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Essa é que é essa

por Cristina Nobre Soares, em 13.01.19

Olhe, já acabei de ler, quer a revista? Diz-me a velhota, sentada na mesa ao lado. Respondo que não, obrigada. Tem a Cristina Ferreira, diz-me. Não, deixe estar, obrigada. Grande mulher, comenta, aquilo ninguém a agarra. O que diz que ela era e o que ela se fez. Não é qualquer uma. Dizem que guincha muito, é capaz, mas também quem vem de baixo tem de se esganiçar para se fazer ouvir, que se a gente não se esganiça não há quem nos oiça, que quem está bem-posto tem a mania que ouve mal. Pisca-me o olho e bate-me ao de leve no braço com a revista enrolada, está a perceber? Eu também faço que não oiço quando não me convém. Suspira e levanta-se. Antes de sair diz-me, olhe, saúde é que é importante, que sem saúde não se faz nada. E eu, graças a Deus, com esta idade ainda faço muita coisa, que não há nada mais triste que a gente ficar à sopa dos outros. Não se ria e creia nisto que lhe digo. Não há nada pior que ficar à sopa dos outros. E essa (aponta para a revista) já tem a vida dela e a dos seus toda feita. Essa é que é essa.

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odos gostamos de amadurecer, mas poucos (ou nenhuns) gostamos de envelhecer. 
Amadurecer é ser mais sábio, sermos mais nós, é alcançar um nirvana que pode resumir-se apenas à nobre arte de deixarmo-nos de merdas. É bom ter mais juízo, mais paz, mais lucidez, saber definir melhor as prioridades e dar valor ao que vale a pena, desde à companhia de quem interessa ao bom vinho. É boa a sensação de se ter vivido, com mais ou menos mundo. É preciso ser-se muito burro para não gostar de amadurecer.
Já o envelhecer lixa tudo. Sim, lixa, pois por mais que digamos que não nos importamos, que somos superiores e tal, no fim é a nossa melhor foto que publicamos, é mais um retoque no Photshop, um cabelo pintado, mais umas horas de ginásio, outras tantas de corrida, uma barba grisalha que se faz todos os dias para que não se notem os pêlos brancos, um não comer isto e aquilo para estarmos no nosso melhor, um creme que promete fazer-nos voltar atrás no tempo, um corte de cabelo “mais jovem”. Tudo para termos um ar menos “pesado”, sem sabermos o que afinal nos pesa no corpo. É verdade que os anos nos dão uma versão mais depurada de nós mas num corpo diferente. Num corpo que nos lembra, permanentemente, que isto um dia acaba. Num corpo que é primeira coisa que os outros vêem, tão diferente da imagem que o nosso espelho interno nos retorna. No fundo, quem envelhece só pede uma coisa: vê-me como eu ainda me vejo. Tudo se resume a isto.

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O silêncio da aldeia

por Cristina Nobre Soares, em 06.01.19

Depois de almoço, enquanto caminhamos, comento que não há silêncio como o da aldeia. Nele tudo se ouve por sermos perto de tudo. Aqui somos mais limpos de ruído, somos o dobrar do sino, o ladrar dos cães por detrás dos muros, a mãe que chama o filho, ó Rafael, o carro na curva do caminho, a velha que fala sozinha ao bater à porta de alguém, devem ter ido a algum sítio, de novo o ladrar dos cães, ó Rafael, um estore que se fecha e a nitidez dos nossos passos no caminho, tão clara como se fôssemos sempre manhã.

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Tipo fino

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.19

Tive uma tia que achava que a maior sorte com que uma pessoa podia nascer era ter um “tipo fino”. As pessoas de “tipo fino” eram, no seu entendimento, altas, esguias, alouradas e de pele branca. Caminhavam com graciosidade, não falavam alto e usavam o guardanapo sobre o colo e palavras caras. Eram, portanto, parecidas com as pessoas ricas, mas das ricas de berço, não desse dinheiro novo, que sabe-se lá de onde vem, pois hoje em dia até vender garrafões de vinho dá dinheiro para comprar vivendas ao lado das casas onde as mães foram criadas de servir. As pessoas de “tipo fino” eram, por nascimento, melhores que as de tipo “grosseiro”, cujos pescoços atarracados, pele queimada do sol, banhas a enchumaçarem-lhes roupas que cheiravam a fritos as impediam de ascender socialmente. As pessoas de “tipo fino”, especialmente se fossem mulheres, podiam ambicionar fazer um bom casamento, permitindo-lhes subir um ou dois degraus na progressão social. Ser dono de um “tipo fino” era uma sorte concedida por Deus Nosso Senhor, dono da ordem do mundo.

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