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O Facebook tem dias que cansa

por Cristina Nobre Soares, em 31.01.19

O Facebook tem dias que cansa. Como cansa o mesmo café de sempre, as mesmas conversas de sempre, o mesmo lugar à janela, a mesma bica em chávena escaldada, a mesma rua, os mesmos 43 minutos de caminho até ao trabalho, mais os outros tanto de regresso, talvez um bocadinho mais por causa da rua que está sempre em obras, a mesma vizinha à janela, o mesmo telefonema a saber como estamos, a mesma hora de acordar, a mesma deitar, o leite morno ou mesma intolerância à lactose, as mesmas ideias brilhantes, os mesmos incómodos, a mesma anedota, a mesma história de infância, as mesmas piadas politicas, as mesmas crises, a mesma queixa, a série de sempre, o filme de culto, a mesma música, a mesma camisola com borboto, o mesmo bife mal passado, a mesma salada sem vinagre, só com as mesmas 2 ou 3 gotas de limão. É isso, deve ser o Facebook que cansa.

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Sorte

por Cristina Nobre Soares, em 29.01.19

Hoje está um dia de chuva e de vento cheio de folhas dos carvalhos híbridos que moram no terreno da frente. Em dias assim, na primária, a professora mandava-nos para a rua na mesma, a chuva não morde, dizia ela. Ficávamos abrigados debaixo do telheiro, que era demasiado estreito para as brincadeiras. O pátio ficava vazio, só a mãe do Nuno Luís aparecia do outro lado do portão, como aparecia todos os dias, para lhe trazer o lanche, com pão acabado de comprar na padaria. Era um mimado, mas nós perdoávamos-lhe porque ele tinha ficado sem pai, que morrera num acidente para os lados de Aveiras. Morte instantânea, comentavam as mães, mas deixou um belo seguro de vida à mulher e ao filho, apesar da desgraça, ficaram bem. Às vezes, em voz mais baixa, também diziam que a mãe do Nuno Luís tinha tido era sorte, porque o marido lhe batia e não a deixava sair de casa. Pessoas daquele nível, ele licenciado, ela vê-se que teve berço e, vai-se a ver, a miséria era pior que a da gente desgraçada. Foi o melhor que lhe podia ter acontecido, agora até remoçou, pode refazer a vida dela. Havia uma crueldade enorme nesta sorte, que mais do que uma sorte era um alívio. Vá, corre, não te molhes, gritava a mãe do Nuno Luís, quando ele voltava do portão com o lanche. Não te molhes, nem caias, meu anjo. Ele corria e, ao chegar ao telheiro, destapava a cabeça para lhe mostrar que não se tinha molhado. Talvez a sorte seja isso: uma sensação de alívio perante a vida.

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Segunda

por Cristina Nobre Soares, em 28.01.19

Dois cafés depois de acordar, ainda mais cedo que é costume, para fazer a última revisão de um trabalho que fiquei de enviar hoje. Ele sai com a miúda, digo até logo (será que disse?), relembro o que combinámos à tarde, envio o trabalho, a miúda do lado faz uma birra, reparo que vai estar de chuva outra vez, não há pássaros, é Segunda-feira e custa-me o cedo da manhã.

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Sobre os objectos e a tralha.

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.19

 Os objectos também têm virtudes. A capacidade de despoletar uma memória, por exemplo. Quem nos deu, quando comprámos, porque é que gostámos dele. Seja um pote mal-amanhado, uma fotografia onde estamos com cara de parvos, um livro que nos marcou e ao qual retornamos ciclicamente, um vestido do qual, apesar de já não nos servir, não nos conseguimos desfazer, porque a noite em que o usamos foi uma noite para sempre. Os objectos são uma espécie de expansão de memória, mesmo que só nos lembremos de tempos a tempos e de maneira tão diferente quão diferentes ficámos entretanto. Os objectos, desde que não sejam tralha (e muito menos lastro), também são a nossa história. E cada qual tem de encontrar o seu método de arrumação. A força da nossa história, que é única, talvez seja proporcional (por vezes inversamente) à massa que trazemos. Só a gravidade é constante para todos.

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Nevoeiro

por Cristina Nobre Soares, em 26.01.19

Quem diria que com o sol que amanheceu o dia se ia pôr assim? É verdade, comento, e troco algumas palavras com a mulher que me atende ao balcão do café, sobre a súbita neblina que se formou durante a manhã e o quanto custa conduzir com nevoeiro. Ai, é uma aflição, diz-me ela, e conta-me um regresso de Lisboa debaixo de névoa cerrada e em lágrimas. Reparo que ela tem o rosto manchado com “pano”. Talvez tenha sido de alguma gravidez. Também tive algumas manchas dessas quando estava grávida, isso é por ser uma menina, disse-me uma vez uma senhora que me fazia arranjos de costura, isso é por ser uma rapariga, que as raparigas roubam a beleza das mães. Prepare-se, que elas levam-nos tudo, avisou-me. Cedo as mulheres se tornam espécies em perpétua competição e cárceres umas das outras. A mulher do balcão fala agora com um homem que tem a boca retorcida e dificuldade no falar, continua a lamentar o nevoeiro, apesar deste já ter levantado. E eu penso que está um dia bom para caminhar sozinha.

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Passagem

por Cristina Nobre Soares, em 24.01.19

A adolescência dos nossos filhos é uma passagem. Eles passam de crianças a adultos. E nós, pais, de heróis a simples mortais. Às vezes, tenho dúvidas sobre quem crescerá mais.

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Superstições

por Cristina Nobre Soares, em 21.01.19

Da janela do autocarro, reparo no vulto de duas araucárias. É uma árvore magnífica, embora a simetria dos ramos a torne quase irreal, uma árvore de brincar. Onde vivo é comum encontrá-la nos quintais das casas, muitas vezes com o topo da copa decepado. Explicaram-me que isto se deve a uma superstição: se a araucária passar o telhado, o dono da casa morre. Então, para enganar a morte, cortam-na. A avó da Patrícia tinha muitas superstições destas: benzia-se quando entornava sal, que sal entornado traz má sorte, dizia que se andássemos para trás, de costas, chamávamos o canhoto, corria a bater na madeira, três vezes, se acaso alguém falasse em morte, não fosse a danada pensar que a estávamos a chamar. O mundo da avó da Patrícia era um mundo cheio de coisas más, que se podia controlar com uma obediência que tinha poderes mágicos. Seguíssemos os preceitos e nada nos aconteceria. As pessoas cultas dirão que isto era ignorância. Realmente a avó da Patrícia não saberia que as araucárias são gimnospérmicas, coníferas muito, muito antigas, mas decerto que temeria pelo dia em que a copa ultrapassasse o telhado e conheceria, de ouvir dizer, que seria o suficiente para a tomar por certa, a história de alguém, que por desleixo ou falta de temor, morrera de uma morte tenebrosa, cheia de estertores e olhos esbugalhados de medo, e terminaria dizendo, servindo-nos o leite nos copos de vidro com flores cor de laranja, a gente até pode não acreditar nestas coisas, mas temos de lhes ter respeito. A mulher, ao meu lado, arranca-me da cozinha da avó da Patrícia, com um ataque de tosse. Lá fora, já é noite e a lua, como todas as luas cheias, mete respeito.

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Marquises

por Cristina Nobre Soares, em 20.01.19

A dada altura, na minha rua, começaram a aparecer as marquises. As varandas deram lugar a uns caixotes de alumínio e vidro, umas com estores, outras com cortinas. O meu pai começou a dizer que também queria fazer o mesmo com a varanda da frente. A minha mãe torceu o nariz, disse que era parolo. O meu pai encolheu os ombros, lá estás tu, precisamos de espaço para guardar a tralha, nunca usamos a varanda e assim ficamos com mais uma divisão para os arrumos, olha para os livros, por exemplo. A minha mãe continuou a torcer o nariz, que os livros ali ficavam comidos do sol, mas o meu pai acabou por levar a ideia avante. Mandou pôr uns estores laminados (e assim os livros não debotavam, dizia ele) e uma estante até ao tecto, vê lá se varanda ainda cai com o peso dos livros, avisou a minha mãe, cujas premonições rasavam um bocadinho o absurdo, sem grandes ligações às leis da física, só este homem para se lembrar de fazer uma biblioteca na marquise. Só este homem.
Fui em quem arrumou os livros por ordem alfabética de autor. Mais tarde, organizei-os por temas, onde os livros de política do meu pai ganharam uma prateleira só deles e os da colecção Dois Mundos ficaram todos juntos. Passei muitas horas na marquise, às vezes, só à janela que dava para a António Sérgio (embora me ficasse bem dizer aqui que passava o tempo todo a ler, mas sempre fui dada a muita futilidade sem interesse nenhum, que há futilidades com interesse e que dão jeito, como saber quem é quem e de onde vem) , a pensar como seriam por dentro as outras marquises da minha rua, ou apenas em coisas disparatadas, como a probabilidade da varanda cair realmente com o peso dos livros.

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Elizabete

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.19

Enquanto esperava pela minha filha, no carro, passou o “It must have been love” dos Roxette, na M80. Lembrei-me da Elizabete que foi ao cinema ver o filme, dizia ela, quatro vezes. O que queres? Sou uma romântica, afirmava, de olhos semicerrados, enquanto travava o fumo. A Elizabete já tinha ido para a cama com muitos rapazes, tinha experiência, explicava-nos uma série de coisas que nós nem sonhávamos que se faziam. Comprava preservativos a horas mortas na farmácia, quando sabia estar lá apenas a estagiária. Sou uma romântica, e por causa da Julia Roberts dizia que tinha deixado de dar beijos na boca, só vou dar beijos na boca quando me apaixonar, quando encontrar o verdadeiro amor. Sexo é uma coisa, beijos na boca é outra. Contou-me a Ana Sofia que a Elizabete se casou com um tipo que era mediador de seguros e que foram viver para Portimão. Não durou muito, acabou por fugir com um alemão que fazia retratos a turistas e que têm agora um turismo de natureza perto de Odeceixe. Esta última parte é mentira, não sei se a Elizabete ainda está casada com o mediador de seguros, é capaz. Mas achei que uma romântica daquele calibre merecia um fim de história melhor.

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Roma

por Cristina Nobre Soares, em 15.01.19

Na estação do metro, oiço alguém correr atrás de mim. Batem-me no ombro com força, sobressalto-me e olho para trás. É um rapaz com um cachecol vermelho. Olha-me com uma grande desilusão, ainda maior que o seu embaraço. Desculpe… confundi-a com outra pessoa. Digo que não tem importância, que acontece a todos (e nos filmes). O metro chega. O rapaz do cachecol vermelho entra duas ou três portas depois da minha, mas antes volta a olhar para mim, talvez para se certificar que se enganou mesmo. Sento-me ao lado de uma mulher cinzenta, de casaco e cabelo cinzentos e consolo-me com a lembrança do cachecol vermelho do rapaz. Com quem é que me teria confundido? São apenas duas paragens até ao Campo Grande. Mais do que suficiente para imaginar uma série de coisas absurdas.

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