comem completamente empestada, mas penso que já não seja sobre isso que fala. Não concordas? Pergunta-me subitamente, e eu, para não ser apanhada na minha distracção, respondo, com ar compenetrado e atento: “Talvez. Porém, há coisas piores.

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São vinte e uma e dez minutos

por Cristina Nobre Soares, em 28.06.19

São vinte e uma e dez minutos na estação do Saldanha quando entro na carruagem. Faltava há pouco um minuto e dez segundos para chegar o metro (já se ouvia no túnel), a plataforma estava ainda cheia de gente e eu reparava que eram vinte e uma e nove minutos e, também, na mulher com o mesmo ar pardo e cansado das outras mulheres e homens que entraram na carruagem atrás de nós. Faço as contas ao tempo, percebo que ainda consigo apanhar o autocarro das vinte e uma e trinta e fico a olhar o meu reflexo no vidro. Não o faço para evitar os olhos dos outros passageiros, todos eles no chão ou em outro reflexo do vidro que não o meu, mas para me contemplar e começar a ladainha do costume, estou cansada, tenho olheiras, mas caramba, nem estou nada mal para a idade e que regressar as estas horas faz-se quando os dias são maiores e quando não se tem de fazer todos os dias, sim, isto é tudo muito bonito se não for sempre, e vou nisto até ao Campo Grande, onde saio e desço, como de costume, as escadas a correr, passo o cartão, as portas abrem-se, corro até ao autocarro, sem necessidade nenhuma, ainda tenho tempo. Só

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1ª – Ele tem realmente um grande sentido de humor. E é irónico. Muito irónico. E desconfio que também tivesse sido irónico nesta declaração que está a incendiar as redes sociais. Mas a ironia é uma coisa cada vez mais “invisível aos olhos", nos dias que correm. Tudo é lido à letra e, para que não o façam, temos que despejar emoticons com risinhos e olhos a piscar para as pessoas perceberem que “estávamos a brincar”. Estilo as plaquinhas com “rir” e “aplaudir” que as assistentes do Serafim Saudade usavam em palco. E apanhar uma ironia costuma ser sinal de inteligência. Digo eu.  

2ª- Agora, vamos partir do princípio que ele não estava a ser irónico coisa nenhuma. Que foi um cagão, um pedante. E? Esta ideia de que temos de ser sofríveis para não maçar os outros é adorável. Perdoa-se tudo neste país: vigarices, nepotismo, racismo, até matar a mulher por ciúmes, mas, alto lá, vaidades é que não. Temos tanto azar à vaidade que até cultivamos a profilaxia do nunca elogiar para evitar que os outros caiam na tentação da vaidade. Elogios, só quando a pessoa não está presente (especialmente depois de morta, que aí merece, coitada, afinal aconteceu-lhe o azar de morrer), não vá ela não ficar com a ideia que tem grande importância e passar-lhe pela cabeça que é mais do que nós. Só que esses tais elogios sobre ausentes (sobre os feitos dos nossos filhos, a eficiência dos nossos funcionários, o carácter dos nossos amigos), são sempre mais sobre nós do que propriamente sobre eles. A vaidade é realmente um pecado imperdoável. Já a inveja é perfeitamente aceitável pois, ao contrário da vaidade, não se nota e ainda tem o mérito de muitas vezes passar por moral.

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Infante Santo com a Domingos Sequeira

por Cristina Nobre Soares, em 23.06.19

Estugamos o passo, por causa da chuva que engrossa, comentamos o cheiro da tílias e durante o tempo que nos demora a atravessar a rua numa corrida e entrar pela primeira vez num café que só conhecemos de passar de carro, voltamos ao cruzamento da Infante Santo com a Domingos Sequeira, em Junho. Mais ou menos o mesmo tempo que demorámos a chegar até ao que somos agora.

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Nós

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.19

Há uns vinte e tal anos houve uma assembleia para apresentar o trabalho anual da associação de estudantes da qual eu fazia parte. Quando chegou à minha vez, falei do jornal que tinha “eu montado”, do número de edições “eu tinha publicado”, dos objectivos que “eu” tinha cumprido. A dada altura, depois de ter usado várias vezes a primeira pessoa, o Pedro, presidente da associação, do fundo do anfiteatro, disse-me, sem voz, só com o gesto da boca, “fizemos” e piscou-me o olho. E aquele segundo, para além de me ter sentido envergonhada por estar a ser tão “pavona” com uma coisa que valia o que valia (menos de um caracol), mudou-me a perspectiva de um ano inteiro de trabalho. É verdade que o jornal tinha saído cá para fora (mesmo as edições cheias de gralhas) à conta de 99% do meu trabalho, carolice e teimosia. Mas deixar de ser apenas EU, não minimizava, nem a apagava o meu trabalho e o meu esforço. Até porque a insignificância da nossa existência já é demasiado insignificante para ser minimizada. E não há apenas um “EU”. Não somos sozinhos. Faz-me lembrar uma frase do “After life” em que a velhota que o Ricky Gervais encontra no cemitério lhe diz “Só cá andamos para nos acompanharmos uns aos outros.” 
Ao dizermos que somos NÓS, passamos a trabalhar para um bem comum, para algo maior do que o nosso ego, do que as nossas vitórias e sacrifícios. Ao sermos NÓS abrimos a possibilidade de os outros sentirem que fazem parte de alguma coisa, que essa coisa foi pensada também para eles, que vale a pena fazer parte de um bem comum. Naquele caso era uma coisa feita por uma aluna para outros alunos. Hoje, o tal jornal (que se chamava BI) está exposto no ISA, juntamente com outras publicações criadas por alunos. Não interessa quem o fez. Interessa que foi feito e que se alguém quiser pode voltar a ser feito. E acima de tudo, nós não importamos (vamos todos morrer e o nosso ego será igualmente comido pelos bichos). O que importa são as portas, por mais pequeninas que sejam, que abrimos e deixamos abertas a quem vier atrás.

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Desassombro

por Cristina Nobre Soares, em 21.06.19

No cemitério, há um casal a passear por entre as campas. Vão vendo quem morreu, este era marido de fulano, da família ou das amizades de sicrano, as pedras boas, o mármore faz-se feio com o tempo, e as que revelam curteza de dinheiros, até na morte uns são mais do que outros, os ditos nas lages, se as flores são de plástico (sinal que a família já se acostumou com o luto) ou se são frescas, agora no Verão não duram nada, é só para dizer que se cá veio. Não é mórbido este passeio, desenganem-se, é um querer saber de quem já não está cá. Este tu-cá-tu-lá com a morte pode chocar alguns. A mim comove-me. Como me comovem todos os desassombros.

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Desistir

por Cristina Nobre Soares, em 20.06.19

Na carruagem vem um homem com um chapéu vermelho de aba larga. Daqueles chapéus que já vi nos bailarinos de flamenco. Mas só na televisão. Ao vivo nunca vi nenhum. Só o meu professor de aulas de sevilhanas, que não usava chapéu, mas usava sapatos de tacão alto. Só tive duas ou três aulas, acabei por desistir, era demasiado suburbana para me enquadrar naquela turma, que tinha aulas uma vez por semana (salvo o erro às quintas-feiras) no antigo lagar da minha faculdade. Gostar de dançar, infelizmente, não chega para muita coisa nesta vida. Na altura, teria sido mais coerente com o meu boletim de voto dedicar-me a um qualquer folclore de leste. Desisti, portanto. Como desisti de muita coisa nesta vida: livros chatos, namorados, idas à praia, dietas, sapatos com saltos de dez centímetros, discussões, argumentações, zangas, amizades de conveniência, dar conselhos, ouvir conselhos, exames, usar batom vermelho (acabava-me sempre nos dentes), de ser um génio ou uma gaja muita boa, de correr todas as manhãs, das idas ao ginásio, do Instagram e do Twitter e de pensar que se correr, quando sair no Campo Grande, ainda apanho o autocarro das oito e trinta. Que se lixe.

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Janela

por Cristina Nobre Soares, em 19.06.19

Chego aqui à janela. Há uma discussão acesa, já a descambar para o insulto, no mural do Nuno, a propósito da série "Chernobyl". A discussão há muito que passou o tema da série, para se tornar numa paródia da cortina de ferro. Ignoro. A Céu ( trabalhámos juntas, não a vejo há uns dez anos) publicou uma fotografia da filha, que deve ter idade da minha. Faço um love e escrevo “Gira, a miúda!”. Nunca gostei muito da Céu, era uma chata, com aquele hábito irritante de dar palmadinhas nos braços dos outros enquanto perguntava “Não é? Não é?”. A Inês partilhou uma musica dos Smiths, faço love, claro, afinal assim toda a gente fica a saber que também gosto imenso, ainda por cima é uma pouco conhecida, não é como a "There is a light that never goes out", que toda a gente partilha. O não-sei-quantos com quatro apelidos continua a publicar selfies e a puxar dos galões. Não há paciência para pavões. Faço-lhe unfollow. Rio-me com o post do Hugo, valha-me o mural dele para não me fartar disto. Dou os parabéns a duas pessoas e enquanto escrevo isto, a mulher do Miguel volta a fazer like nos meus posts. Ambas sabemos por que razão me faz likes nos textos. E eu hoje estou cínica o suficiente para lhe retribuir com um love numa fotografia. Agora, chega. Vou trabalhar.

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Variações de Goldberg

por Cristina Nobre Soares, em 16.06.19

Vivia na casa que fora da avó, um rés-do-chão na Ferreira Borges, e alugava o quarto vago para ajudar a pagar as contas. Uma das suas inquilinas foi uma sarda de Erasmus, a quem nunca se vira um par de cuecas estendido. Só uma vez, umas vermelhas de renda, dizia-me. Daí se concluir que a sarda não usaria cuecas. E também que gostava de Bach, pelas vezes que punha na aparelhagem o mesmo CD com as variações de Goldberg, sempre com o volume no máximo. Às vezes, quando chego e ela tem isto a tocar, não entro logo em casa. Sento-me nas escadas a ouvir. Descobri que o prédio tem uma acústica belíssima.

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