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Café

por Cristina Nobre Soares, em 30.05.19

No tempo em que eu tinha urgência para tudo e desperdiçava o tempo, acabando por não fazer nada, adorava beber café. Bebia, às vezes, seis bicas por dia. Acho que comecei a gostar de café antes de o começar a beber, quando ia, pela mão da minha mãe, ao Ouro Verde, em Algés, comprar quinhentos gramas de lote da casa, embalado num cartucho de papel pardo, e me perdia nas prateleiras cheias de mercearias finas e nas vozes dos empregados, que tinham de ser gritadas para se ouvirem por cima do barulho dos moinhos. Agora, já quase não bebo café. Um de manhã apenas, que a idade trouxe-me noites de insónia fácil. Agora, que só tenho urgência para algumas coisas e que acabo por fazer quase tudo, mesmo aquilo que, à partida, parecia não caber no meu tempo, bebo tisanas ou chá de limão feito com duas cascas fervidas (durante cinco minutos, não mais, senão amarga). Mas tenho saudades de beber café, assim como tenho saudades de passar noites em branco e acordar como se nada tivesse sido, fresquinha. E do cheiro do Ouro Verde, em Algés.

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Cinderela

por Cristina Nobre Soares, em 25.05.19

A mãe da Ana Sofia usava o cabelo pelas costas, calças de ganga da Levis de contrabando, camisas às flores e fumava Português Suave. Era gira e todas queríamos ter uma mãe assim. As nossas mães usavam saias pelo joelho, calças de pinças e “mise” feita no cabeleireiro de bairro. A mãe da Ana Sofia era muito moderna, falava connosco sobre namorados, sexo e como não engravidar. Falava com gestos largos que terminavam sempre a afastar o cabelo e usava palavras como clitóris e masturbação com a mesma naturalidade com que as nossas mães nos explicavam como curar uma constipação com xarope de cenoura ou como mentir sobre as dores do período, dizendo que devia ser qualquer coisa que tínhamos comido. Sentava-se no braço do sofá ou na beira da cama da Ana Sofia, a querer muito ser nossa amiga, acendia um cigarro e perguntava se fumávamos, eu não digo nada aos vossos pais, não, não fumamos, não acredito, nem uma passa? E piscava o olho. Não percebíamos porque é a Ana Sofia revirava tanto os olhos quando a mãe falava. A mãe dela era perfeita, era a mulher que queríamos ser quando fossemos adultas. Às vezes, distraía-se a conversar connosco e deixava passar as sete menos um quarto. Levantava-se de repente, ai, que o teu pai não tarda está aí, apagava o cigarro, que muitas vezes deitava fora pela janela, abanava muito as mãos para ver se passava o cheiro e chupava uma pastilha de mentol. Quando o pai chegava e perguntava com maus modos pelo jantar, a mãe da Ana Sofia respondia, perdi-me nas horas, meu amor, mas já estou a tratar disso e ele berrava-lhe, és sempre a mesma merda.

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Superação

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.19

No fundo, no fundo, cada um à sua maneira, somos todos histórias de superação de alguma coisa.

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Niki Lauda

por Cristina Nobre Soares, em 21.05.19

O meu irmão era um grande fã de Formula 1. O que significava que apanhava uma estucha monumental em muitos Domingos à tarde, onde o único som que se ouvia na sala era aquele zumbido irritante durante horas. Mas, como só havia dois canais, uma pessoa via tudo e por isso a Formula 1 (a par com o rock progressivo) também fez parte da minha infância e parte da minha adolescência. Deu para definir os preferidos (gostava muito do Alain Prost, talvez por ter um certo ar de Brian May de cabelo curto e só para contrariar o facto de toda a gente ser fã do Ayrton Senna). Deu também para aprender o nome das equipas, os nomes dos circuitos (e quais os mais tramados), o que significavam os tempos das provas, as demoras na box, etc., etc. O que eu não sabia é que esta cultura de algibeira, obtida naquele calvário automobilístico dos Domingos à tarde, me haveria, anos mais tarde, de me dar uma grande vantagem evolutiva no que diz respeito a meter conversa (e não só) com rapazes. Uma pessoa tinha de fazer pela vida e Darwin não falha.

(Do Niki Lauda lembro-me de se falar da história do acidente, no qual quase morrera e cuja história muito me impressionava. Li no outro dia que há uma personagem na Guerra dos Tronos que enfrenta a morte dizendo “Ainda não é hoje”. Deve ter sido o que o Niki Lauda disse, quando ficou preso no carro incendiado. Até ser hoje. Adeus Niki.)

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Apaziguar

por Cristina Nobre Soares, em 17.05.19

Perdoar não é apagar o passado. Perdoar é uma forma de lidar com passado. Não é esquecer, passar uma esponja, “um faz-de-conta-que-não-aconteceu”. Muito pelo contrário, é pôr as cartas na mesa e dizer, foi isto, é a vida. É dar uma segunda hipótese, ou terceira, ou quarta. Ou descobrir que simplesmente não vale a pena dar nenhuma e cada um ir em paz para o seu lado. Em paz. Devíamos usar mais a palavra apaziguar. Eu apaziguei-me contigo. É uma coisa menos magnânima, menos perfeita. É mais humana. E mais possível.

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A ciência quando nasce é para todos?

por Cristina Nobre Soares, em 15.05.19

 

Há 19 anos, mais ou menos por esta altura, defendia o meu trabalho final de licenciatura. Com um pomposo título de 18 palavras, não é mais do que um estudo sobre a qualidade de água de 3 albufeiras. Só que em vez de usar parâmetros químicos, como o teor em oxigénio, nitratos, etc., usámos a presença de determinados insectos. Isto porque há insectos que só se dão em águas muito limpas (a ordem Plecoptera, por exemplo) e outros, cuja presença é logo sinal de que aquilo não está nada bom (ordem Diptera, por exemplo). Ou, como o meu primo Carlos muito bem disse e resumiu, foi um estudo sobre melgas, alfaiates e águas inquinadas.

Depois de quase um ano a identificar milhares (sim, milhares) de insectos aquáticos e horas infindas a processar dados em computadores, aos quais só faltava um pedal, lá comecei a escrever a bendita tese.

Dado que 99,9% da bibliografia que me serviu de suporte era em inglês, a boa da Cristina achou que podia escrever uma tese como os ingleses e os americanos escrevem: de forma simples, sem floreados, nem talha dourada. Claro que dei com os burros na água logo na revisão das primeiras páginas e ainda tive de ouvir: a Cristina escreve como se tivesse saído da escola primária. Ou seja, mal.

A partir daí lancei-me na empreitada de escrever como a academia escreve: de maneira a que só quem tenha estudos a consiga perceber. Afinal isto era uma coisa disruptiva (não era, os americanos tinham litros destes estudos), complexa (não foi, foi trabalhosa, que é uma coisa muito diferente) e multidisciplinar (treta, basicamente fiz tudo sozinha). Mas tive de escrever de forma a parecê-lo. E deve ter parecido, dado que tive 19 valores.

Ainda assim, no dia da defesa, ouvi que o meu relatório estava redigido de forma ”Um pouco simples demais para a formação académica de quem a ia ler. Qualquer dia estamos a escrever para o trolha”. Ou seja, não tinha voz passiva, nominalizações e frases com mais de 50 palavras em quantidade suficiente para ter sainete académico.

Só que não.

A escrita de ciência é como o sol (e a água de boa qualidade): quando nasce tem de ser para todos. Não é um quintalzinho privado, nem um galão para se puxar. É conhecimento que, através de uma passagem de testemunho de milhares de anos, nos trouxe até aqui. Partilhá-lo de forma clara e acessível é uma forma de gratidão, de dever, nem que seja pelos contribuintes.

Lembro-me de uma história que um amigo meu me contava: que quando tinha ido fazer o ERASMUS à Suécia, também mais ou menos há 20 anos, as senhoras da limpeza da universidade também eram chamadas para assistir aos seminários. Os seminários, lá, eram para todos.

Hoje, depois da minha vida ter dado muitas voltas e de ironicamente de me ter feito retornar ao ponto de partida, mas agora juntando os meus dois mundos, a escrita e a ciência, passam-me pelas mãos teses de mestrado, às quais eu dou uma ajuda na estrutura narrativa e na clarificação dos conceitos. E penso várias vezes: será que o trolha e a senhora da limpeza perceberiam a utilidade desta tese? Tomara que sim. Seria sinal de que a comunicação de ciência caminhava para um sítio melhor: um sítio para todos.

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Os benefícios do tabaco

por Cristina Nobre Soares, em 10.05.19

O Facebook é o meu tabaco. Volta e meia, venho aqui fumar um cigarro à janela. Às vezes, confesso, demoro-me o tempo de dois, acendo um no outro, sem dar por ela. Outras vezes, deixo-o a meio, isto aqui não se aprende nada, digo, e vou-me embora. Há quem diga que, como qualquer tabaco, faz-me mal à saúde, que eu devia deixar de fumar. Respondo que uma pessoa sem vícios é uma criatura muito chata. E vou ficando. Outras vezes, dá-me a veneta e digo para mim, não pego nunca mais num cigarro, que isto já satura. Mas é mentira, porque acabo por fazer as pazes comigo e digo-me, bom, desde que este vício não se comece a contar em maços e desde que não prejudiques a saúde dos outros (que os fumadores passivos têm aquela cruz de lhe caírem os malucos e os sarnosos de espírito a largarem-lhes o fumo todo na cara, perdão, nos comentários) deixa-te estar, que sempre é um entretém. E para mais da outra janela do teu escritório só se vêem pássaros e árvores, e uma pessoa nem sempre está com espírito bucólico, tanta paz campestre há dias que maça um bocadito. Aqui, pelo menos, ainda se fala com gente. Reparo agora que ainda não parou de chover. Uma neura. Mas não me lixem, o verde das árvores fica muito mais bonito nos dias de chuva.

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Dos nomes

por Cristina Nobre Soares, em 09.05.19

Toda a gente ficou comovida quando a Mariette, depois de casar com o João Godunha, morreu vestida de noiva, numa cama de hospital. Falou-se disso no talho e no supermercado do senhor Luís. Agora vão ver que vão chamar Mariettes às bebés que nasceram, disse a rapariga na caixa, enquanto registava as mercearias. Credo, disse a mulher atrás de nós, agora iam dar nome de desgraçada às crianças. A Mariette era, portanto, uma desgraçada. Na altura, pensei que era por ela ter morrido logo depois de ter casado com o amor dela e ter deixado um filho órfão. Isso era realmente uma desgraça muito grande. Só anos mais tarde é que percebi que a Mariette era uma desgraçada porque era uma prostituta. Ser puta era uma desgraça. E mesmo sendo uma puta boazinha, que criava o filho com sacrifício e amor e conseguiu ser resgatada pelo amor do João Godunha, que queria fazer dela uma mulher honrada, salvando-a na extrema-unção, não se safava de ser desgraçada. Ser desgraçada não era um azar, era uma condição. A minha mãe pagou as compras e, ao sair, respondeu à caixa, que disparate, nomes desses só são bonitos nas histórias das novelas.

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Comunicação em ciência clara

por Cristina Nobre Soares, em 07.05.19

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Sabe explicar de uma forma simples o que é uma enzima? Ou um enviesamento da amostra? Ou um macroinvertebrado? Sabe que palavras como “erro” ou “incerteza” podem não significar o mesmo para todas as pessoas?

 

Sou uma mulher de duas vidas. Na minha "vida antiga" formei-me e trabalhei em ciência. Na minha "vida de hoje" escrevo e trabalho em comunicação.  E quando juntei estas duas vidas aconteceu isto: uma paixão minha, algo em que acredito profundamente. Comunicar ciência para que todos entendam, mesmo  aqueles que acham que a ciência é uma coisa muito complicada, que não é para eles. 

 

Depois do primeiro curso, onde tive um primeiro grupo de alunos maravilhoso, regresso com uma segunda edição. Para todos aqueles que querem aprender a comunicar conceitos técnicos e científicos de forma a que toda a gente perceba: é inscreverem-se aqui.

 

 

 

 

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Cartilha maternal

por Cristina Nobre Soares, em 05.05.19

Todas as tardes sentava-me no topo da mesa da cozinha, com o cortinado de florinhas por detrás. Em que lição é que vamos? Perguntava-me a minha mãe. Quando começámos a chegar ao fim do livro eu mentia, dizia que era a do dia anterior. Tens a certeza? Tenho ideia que já demos essa, dizia a minha mãe, que fingia acreditar. Queria muito que o livro nunca acabasse, que as lições nunca acabassem (só não gostava dos cadernos de caligrafia, onde a minha letra nunca cabia). Nem sei quantas vezes lemos o texto da cobra e do passarinho. Ao princípio a minha mãe passava o dedo indicador para me ajudar a ler as linhas, mas depois, quando eu já lia correctamente, encostava-se ao balcão a ouvir-me. Mas que coisa, nunca mais chegamos ao fim do livro, dizia ela, e eu ria-me por dentro, por achar que ela nunca descobriria o meu segredo. As minhas histórias começaram na mesa da cozinha, com o cortinado de florinhas por detrás. Se calhar começam sempre.

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