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Era quase assim

por Cristina Nobre Soares, em 26.02.19

Quando era miúda ouvia os adultos falarem do pôr-do-sol de Moçambique. Que era formidável, mágico, com um céu vermelho como não havia cá. E eu, quando nos dias maiores e mais quentes via o céu avermelhar-se, corria para a varanda e perguntava: era assim na minha terra? Não, diziam eles, era muito diferente. Mas eu perguntava sempre, esperançosa que um dia o sol se pusesse de maneira igual à de lá. Mas não. Nunca aconteceu. Eu era a única que lá nascera e era a única que não sabia como era o vermelho do céu de Moçambique.

Fui desistindo de ser de lá, (não se é daquilo de que não se tem memória) até ser Domingo à tarde e o meu pai, ao despedir-se, apontou para o horizonte e disse-me, olha, lá o céu era quase assim.

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Rir

por Cristina Nobre Soares, em 26.02.19

Nunca levas nada a sério. Não se pode falar a sério contigo.

São frases que já ouvi milhares de vezes na minha vida, sempre com uma pontinha daquela censura ai-que-não-há-maneira-de-ganhares-juízo. E eu respondo sempre que é por levar a vida tão a sério que me rio tanto. O riso para mim é a coisa mais séria da minha vida, até porque desconfio que já me salvou da loucura. Do desespero.

O riso é a forma mais humana de dizermos que estamos vivos, que ainda aqui estamos, a olhar de frente para tudo o que nos assusta, paralisa, inquieta, para tudo aquilo para o qual nunca teremos resposta. Rir é um acto de resistência, de subversão perante a dor. Como no filme “La vita è bella”, no qual um pai, para proteger o filho, transforma a desgraça da ida para um campo de concentração num jogo, cujo o prémio final é um “carro armatto” e onde o riso é a única coisa que faz sentido no meio de tanta crueldade.

Por isso, caras pessoas sisudas, rir de coisas sérias não é falta de respeito nem de consciência. É apenas olhar para o fundo da rua e respirar de alívio pela certeza que a qualquer momento, ali na minúscula curva que é a nossa existência, “arriva il carro armatto”.

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Brincadeiras

por Cristina Nobre Soares, em 18.02.19

Uma vez, deram-me um serviço de chá de brincar. As chávenas eram amarelas-torradas e os pires eram vermelhos. Agora já podes tomar chá com as tuas bonecas, disseram-me. Acho que nunca o fiz. Chá com bonecas pareceu-me ser uma brincadeira muito aborrecida. Em vez disso montei uma pastelaria: voltei as chávenas ao contrário, a fazerem de bolos e os pires a fazerem de bolachas de morango. As chávenas nem eram bolos, eram “buns" como os que a padeira dá à Sarah na “Princesinha”. Eu não sabia como seria um “bun”, só que era um bolo que comiam em Inglaterra, mas, também não interessava, porque na minha pastelaria, onde dois bancos de cozinha faziam de balcão, eram amarelos-torrados. Depois embrulhava-os em folhas de revistas velhas e dizia aos meus clientes imaginários: não os aperte muito, que ainda estão quentes e depois perdem a graça, que era o que o senhor Luís dizia quando lhe comprávamos arrufadas. Gostava tanto, tanto, desta brincadeira!
(Lembrei-me disto hoje, a propósito de uma discussão acesa sobre brinquedos para meninas e brinquedos para meninos. Deixem os miúdos em paz, eles lá sabem da vida deles.)

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Surdina

por Cristina Nobre Soares, em 14.02.19

Hoje de manhã, no café, havia um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pela mulher, de cabelo ralo, que lamentou não lhe ter saído nada na raspadinha. O silêncio era tal que me chamou a atenção o som do vento na cortina de fitas. E a sombra riscada que fazia no chão. Algumas das cozinhas da minha infância tinham cortinas de fitas e degraus de pedra que cheiravam a sabão. Lá dentro havia penumbra, para que o sol da tarde não aquecesse a casa. Cá fora havia um tanque, que às vezes era só um alguidar, onde brincávamos com a água. E a minha prima cantava em surdina sempre a mesma canção sem palavras.

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A lida da casa não é igual todos os dias

por Cristina Nobre Soares, em 13.02.19

A mãe do meu vizinho chega a meio da manhã. Vem a pé, traz um casaco azul, que parece um roupão (pergunto-me se não será mesmo um roupão), por cima de uma roupa de trazer. Vem fazer-lhes a lida da casa, estende-lhes a roupa, põe as toalhas de banho e os cobertores a apanhar sol, abre as janelas para arejar. Isto é o que vejo. Lá dentro, imagino que talvez lhes deixe o jantar feito, uma carne estufada, guardada dentro de um pirex com malmequeres, ao lado da panela da sopa da menina. A roupa passada e dobrada em cima da cama, os brinquedos apanhados do chão, os vincos da coberta esticados com a palma da mão. Depois sai, tranca a porta, ajeita com o pé o tapete da entrada, rega os vasos de sardinheiras com a garrafa de água que traz na mão, na outra o saco do lixo para deitar no contentor e sobe a rua, de casaco azul, que parece um roupão (desconfio que seja mesmo um roupão), por cima da roupa de trazer. Às vezes cruza-se com o carteiro. O que significa que a mãe do meu vizinho, que chega sempre à mesma hora, não tem hora certa para se ir embora. A lida da casa não é igual todos os dias e com crianças, ainda pior.

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Plátanos

por Cristina Nobre Soares, em 10.02.19

Entrei na igreja velha. Foi a primeira vez que o fiz, apesar de passar por ela todos os dias, a caminho do café. Só a abrem de vez em quando desde que construíram a igreja nova, um edifício de linhas modernas muito feias, ao cimo da vila. Sou uma reaccionária no que diz respeito a igrejas, nunca achei piada a igrejas modernas. Parecem-me tribunais ou repartições com um sino. Gosto de igrejas velhas, cheias de talha dourada e azulejos a ilustrarem o sacrifício de mártires. Mas, geralmente, fico só para ver as pessoas. Mulheres, a maior parte das quais, velhas. Algumas sentadas, outras ajoelhadas. Mas todas com ar de esperarem alguma coisa. A fé é uma forma de espera, talvez. Esta, por estar vazia (só a voz de uma catequista, que não percebi de onde vinha) não me ofereceu interesse nenhum. Continuei o meu caminho até ao café, a pensar na confusão eterna que as pessoas fazem com os plátanos, bordos e liquidâmbares. É normal. No tempo em que as árvores me pareciam todas iguais, também chamava plátanos a tudo, inclusive à que surge na bandeira do Canadá, que não é uma folha de plátano, mas sim de bordo.

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Aviões

por Cristina Nobre Soares, em 08.02.19

Vinha às terças e quintas-feiras, das seis às sete da tarde. Chamava-se Luís, curvava-se de magreza num corpo desajeitado pelos dezasseis anos. Ele tem muitas dificuldades no inglês, mas é um sobredotado a história, dizia a mãe. É um prodígio a decorar datas, diz lá algumas à Cristina para ela ver, vá anda, é um prodígio, decora tudo o que é datas, ele agora está assim encolhido, mas devia ver, decora tudo, vá, diz lá algumas, que idade tão parva esta valha-me Deus. Para as línguas é que é uma dificuldade, anda, desencolhe-te que assim a Cristina ainda pensa que és parvinho. Ele baixava a cara cheia de acne e agarrava um dos braços. Tinha uns olhos muito escuros e mortiços e meia dúzia de pelos em cima dos lábios. Sentava-se ao meu lado, com um cheiro excessivo a água de colónia ou perfume, que me fazia uma tremenda dor de cabeça e só falava para responder às minhas perguntas, sem nunca me olhar de frente. Falámos uma única vez. O que é gostas de fazer? Perguntei-lhe. Aviões, respondeu-me. Gosto de aviões. Gostavas de pilotar aviões? Não, respondeu-me. Gosto de os ver. Faço colecção. As explicações são um esforço grandote nas nossas contas, mas tem que ser, para ver se ele levanta estas notas, que ele quer ir para direito, não é Luís? Anda, responde, não sejas atado, que a Cristina ainda pensa que és tonto.
(Acabou o ano com 14 a inglês e trouxe-me um avião pequenino, daqueles de brincar, no último dia da explicação. Dura mais do que flores ou aquelas coisas que é costume dar, disse-me. Esteve muito tempo pousado na minha escrivaninha. Perdi-lhe o rasto quando me vim embora de Lisboa.)

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Para quem é que falamos?

por Cristina Nobre Soares, em 08.02.19

Ontem, depois de uma conversa tardia (e muito interessante) sobre esta coisa da comunicação de ciência, fiquei a pensar que talvez um dos problemas seja o facto de não falarmos tanto para que os outros nos percebam mas mais pela satisfação de nos ouvirmos. Talvez a pergunta honesta que tenhamos de fazer, antes de dizer ou escrever algo, seja: 
Estou a dizer isto para transmitir uma ideia ou para mostrar que sei muito sobre essa ideia, que sou um especialista?

Não é fácil, é verdade. Exige algum despojamento (e a consciência de que não somos donos do conhecimento. Imaginem que alguém se achava dono do alfabeto. Era capaz de ser um problema.).

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Opressão

por Cristina Nobre Soares, em 05.02.19

Em sociologia rural falávamos sobre os crimes de água ou de terra. Alguém, insuspeito, sem nada a assinalar no comportamento até então, um dia enfiava uma enxada pela cabeça abaixo de outro, por causa de uma linha de água ou de uma extrema. Depois, entregava-se à guarda. Na terra nunca seria considerado um assassino, mas sim alguém que se “desgraçara”. Como se houvesse uma normalização da morte e da violência, desculpada por um qualquer sentimento de posse (onde a posse se confunde facilmente com honra). Só defendeu o que era dele, diriam na terra. Até porque uma terra sem dono não é nada, não vale nada, não existe. É essa posse que lhe dá sentido. Um homem é dono da sua terra e da sua água, mas também da sua mulher. A mulher é apenas mais uma posse, um nome num papel do notário ou da igreja. Nada mais. Uma mulher sem dono, tal como um pedaço de terra, uma casa, um animal, não é nada. Pode morrer às mãos do seu dono, o qual todos mais tarde comentarão que era boa pessoa, que se toldou num mau momento, que deu cabo da vida dele. Sobre ela dirão que foi o destino. Que é o outro nome que se dá à opressão.

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