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Dois mil quinhentos e cinquenta e cinco dias

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.18

Hoje recuperei um disco de computador que há muito dava como perdido. Nele reencontrei fotografias da minha filha, minhas, de amigos que foram, vieram ou que nunca mais vi. Aulas que preparei, matrizes de testes (eu era realmente uma mãos largas a dar notas), manuais, sebentas, esboços de um doutoramento que acabou por não ser, esboços de livros, contos, uns acabados, outros a meio, mas a maior parte boa para deitar fora. Mais fotos, centenas e centenas de fotos do meu blogue "Come chocolates" e aquelas minhas e da Sara, no meio de 20 adolescentes e de uma equipa fabulosa. Até que houve um dia em que fechei aquele computador e não pensei mais nisso. Fechei a porta a talvez sete anos da minha vida, dois mil quinhentos e cinquenta e cinco dias comprimidos naquele disco. Um dia, fechei o computador e não pensei mais neles. Hoje voltei lá. Ainda estou dorida. Mas é sempre bonito.

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Ideias minhas

por Cristina Nobre Soares, em 27.11.18

Já cheira a lareira, diz-me. Tentamos adivinhar que madeira será, talvez eucalipto, a esta hora é capaz de ser, que ainda é só para pegar o lume, o carvalho e a oliveira são para arder a noite dentro, já quase sem chama, só braseira. Reparo que a porta da igreja está entreaberta, vê-se luz lá dentro e conto que ao fim da tarde, quando passei de carro, vi um homem sentado nas escadas, muito encolhido, como se não quisesse que o vissem. Talvez tivesse só à espera que abrissem a porta para missa e estivesse encolhido do frio, comenta, meio a rir-se, que é como as pessoas se riem a das ideias tontas: com o riso pela metade. Mas olha que agora o cheiro parece-me ser de pinho, diz-me. É capaz, respondo, sem ter grande vontade de dar seguimento à conversa das lareiras, pois não convencem de que alguém se encolha assim de frio. Mas isso são ideias minhas que ninguém entende.

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"Acima de tudo que nos calhe um homem que nunca nos levante a mão e que saiba sempre o caminho de casa". Eu era uma criança quando ouvi isto, dito entre duas mulheres dos seu cinquenta. Nesse dia aprendi que ser mulher podia ser apenas uma sentença a que muitos chamavam destino. E que acreditar nisso pode ser a maior violência de todas.

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Fotografar o agora

por Cristina Nobre Soares, em 23.11.18

Hoje, numa conversa com amigo, comentámos as fotografias “tipo Instagram”, que parecem ser tiradas todas pela mesma pessoa: as poses iguais, as meias caras, o rosto voltado para o horizonte, os pezinhos, tanto os cruzados a assinalar ócio, como os com um toque de peregrinação (a Santiago de Compostela, porque no Instagram não se vai a Fátima), os copos de gin, com as bagas de zimbro ou a casca de limão a boiar, as garrafas de cerveja artesanal, os óculos de massa (nem sempre preta) em cima do livro, e as viagens, as viagens. E lembrei-me das fotos dos anos 70, dos meus pais, com um rebordo branco, umas cores esbatidas e alaranjadas, as poses estudadas, todos a sorrirem de frente. Ou as que se tiravam no fotógrafo a fingir que telefonavam (quando telefonar ainda era uma coisa chique). Ou aquelas em que deitavam bebés nus, só com um fio de ouro ou pulseirinha, numa espécie de tapete felpudo. Ou as fotografias de grupo dos casamentos, dos noivos a cortarem o bolo ou levarem uma beijoca dos pais. Ou as fotografias dos avós, com o avô refastelado no sofá e a avó em pé. Enfim, há fotos que não precisam de data atrás, as roupas, as poses, os cenários, fazem esse trabalho. Uma vez ouvi que só fotografamos aquilo que temos medo de perder. E eu continuo a achar que é o tempo, o agora. Talvez por isso o Instagram tenha tanto sucesso. Sem dúvida que é um testemunho deste nosso agora.

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Prestidigitação

por Cristina Nobre Soares, em 18.11.18

Ninguém conhece tão bem o próprio corpo como uma mulher. Ela sabe com precisão (ou lucidez) todas as suas imperfeições, todas as mudanças que o tempo lhe trouxe, todos os seus trunfos. Por isso não vale a pena perguntar-lhe se se acha bonita. Ela dirá que não. Ou que nunca pensa nisso, mesmo em todas aquelas vezes em que se olha ao espelho e aponta, uma a uma, todas as suas falhas e quase-perfeições, pois sabe que o ser bonita é apenas uma breve uma distracção aos olhos dos outros. Uma prestidigitação cujo truque só ela conhece.

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A escola não dá competências para a vida

por Cristina Nobre Soares, em 15.11.18

A escola não dá competências para a vida, só dá competências para fazer exames, leio eu por aí. 
Pois, realmente, talvez não dê. A mim não deu. Só me ensinou a lidar com bons e maus colegas, com o engraçadinho, com o parvalhão, com a convencida, com a invejosa, com o filho da mãe, com o coscuvilheiro, com o bully, com o queixinhas, com aldrabão, com o gajo impecável, com a miúda espectacular, com professores injustos, com professores brilhantes, com professores incompetentes, com professores que se estavam nas tintas, com professores ausentes, com professores sádicos (especialmente os de educação física), com perfeccionistas (estilo o meu de educação visual do 9º ano, a quem lhe roguei umas boas pragas), com contínuos maldispostos, com a frustração, com o sucesso, com a preguiça, com o tédio, com o entusiasmo, com o sono às 9 da manhã, com o chiar do giz no quadro, com a mãe da Anabela que nunca sabia da filha, com o perceber que há sempre alguém melhor do que nós, que há também quem seja pior, que há quem seja beneficiado por nascimento e quem seja prejudicado, que o mérito nem sempre conta para alguma coisa, que a vida é injusta, que às vezes também é justa, que não morres se fumares um charro, que o primeiro beijo pode ser uma coisa desastrosa, especialmente se um dos intervenientes tiver aparelho, que podes morrer aos 18, que não és eterno, ensinou a fazer amigos, a perder amigos, que há coisas que aprendes que não servem para nada, mas que nem tudo tem uma utilidade na vida. E que a vida é tramada, não há competências que nos valham. Vai-se aprendendo. Tirando isto, realmente, a escola não me deu competências para nada.

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A pensar nas fake news

por Cristina Nobre Soares, em 14.11.18

Dizia-se que o velho tinha o casebre, onde vivia, cheio de dinheiro amarfanhado em sacos de plástico. Daqueles de asas, do supermercado. Que era dinheiro de rendas, das não-sei-quantas casas que tinha arrendadas a turistas, lá para os lados de Portimão. Dizia-se que comprara as casas por tuta e meia a um construtor que tinha a corda na garganta por ter gasto mais do que aquilo que ganhava. Dizia-se também que tinha filhos, mas que não lhes falava com medo que lhe pusessem a mão no dinheiro e que mandara arrancar o contador da luz para fingir que não estava ninguém em casa e, claro está, para não ter de pagar. Dizia-se muita coisa sobre o velho miserável. Mas a única certa é que o filho da Maria Adelaide, que era agente imobiliário, e lhe tentara vender um apartamento, quatro assoalhadas bem espaçosas, de uma urbanização nova na zona industrial, fora lá ao casebre uma vez, e que à conta do camadão de pulgas que apanhou, jurou para nunca mais. E dinheiro, nem vê-lo. Disse até à mãe que as tais riquezas do homem, metidas em sacos de plástico, eram mentira, tudo invenções do povo que só está bem a inventar por não ter nada de útil em que pensar. É capaz, disse-lhe a mãe, mas já sabe que o que é bom de se espalhar é aquilo que parece sempre mais longe da verdade. Até porque a verdade nunca alegrou ninguém.

(Cristina a pensar nas fake news)

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Caseiras

por Cristina Nobre Soares, em 13.11.18

Hoje, a caminho da padaria, reparo que a velhota que está sempre à janela do rés-do-chão, de um dos poucos prédios que há na vila, não estava lá. Fica-me só o silêncio, apenas quebrado pelo ladrar dos cães e um ou outro bater de tapete à janela e não me apetece escrever sobre isso. Paciência. A ver é se acelero o passo e me deixo de metafisicas, antes que acabem as caseiras grandes. Com sorte ainda as apanho quentes. Pão quentinho com manteiga: isso é que é serviço. E, no fundo, apetece-me é escrever sobre a cidade que já me faz falta de tanto tempo que lá não vou. Afinal, é para isso que a escrita também me serve.
(Já só havia papo-secos. Bolas.)

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Mussiro

por Cristina Nobre Soares, em 12.11.18

No meio das fotografias antigas, guardadas numa enorme capa de plástico azul em forma de envelope, havia um postal com duas mulheres com o rosto coberto com uma pasta seca e acinzentada. Perguntei, vezes sem conta, à minha mãe, o que tinham aquelas mulheres na cara. E vezes sem conta a minha mãe deu-me a mesma resposta, é um creme feito com uma raiz, que elas punham para ficarem com a pele lisinha. E eu ficava a olhar para aquele postal, com a mesma sofreguidão com que olhava para as fotografias de lá. Essas, decorei-as, de tantas horas que passei a olhá-las. Assim como decorei as datas escritas à mão na parte de trás, os sítios, os nomes de todos os que apareceriam mesmo dos desconhecidos e dos que já tinham morrido. As que eram do tempo de Lourenço Marques e as que eram do tempo da Beira. O que tanto procuras aí? Perguntava-me a minha mãe, sempre que me via de volta da capa azul. A mim, procurava-me a mim.

 

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Noites iguais

por Cristina Nobre Soares, em 10.11.18

A cidade, ao fim da tarde e imediatamente antes da chuva, ainda fica mais vazia do que o costume. Desvio-me de um rapaz que passa por mim. Deixa um rasto de vapor do cigarro electrónico, que se dilui na humidade espessa do cair da noite. Uma tília, já completamente dourada e atarracada por uma poda ignorante, lembra-me que já lá vão algumas semanas desde o equinócio, quando os dias são iguais às noites. Tenho este hábito irritante de enunciar factos avulsos para não ouvir outras coisas em que penso. Mas o entardecer azulado na rua de blocos de granito, o cheiro a glicínias e a Junho e um ressentimento antigo ganham uma nitidez incómoda, o equinócio é quando os dias têm o mesmo tamanho da noite, a palavra equinócio quer dizer noites iguais e, para meu alívio, começa a chover.

 
 
 
 

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