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Cinzento vago

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.19

As primeiras memórias que tenho, não são da terra onde nasci. As minhas primeiras memórias são de Vila Nova de Gaia. Da Laidinha, que tinha uma venda de frutas e legumes do outro lado da rua, dos peixinhos de chocolate, embrulhados em papel prateado que a minha mãe e a minha irmã me compravam no supermercado que havia no rés-do-chão, da minha cama de madeira branca e de um cinzento vago, que durante muito tempo confundi com chuva, mas que depois percebi que era a tristeza que por vezes os adultos carregam. A minha primeira memória foi de um retorno, de um começar de novo. Hoje, ao passar por uma rua qualquer de Gaia, pensei que talvez isso explique muita coisa

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Sobre a beleza

por Cristina Nobre Soares, em 23.03.19

Há muitos anos, a propósito dos meus quilos a mais de adolescente, alguém disse-me, “também, és incapaz de fazer um sacrifício para ficares melhor”. Lembro-me frequentemente desta frase, pois os anos passaram, os quilos foram, mas a tal atitude manteve-se. Sou avessa a dietas (quem me conhece sabe que sou capaz de viver de chocolate, batatas fritas e manteiga de amendoim até o fígado ficar moribundo), tenho uns meros 60 minutos de validade no cabeleireiro, passados os quais começo com vontade de rebolar pelo chão, não pinto as unhas, maquilho-me, mas sem grandes cenas, gosto de roupa, mas desde que não demore a escolher, gostava de saltos até as costas começarem a acusar 45 anos de má postura e balda generalizada, trato da pele e faço algum exercício, desde que isso não me obrigue a acordar mais cedo (que, isso sim, faz um mal horrível às pessoas) ou não me dê muito trabalho. Tenho por isso uma imensa admiração por aquelas pessoas empenhadas e dedicadas em estar sempre no seu melhor, impecáveis até ao dia em que se finam e que para isso não se importam de sofrer e aguentar estoicamente as provações que as levarão ao paraíso da beleza. Já eu certamente terei como epitáfio: Aqui jaz Cristina. Que nunca levou a mal, mas também nunca percebeu porque é que a beleza era fundamental.

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Azul-petróleo

por Cristina Nobre Soares, em 21.03.19

A mulher do casaco azul-petróleo, que veio para Lisboa no mesmo autocarro do que eu, também regressa agora. Acho engraçado quando isso acontece. Eu fui dar aulas, esperei o 18 lamentando não ter sombra, passei por debaixo da ponte, ignorei o homem que me pediu lume (isto ainda se faz? ), pensei que as noites em Lisboa são mornas para serem caminhadas, pedi um chá de limão no café ao pé da paragem e a mulher que me atendeu explicou-me, com brio exagerado, que naquela casa os cariocas de limão são sempre servidos em chávena grande, reparei nas luzes das janelas por detrás da treliça de betão. E a mulher do casaco azul-petróleo, o que terá feito, cumprindo as mesmas horas do que eu? Imagino demasiadas hipóteses, algumas verdadeiramente parvas. Só nós é que temos vidas sem nada a assinalar, os outros têm as imensas possibilidades do que não fazemos. Reparo que a treliça de betão faz uma varanda. Isto porque alguém abriu a janela e veio cá fora. O autocarro chega e a mulher do casaco azul-petróleo diz para alguém atrás de mim, eu cheguei depois desta senhora.

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Pelo motivo certo

por Cristina Nobre Soares, em 19.03.19

Este fim-de-semana encontrei o meu certificado da licenciatura. Pelo meio também desencantei o certificado da parte curricular do mestrado que frequentei no Técnico, cuja tese nunca cheguei fazer: Este ultimo certificado serviu para me lembrar que tive uma grande nota a Sistemas Periciais, com um trabalho marado que juntava fogos florestais e método dos casos.E fiquei a pensar o quão fácil é mostrar o meu currículo com estes certificados e estas notas e puxar dos galões. E quão mais difícil é mostrar um currículo feito a estudar e a trabalhar sozinha, cujo único certificado são os clientes que te vão recomendado, passando a palavra. Às vezes, penso em voltar a estudar, em inscrever-me num curso, só para ter um papel destes, relativo à minha nova vida. Um carimbo, um selo. Mas depois passa-me. Hei-de voltar a estudar, sim, mas lá para depois dos sessenta, a tirar uma coisa estupidamente improvável, como antropologia ou sociologia, que só tenha como serventia fazer-me aprender algo que sempre quis e que, por isso, me fará sentir uma pessoa melhor. Vou ser a aluna mais velha da sala, cheia de cabelos brancos, completamente às aranhas (ainda mais do que agora, se é que é possível) a meter-me nas conversas da malta nova, como a Alda e o “Colega” faziam quando eu andava na universidade. Hei-de voltar a estudar, sim, tenho a certeza. Mas pelo motivo certo.

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Ir a tempo

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.19

Devo ter visto o pai da Patrícia umas duas ou três vezes. Vinha às festas de anos, mas ficava à porta. Quem o recebia era a avó da Patrícia, que a chamava, Patricinha tens aqui o pai. A mãe da Patrícia ia fumar para a marquise e a madrasta ficava no carro. Só o pai e os irmãos pequenos é que apareciam. A avó convidava-o por cortesia a ficar para o apagar das velas e ele por cortesia recusava e dizia para a filha, depois apagas as velas em casa do pai. 
A madrasta da Patrícia foi a minha professora de matemática do 12º ano. Graças a ela safei-me na prova específica. Um dia, chamou-me no fim da aula e perguntou-me, porque é que não foste para humanísticas? Respondi-lhe que também gostava de ciências, que tinha melhores saídas profissionais. E depois suspirei e disse, e já não vou a tempo de mudar. E ela disse-me, és tão novinha e vamos sempre a tempo de ser felizes. E eu quis dizer-lhe que sabia quem ela era, que a vira uma vez da janela do quarto da avó da Patrícia, dentro do carro a fumar um cigarro, talvez da mesma marca do que a mãe da Patrícia fumava na marquise. As duas à espera de irem a tempo de ser felizes

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E eu corro para apanhar o 18

por Cristina Nobre Soares, em 11.03.19

Enquanto preparo os exercícios para o curso de comunicação de ciência revejo tudo aquilo que fui aprendendo neste meu caminho improvável. Na secretária empilham-se os livros que acumulei nas duas vidas e as canecas de chá que fui fazendo ao longo do dia para enganar o nervoso miudinho. Recordo conceitos que nunca mais usei e pelo meio lembro-me das olaias em flor, dos dois jacarandás, dos lódãos bastardos da Luís de Camões, da ponte quase por cima de nós, da vinha no Outono, da Gingko biloba raquítica (deve estar maior), à porta do Departamento Florestal, da Terra Grande, do anfiteatro de pedra, do Paulo, atrás do balcão, e que me reconheceu à primeira, do professor Campos (como eu gostaria de poder partilhar isto consigo, professor) , do professor Barreto que só consegui compreender mais tarde, quando vi o “Uma mente brilhante”, do professor Fabião, que tinha sempre uma coisa simpática a dizer, do cheiro a fim de festa no lagar, da associação de estudantes, do fechar a edição da Campus, quem é que escreve o editorial e de mim, no miradouro da Santo Amaro, a procurar um sentido que só encontrei vinte anos e muitos dias depois. 
A minha filha passa com cara de caso, pergunto-lhe o que tem, diz que ainda tem de estudar para o teste. Deixa lá, eu também tenho de trabalhar até tarde, digo-lhe. Mas tu adoras o que fazes, mãe, responde-me. E eu sorrio e corro para apanhar o 18.

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Bastidores

por Cristina Nobre Soares, em 06.03.19

E depois, chega aquele tempo em que nós, pais, temos de nos retirar para os bastidores, esperando que o trabalho feito até agora tenha frutos e lembrando a cada tentação nossa de correr a protegê-los que crescer sem liberdade pode tirar o ar para o resto da vida (e doer mais que muita queda). As noites mal dormidas, quando eles eram pequenos, são coisas para meninos.

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Prunus

por Cristina Nobre Soares, em 05.03.19

Chove. Os pessegueiros da várzea entraram em floração. Comento o quanto o pomar está bonito e regresso à sala 27, pessegueiro, família das Rosáceas, subfamília Prunoidea, género 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴, espécie 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴 𝘱𝘦𝘳𝘴𝘪𝘤𝘢. O anfiteatro cheio, 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴 𝘥𝘶𝘭𝘤𝘪𝘴, amendoeira, os alunos da frente a tirarem apontamentos, o professor baixo, de bigode, chamávamos-lhe “o mexicano”, 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴 𝘤𝘦𝘳𝘢𝘴𝘶𝘴, ginjeira, eu cá atrás, muito mais longe do que o cá atrás, 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴 𝘢𝘷𝘪𝘶𝘮, cerejeira, o dia lá fora (talvez chovesse?), 𝘗𝘳𝘶𝘯𝘶𝘴 𝘢𝘳𝘮𝘦𝘯𝘪𝘢𝘤𝘢, damasqueiro, e o tédio, um tédio tão grande, a rasar o sofrimento (sim, chovia certamente, o tédio molha-nos até aos ossos). As flores geralmente possuem cinco sépalas e cinco pétalas, os frutos podem ser simples ou compostos.

Entretanto abriu. Já não chove.

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Café cheio

por Cristina Nobre Soares, em 03.03.19

Reparo que a aberta da lagoa está mais ampla, nos vultos dos pescadores ao fundo, na família com as crianças mascaradas, no outro lado da rua, no casal de velhos, sentados de mãos dada no murete, no homem de blusão de cabedal, a ler ao meu lado e com o capacete pousado numa das cadeiras. Uma das crianças mascaradas (vestida de Elsa do Frozen) afasta-se, corre pelo passeio, tentando levantar as serpentinas no ar, não te afastes, grita-lhe a mãe, os velhos sentados no murete riem-se ao ver a miúda correr, o homem ao meu lado também ouve e levanta os olhos do livro e sorri (tenho a certeza que sorriu apesar de não lhe conseguir ver o rosto), os pescadores ao fundo certamente nunca darão por ela, anda cá, não te afastes, a mãe a gritar-lhe com a mão em pala por cima dos olhos e em vez do um café cheio que pedi o empregado traz-me a chávena quase vazia. Penso em mandá-lo para trás, pedir que encha mais a chávena, como tantas vezes faço, mas hoje não, estou distraída a ver a miúda mascarada de Elsa do Frozen, mas, talvez se chamasse à atenção do empregado, um rapaz novo, muito magro, ainda cheio de borbulhas púberes, ele também reparasse nas serpentinas da miúda mascarada de Elsa do Frozen, que finalmente esvoaçam ao vento, talvez agora os pescadores lá o fundo reparassem nas serpentinas no ar, os velhos do muro ainda se rissem mais e o homem ao meu lado pousasse o livro. Mas não digo nada, deixo estar o café mesmo assim, a miúda volta para perto da mãe, os velhos alheam-se de novo, o homem ao meu lado volta à leitura e tudo se esquece.

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