Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


12 vezes liberdade

por Cristina Nobre Soares, em 30.12.18

Lembro-me de um ano em que pedi o mesmo desejo 12 vezes, seria pouco mais velha do que a minha filha. Pedi 12 vezes liberdade. Liberdade como a que os rapazes tinham, que, por serem rapazes, podiam mais do que eu, que os rapazes não aparecem em casa com filhos na barriga, liberdade como a que os ricos e os de bom berço tinham, que esses podiam tudo, os remediados, como nós, só podiam ter sonhos na medida do seu remedeio. Liberdade para correr o mundo, conhecer todos os sítios que só conhecia dos livros e da televisão. Liberdade para ter a chave de casa da minha vida. Para fazer o que me desse na veneta, incluindo as coisas que eu achava transgressoras, como sair à noite até de madrugada, pintar os lábios de vermelho e ser anarquista (que usavam boina basca e não aceitavam ordens de governo nenhum). Engoli as 12 passas com grande sacrifício e agonia, como exigia a importância de um desejo desses. Quando me perguntaram o que tinha pedido, aos primeiros minutos do novo ano, acobardei-me e menti, dando a resposta que esperavam de mim, uma menina bem comportada: saúde, amor e dinheiro, principalmente saúde, que é o mais importante. Demorei muitos anos a perceber que eu era o meu maior cativeiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Listas

por Cristina Nobre Soares, em 28.12.18

E chegámos àquela altura do ano em que se fazem listas de tudo. As listas dos melhores livros, dos que se leram, dos que ficaram por ler, dos melhores momentos, das melhores fotografias e, acima de tudo, listas das boas intenções para o novo ano, é desta que vamos todos para o ginásio, correr todos os dias, comer menos fritos, menos carne e mais comida da mãe, fazer um filho, gritar menos com os miúdos, dar atenção à família, aos avós, às tias velhas e à madrinha, mas tempo de qualidade, combinar os jantares e os cafés com os amigos, ser omnipresente, ser mais paciente, mandar quem merece à merda, fazer render os dias, dormir mais, dormir menos para escrever um livro, ou dois, abrir um blogue, passar menos tempo no Facebook, que isto já satura, aprender a tirar boas fotos para o Instagram, ou apenas aprender a mexer nos filtros, fazer uma viagem, ou duas, que agora fica mais em conta, ter aulas de ioga, aprender a meditar e o tal do mind fullness, mudar de vida, trabalhar mais, trabalhar menos que a vida não é só trabalho, escrever cartas, arrumar a garagem, acumular menos tralha, ser minimalista, perder peso, ganhar peso, não deixar nada por dizer, aprender a dizer que não, saltar de paraquedas, escalar uma montanha (ou duas), fazer mergulho, tirar um curso de culinária, outro de filosofia, aprender uma língua morta e mais umas duas vivas, pintar o cabelo de uma cor estranha, assumir os brancos, ir a Fátima a pé, ou a Santiago de carro, não dizer mal dos outros, talvez só um poucochinho, que isto há gente muito cabra, ver menos televisão e ler mais, que é para lista dos livros que a gente leu ser ainda maior para o ano que vem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dia 26

por Cristina Nobre Soares, em 26.12.18

O dia 26 sempre me pareceu um dia estranho, talvez mais lento que os outros, talvez estranhamente vazio, talvez mais pardo, mesmo quando eu ainda não sabia que cor tinham as coisas pardacentas. Arrumavam-se os móveis, as coisas voltavam ao sítio de sempre, juntavam-se, num mesmo prato, as frutas cristalizadas e as broas que tinham sobrado, a calda dos sonhos também vai fora, já não está capaz, tanta comida deitada fora é um crime com a fome que há neste mundo, mas todos os anos se repetia o desperdício, guardavam-se as roupas estreadas no dia de Natal, os brinquedos novos ao lado dos velhos, a novidade gasta-se tão depressa. Faziam-se comentários, uns bons, outros nem por isso, que as zangas fazem parte de se ser família, são coisas nossas, pronto. Era um dia de alguma tristeza, daquela tristeza de fim de festa que também traz um certo alívio de regresso à normalidade, de fim de euforia. Agora, ainda falta o Ano Novo, dizia-se, quase como consolo, e eu, sentada naquela cadeira que havia ao canto da janela da casa de jantar, escrevia o número do novo ano na humidade da janela, sem compreender a pressa do tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todos os regressos

por Cristina Nobre Soares, em 25.12.18

As ruas estão desertas, uma mulher de preto passa com dois sacos, daqueles que se usam agora para embrulhar as prendas, lembro-me dos empregados das lojas da Rua da Prata, impecáveis, com alfinete na gravata, a fazerem os embrulhos das caixas das camisas e dos lenços, as dobras do papel reforçadas com o lado da mão, às vezes um anel no dedo mindinho, o som agudo da fita a passar pela lâmina da tesoura, uma hélice infinita de cor a condizer com o padrão do papel, quer uma etiqueta com o nome, minha senhora?, a minha mãe a pedir uma caneta. A mulher entra num dos portões, deve ter ido buscar as prendas. Ou então vai levá-las a alguém, digo. Passa “Your song” do Elton John no rádio do carro, esta entrava no Moulin Rouge, não entrava? Um bando (de estorninhos?) rente ao pára-brisas, recordamos Natais passados, há sempre um episódio que ainda não foi contado, especialmente os que ficam mal na fotografia, eu, com a cara quase encostada ao vidro, digo que está uma tarde bonita, comentamos qualquer coisa sobre Natais chuvosos e depois o silêncio, que é sempre igual em todos os regressos.
“I sat on the roof and kicked off the moss
Well, a few of the verses, well, they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Invisiblidade

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.18

Um homem entra comigo na estação do Campo Grande. Olha-me fixamente. Senta-se do outro lado e continua a olhar. Finjo que não o vejo e, acima de tudo, finjo que não percebo. Como todas as mulheres, desde muito cedo que me habituei aos olhares incómodos dos homens. Quando passava pelo quartel, por algum prédio em obras, nos autocarros. Eu, que sempre me julguei invisível, que tantas vezes me quis invisível, desprezava-os por me darem um corpo. O envelhecer trouxe-me alguma tranquilidade, não que eu alguma vez tivesse sido uma mulher muito bonita, daquelas que dizem fazer voltar as caras dos homens. Às vezes, as tias e outros parentes diziam, talvez por cortesia ou por não ter mais nada para dizer, ah que bonita que tu estás! Eu agradecia, com um sorriso trôpego e ficava feliz por saber que isso fazia a minha mãe feliz. E passei a acreditar que ser bonita era uma coisa boa, uma boa sorte que fazia com que os outros gostassem mais de mim. Ser bonita fazia os outros felizes, (talvez seja por isto que não amem os feios), e em troca dessa felicidade que dava aos outros esperava que me deixassem em paz na minha invisibilidade. O homem saiu na estação da Alameda. Sinto algum alívio e reparo num casal, muito novinho, encostado a um dos assentos. Beijam-se enquanto segredam qualquer coisa ao ouvido e soltam risinhos parvos. Reparo o quanto a rapariga é bonita e pergunto-me se terá consciência disso. Tem uns dentes certos e brancos e uns olhos muito bem delineados com eye-liner. Invejo-lhe o rabo espetado e as mamas empinadas, o envelhecer é realmente uma bela merda, eles dão por mim, olham-me incomodados e eu, desejando desesperadamente ser invisível, sinto-me o homem que saiu na estação da Alameda.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hoje é como se eu fizesse anos

por Cristina Nobre Soares, em 12.12.18

“Tens 2 vidas. A segunda vida começa quando percebes que afinal só tens uma.” Uma amiga disse-me isto há 5 anos. E nesse dia começou a minha segunda vida, uma travessia onde descobri que do outro lado da ponte estava eu. Hoje, é como se eu fizesse anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Plágio

por Cristina Nobre Soares, em 04.12.18

Se é certo que há uma grande falta de respeito pelo trabalho dos autores, com sucessivos “esquecimentos” sobre a autoria, também me parece que o conceito de plágio se tornou um bocadinho alargado demais. Faz-me sempre lembrar quando, muito antes de haver autoestrada para o Algarve, o meu pai insistia em sair de madrugada no primeiro dia de férias, para não apanhar trânsito na ponte 25 de Abril, ficando sempre muito indignado por, àquela hora, já haver tanto movimento. E a minha mãe dizia-lhe: Já devias saber que há muita gente a ter a mesma ideia. 
Não somos assim tão originais quanto pensamos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

4 anos em Linha Recta

por Cristina Nobre Soares, em 03.12.18

4 anos em Linha Recta. 4 anos a enrolar publicamente os pés nos tapetes das etiquetas.

(Obrigada por continuarem a visitar esta casa.)

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html