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É tramado sermos maravilhosos

por Cristina Nobre Soares, em 27.04.19

É maravilhoso termos liberdade para dizermos tudo o que nos apetece. Mas é tramado quando as pessoas se chateiam quando dizemos tudo o que nos apetece. Porque é maravilhoso que as pessoas respeitem a nossa opinião, por mais diferente que seja. Mas é tramado que elas tenham a liberdade para se chatear connosco. E o melindre é uma falta de liberdade tramada. Mas não para quem se melindra, porque quem se melindra sente-se maravilhosamente livre por o poder fazer. É tramado sermos maravilhosos.

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Lá fora a chuva cai

por Cristina Nobre Soares, em 24.04.19

Olha, lá fora a chuva cai, comento em voz alta, mesmo sabendo que estou sozinha na cozinha, enquanto ponho a loiça a lavar. Havia uma canção da Adelaide Ferreira que começava assim, foi a canção que ela levou à Eurovisão, não sei em que ano, tenho ideia que ainda andava no ciclo, se calhar foi no ano em que ganhou o Johnny Logan, não, isso foi depois, foi na altura em que eu gostava do Júlio, que vivia no prédio da Patrícia, tinha mais dois anos do que eu, era giro, usava pulseiras de nós e não me ligava nenhuma e que depois foi viver para o Algarve e me deixou a chorar baba e ranho ao som do single dos Foreigner, que comprei em segunda mão à Catarina, que roubava cigarros ao irmão e já sabia travar e curtir com língua. Comprei-lhe o single por 20 escudos, acho eu. No outro dia expliquei à minha filha a diferença entre um single e um LP. Os singles eram a 45 rotações e tínhamos de encaixar uma peça no meio, quando os púnhamos no gira-discos. Não, a Adelaide Ferreira deve ter sido antes do Johnny Logan, a minha mãe dizia que ela era das Caldas da Rainha, sempre que a via na televisão. Não sei se é verdade ou se são daquelas coisas que as pessoas dizem só para fazer conversa, quando não há mais nada para dizer, como eu fiz agora, sem saber porque é que não fiquei calada, a dizer uma coisa a despropósito, quando toda a gente está a falar do 25 de Abril, olha, lá fora a chuva cai.

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Para sempre

por Cristina Nobre Soares, em 23.04.19

Nasci 2 meses antes do 25 de Abril de 1974, numa ex-colónia. Não vivi a revolução, muito menos o antes que levou à revolução. As memórias que tenho, como muita coisa na minha vida, são de ouvir contar. Não é a mesma coisa do que quem a viveu. Pois não. É muito diferente. Cresci a ouvir muitas versões, muitas paixões e muitos ressentimentos diferentes sobre a mesma realidade. Cresci também a perceber que há coisas que demoram a ser faladas e que provavelmente nunca serão faladas em vida de quem as viveu. Mas aprendi a dar valor a uma coisa que sempre tive como garantida, a liberdade. E a democracia. O meu 25 de Abril é isso: gratidão. Que não precisa de ser uma memória, porque gratidão é ser para sempre.

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Cordeiro de Deus

por Cristina Nobre Soares, em 21.04.19

Nós a corrermos pela ladeira que vinha do cruzeiro, a rua de granito com os restos das ramadas do outro Domingo, as mulheres a picarem a cebola na mão, o borrego no alguidar, cordeiro de Deus, as meias a escorregarem-me pela perna, tenham juízo, olha que caem, o cheiro a canela, o pão-de-ló no prato de vidro azul, as amêndoas roladas do tacho velho, os velhos à sombra de uma árvore que me parecia igual a todas as outras, que tirais o pecado do mundo, a renda fina da melhor toalha, o cabelo a soltar-se-me dos ganchos, eu bem te disse que caías, os joelhos esfolados, as meias enfoladas por cima dos sapatos, a cara vermelha, olha-me para ti, a minha mãe zangada, isso não são preparos para o almoço, tende piedade de nós.

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Papel de prata e arroz-doce

por Cristina Nobre Soares, em 18.04.19

O meu pai ensinou-me a alisar o papel de prata (que se calhar era de estanho) dos ovos de chocolate. Tens de fazer com o canto da unha do polegar, e não podes fazer muita força para não rasgar. As folhas dele ficavam impecáveis, como se nunca tivessem sido usadas. Depois, guardava-as no móvel da casa de jantar, na gaveta dos naperons e dos guardanapos. Dizia ele que podiam servir de marcadores de livros, mas a verdade é que acabavam por ficar esquecidas na gaveta. Também me ensinou a fazer desenhos de canela no arroz-doce. Punha um bocadinho de canela entre o polegar e o indicador e rolava-os com precisão. Isto tem de ser com paciência, dizia, como se o xadrez de canela fosse um exercício de física quântica. 
As memórias de coisas inúteis servem para nos dar algum sentido.

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Falar disso para quê?

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.19

Nas famílias, muitas vezes, depois de episódios de mágoa ou de vergonha, gera-se uma paz podre. Um silêncio. Que se confunde com esquecimento, mas é muito diferente. Este silêncio enche uma sala, tira o ar, toca-se. Mas ninguém o quebra. Espera-se que passe, como se fosse uma gripe. Às vezes, há alguém, geralmente um velho que já não tem nada a perder ou o maluco da família, que toca no assunto. E os restantes agitam-se nas cadeiras com o desconforto, isso não é assunto para falar à mesa, isso são águas passadas, o que lá vai, lá vai, o que interessa isso agora? E tudo volta à normalidade de sempre, para que depois se possa dizer: nesta família não há conflitos, nesta família não há mágoas, neste país não há ressentimentos, neste país não há más memórias, não morreu ninguém na guerra, nem ninguém matou ninguém, não houve presos políticos, não havia miséria, não havia espinhos contra os retornados, nem contra os comunistas, nem contra os reaccionários, nem contra os latifundiários, nem contra os piquetes de greve, nem contra os pretos, nem contra os brancos de segunda. Não, isso nunca é bem assim, ou são tudo águas passadas, as mágoas não se sentam à mesa, o que passou, passou, o que interessa é que pareça que está tudo bem. Falar disso para quê?

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Por quem choramos

por Cristina Nobre Soares, em 16.04.19

É estranho que até o incêndio de um símbolo que é Notre-Dame dê logo lenha (passe o trocadilho) para tanta indignação. Ele é ver quem é religioso ou não, quem realmente gostava mais da catedral, quem chora por isto e não chora por coisas mais graves, quem dá dinheiro para isto e não dá para coisas mais graves. 
Ardeu um símbolo. Mesmo quem nunca lá esteve conhece, viu fotografias no livro de história, imagens na televisão, ouviu a história do corcunda e perguntou o que era uma gárgula, recebeu um postal de férias, conheceu alguém que lá passou por ter estado em Paris em passeio, emigrado ou exilado. E quem lá esteve lida com a estranheza de ver desaparecer um sítio por onde passou, onde acendeu uma vela, apesar de não ser crente, só para dizer, eu estive aqui, e um dia mais tarde, ao lembrar-se desse momento, enquanto a Notre-Dame ardia, percebeu que a memória sabe lidar com a passagem do tempo, mas não com o desaparecimento do espaço. 
Não choramos da mesma forma por tudo. Choramos por aquilo que por alguma razão nos é mais próximo e não somos menores ou mais hipócritas por isso.

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Ficar calado

por Cristina Nobre Soares, em 15.04.19

Uma vez, um tipo, disse-me que "só não me atiro a ti porque tens um ar muito português e banal." Enfim, depois do que eu lhe respondi dificilmente se terá voltado a lembrar de mim como banal. 
O problema destas coisas é serem verbalizadas (e acharmos que a nossa opinião, dirigida directamente à vida de terceiros, é fundamental para a existência da humanidade no geral), pois, ao fazê-lo, mostram falta de inteligência e empatia pelos outros. E duvido, muito sinceramente, que, na maior parte dos casos, seja sequer uma agenda machista, pois implicaria alguma complexidade de raciocínio. E gente burra é o que não falta.
Provavelmente todos nós já nos desiludimos com um flirt ou paixoneta por motivos fúteis, como mau português, comer de boca aberta ou mãos suadas. Faz parte. Ninguém explica isto. E não há inocentes nisto. Uns não gostam de gente burra (como eu), outros não gostam de gordos, de magros, de gente com dentes grandes, dentes de rato, cabeludos ou carecas. Cada qual gosta do que gosta. A diferença é que se calhar, assaltados por algum bom senso e empatia, em vez de sermos "muito frontais e iguais a nós mesmos", evitámos melindrar alguém e dissemos: "o problema não és tu, sou eu." E é verdade. Nestes casos, o problema somos nós que, mesmo sendo boas pessoas na maior parte dos dias, há outros em que somos umas reais e grandes bestas, que acham os outros banais ou embirram com os erros de português alheios. Convém é ficar calado para que haja pouca gente a dar por isso.

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Intermitência

por Cristina Nobre Soares, em 12.04.19

Escrevi um texto passado no corredor de uma escola, instantes antes de eu entrar para uma reunião de pais. Nesse texto falava de duas mães que comentavam entre si a medicação que davam aos filhos hiperactivos. Que depois falaram dos comprimidos que tomavam para dormir. E depois do que iam fazer para o jantar, sobre o gradeamento de uma que caíra com o temporal, mas que o seguro não pagava e da ferida num pé da outra, que afinal era por causa de um fungo, mas que tinha sido preciso a rapariga nova que estava na farmácia perceber o que aquilo era, que a enfermeira do centro de saúde não fizera grande caso. Descrevia uma como magra, de olhar cansado e cabelo pigarço e mal preso num rabo-de-cavalo. Sobre a outra falei apenas da mala de imitação de pele verde, esfolada nas costuras pelo uso. Podia ter falado do cabelo pintado da dona da mala esfolada, mas não me apeteceu, era avermelhado, saltei logo para uma lâmpada do corredor intermitente, que zumbia sempre que voltava a acender e para uma contínua antipática que se queixou disso. Terminei com uma coisa qualquer sobre a normalidade. Não publiquei o texto. Ninguém iria comentar a intermitência da normalidade, nem o gradeamento que o seguro não pagara, nem as insónias das mães, nem a antipatia da contínua, nem o fungo no pé. Iriam chamar-me à atenção que já não são contínuas e discutir a questão da hiperactividade. E a luz do corredor continuaria a piscar até que a professora nos dissesse que podíamos entrar na sala.

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Em Santos

por Cristina Nobre Soares, em 09.04.19

Em Santos, entrou um homem gordo que cheirava muito, muito mal. Sentou-se num daqueles bancos voltados um para o outro, que ficam à saída do eléctrico, ao lado de outro homem que não aguentou nem dois minutos e que se levantou, agoniado com o cheiro. O homem gordo que cheirava mal, ajeitou-se no lugar, coçando a raiz do cabelo por cima da testa, de onde caíram umas escamas de porcaria e tornou-se invisível. Um homem imenso e nauseabundo que ninguém via. Talvez uma senhora quefungou, assinalando o incómodo, tivesse dado por ele. Mais ninguém. O homem saiu no Calvário e duas pessoas abriam a janela, para ver se o cheiro do homem saía com a corrente de ar, mas não, ficou a entrar pelas narinas adentro até à ultima paragem da Ajuda, até ao momento em que fizeram o jantar, se sentaram à mesa e disseram, hoje, entrou no eléctrico um homem gordo que cheirava muito, muito mal.

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