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Pão por Deus

por Cristina Nobre Soares, em 31.10.18

Houve um ano em que fui pedir Pão por Deus com as minhas primas. Não me lembro que idade teria, só da estranheza por me darem broas, que se esmigalhavam no fundo do saco, laranjas e nozes, quando eu esperava rebuçados. E também do cheiro a chuva da noite e a eucalipto, das ruas de casas baixas onde toda a gente conhecia as minhas primas pelo nome, dos caramelos rijos que se colavam aos dentes, das caras que nos apareciam por detrás das cortinas de fitas penduradas nas portas, do corrermos na rua empedrada para chegarmos antes dos outros, do ladrar dos cães por detrás dos portões. Onde eu vivia, num bairro suburbano, às vezes, havia miúdos que tocavam à campainha a pedir Pão por Deus. Mas poucos. Eu nunca ia pedir. Não te quero metida em prédios que não conheço. Aqui na cidade é diferente, a gente nunca sabe quem são as pessoas, dizia-me a minha mãe. No bairro onde cresci, há 30 e tal anos, esta tradição era um resto de qualquer coisa, como o era o pastor que por vezes trazia o rebanho para o descampado atrás dos prédios ou o velho moinho de bombagem de água, lá ao fundo, que se via da varanda da cozinha e que se tornava um vulto preto na contraluz do fim do dia. Onde vivo agora pede-se Pão por Deus. Mas também há noite das bruxas. E, às vezes, pergunto-me se o moinho ainda lá estará no mesmo sítio

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Sem saber muito bem porque é que corro.

por Cristina Nobre Soares, em 27.10.18

Deixo-me ficar para trás enquanto observo a mulher a deitar os lápis no crivo. Conta, talvez, 48 de cada vez. Depois, embala-os nas caixas previamente montadas pela mulher de óculos, que está sentada em frente. Repete estes gestos tantas vezes até eu perder a noção do tempo. Tento adivinhar-lhe a idade, onde viverá, se mora perto, se vem de comboio, mas perco-me no ruído das máquinas do andar de baixo e no oblíquo da luz prenunciando a sirene da tarde. Deixo-me ficar ali, na ilusão de ser invisível, de caderno encostado ao peito, embora não tenha escrito nada, uma linha sequer. Serve apenas para me salvar quando não sei o que fazer às mãos (tão incómodas que estas se podem tornar para quem não tem o engenho de saber sempre o que dizer). O grupo já se afastou, a mulher olha-me e sorri sem parar as mãos, reparo que tem olhos azuis, já a estão a chamar, avisa-me, esticando o queixo para o fundo da sala. Agradeço e estugo o passo até às escadas, sem saber muito bem porque é que corro.

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Um ano e quatro meses depois

por Cristina Nobre Soares, em 26.10.18

Um ano e quatro meses depois, apesar de já haver muito verde a rebentar pelas encostas, o cinzento ainda pesa em grande parte da paisagem de Pedrógão Grande. O silêncio é agora imenso. As palavras também são um material combustível que arde depressa e com demasiada facilidade.

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Andreia

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.18

O João Guilherme fazia parte de outro grupo. Eram mais velhos do que nós, já tinham idade para frequentar o Bairro Alto. Mas, às vezes, encontrávamo-nos debaixo dos prédios dos arcos, onde o grupo dele costumava fumar charros. O João Guilherme era giro, alto, tinha cabelo preto, muito escorrido, cuja franja lhe tapava um dos olhos. Usava botas dr. Martens, como todos os que se encontravam nos arcos. Embora também houvesse os que, como eu, por não terem dinheiro, usavam botas parecidas, mas que passavam bem pelas originais. Os grupos são implacáveis, qualquer detalhe pode rapidamente desmascarar um impostor.
O João Guilherme tinha uma namorada, uma rapariga muito magra, tão magra que nem mamas tinha, de cabelo ralo, cortado pelo queixo. Chamava-se Andreia. Eram os dois muito populares e faziam alardo das suas proezas sexuais. 
No outro dia pareceu-me ver a Andreia no metro, no lugar à minha frente. Passava com o dedo indicador, que terminava numa unha de gel azul-escura, pelo ecrã do telemóvel. Como nunca levantou a cabeça entre o Campo Grande e o Saldanha, fiquei sem saber se seria mesmo ela. Caso fosse continua com o cabelo ralinho e sem mamas. E lembrei-me que o João Guilherme me ensinou desenhar árvores sem folhas, com uma caneta BIC laranja.

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Luto

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.18

Bebo o segundo café, há manhãs mais difíceis de acordar. Ao fundo, as vozes dos miúdos distraem-me do livro e ponho-me a ver quem passa, embora saiba que não passa ninguém na rua, a esta hora, e que dizer que me "ponho" a fazer o que quer que seja amarfanha qualquer ambição de tornar este texto decente. Ontem, contaram-me uma história de luto muito parecida com a minha. Tão parecida que até estávamos as duas sentadas a um canto da sala, de mãos cruzadas no colo. Falámos baixinho, na cidade parece mal falar da morte, é assunto de gente tétrica e infeliz. Na aldeia não há esse pudor, todos os seus detalhes escatológicos são possíveis e normais assuntos de conversa, do tipo de pedra que se escolhe para a campa ao detalhe de se o rosto do falecido está mais ou menos retorcido ou inchado. Ah, a carinha estava igual, teve uma morte serena, graças a Deus.
Passa um homem na rua com o cão pela trela, afinal há movimento, o café já parece começar a despertrar-me e eu volto ao livro que trouxe.

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Maus sentimentos

por Cristina Nobre Soares, em 16.10.18

Poucas coisas aproximam mais duas pessoas que a partilha de um mesmo ressentimento. Os maus sentimentos cicatrizam mal sozinhos.

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Cansaço

por Cristina Nobre Soares, em 14.10.18

O temporal partiu alguns ramos do carvalho que vive do outro lado do muro. Um deles ainda está preso por alguns fios de lenho. Bastará a ventania, que chega sempre ao fim da tarde, para que caia de vez. Ficará um ramo decepado, cuja ferida cicatrizará ao longo do Inverno. Só depois de conhecer as árvores é que comecei a notar-lhes as feridas, as cicatrizes. Antes disso, eram-me invisíveis. A ignorância poupa-nos o trabalho dos detalhes.
Arrefeceu bastante, finalmente parece uma tarde de Outono e eu arrasto o trabalho, que tenho para terminar para amanhã, no imenso cansaço que trago já há alguns dias. Tens de descansar, dizem-me. Talvez porque seja o que se deva dizer a quem está cansado. Eu sorrio por perceber que somos muito invisíveis aos olhos dos outros, mas há realmente verdades universais capazes de fazer uma boa e pouco trabalhosa conversa. Parar de vez em quando, especialmente quando se está exausto, é uma delas. E escuto com fingida atenção o episódio de quase esgotamento pelo qual passou o meu interlocutor na viragem dos seus 30 anos, estive mesmo por um fio, comenta, enquanto observo o gaio a equilibrar-se no ramo moribundo. É uma ave linda.

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Lia todos os dias horóscopo

por Cristina Nobre Soares, em 12.10.18

Lia todos os dias o horóscopo, mas só a seguir ao jantar, para ver se batia certo com o dia que passara. Isto é tudo uma grande aldrabice, dizia em voz alta. Mas, no fundo, ficava desiludida. Nunca lhe aconteciam aquelas coisas extraordinárias que prenunciavam. Mas, pensando bem, as más também não. Por isso, não se queixava. Depois arrumava a cozinha, lavava o chão, setenta e dois azulejos brancos, fora os que faziam a barra azul a contornar as bancadas, estendia a roupa, às terças e sextas a de cor, ao fim-de-semana a branca, de casa. Enquanto corria as cordas do estendal, invejava o riso dos vizinhos de cima, que se sobrepunha ao chiar das roldanas, e tentava imaginar de que signo seriam aquelas almas felizes.

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Não digam asneiras

por Cristina Nobre Soares, em 11.10.18

Nos últimos dias, tenho descoberto que para muitos homens e mulheres só a violação ( e de preferência daquela que deixa a mulher escavacada, que é para não haver dúvidas) é que merece ser discutida. Uma pessoa ser apalpada, perseguida, ouvir bocas porcas, ser assediada por alguém hierarquicamente superior, ser trancada numa sala, nem sequer é assunto, pois não havendo consumação, pode ser apenas fruto da imaginação de uma gaja mal comida. Uma pessoa ter medo de andar sozinha na rua, andar com as chaves do carro ou de casa na mão para ser mais rápido, decorar matriculas de táxis, fingir que fala ao telemóvel, fingir-se de burra, que não percebeu a boca ou avanço, pensar duas ( ou três ou quatro) no que deve ou não deve vestir, aprender a desviar-se quando alguém a aperta no autocarro, ou ainda ser ameaçada se devolve a apalpadela com um encontrão, isso é tudo neurose. Sim, daquela neurose que passa com uma bem dada.
Detesto a apologia da “coitadinha” que anda para aí misturada na luta pela igualdade, e dá-me nervos a confusão puritana que se faz entre assédio e sedução, mas, por favor, se não têm inteligência para perceber que o quanto estas coisas podem e limitam a vida de uma pessoa, o quanto isto marca, amargura, dói, façam um favor: estejam calados. Não custa nada. Aliás, se fossem mulheres (e infelizmente muitas destas almas "iluminadas" são mulheres) sabiam como o fazer com facilidade,que é coisa que uma gaja aprende desde pequenina: a ficar calada. Afinal, “faz parte”, pois uma mulher decente e bem comida “não tem ouvidos” e “uma senhora não anda a falar para aí das vergonhas que lhe acontecem”. 
Por isso façam um favor à humanidade e não digam asneiras.

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Dia mundial da saúde mental

por Cristina Nobre Soares, em 10.10.18

Hoje, diz que é o dia mundial da saúde mental. Há dias mundiais para tudo, é verdade, mas este até vem a jeito.
Falar de saúde mental ainda é um acto de coragem, daquela que rompe preconceitos. Afinal, quando não é vergonha, a doença mental é sinal de fraqueza. Por exemplo, toda a gente sabe que a depressão só chega a quem tem tempo e desocupação suficiente para isso. A quem não tem força de vontade para se levantar da cama, para se “animar”, para ganhar genica e fazer-se à vida. É coisa de gente fraca que “se deixa vencer pela vida”. É para quem pode, porque os pobres não se podem dar ao luxo de ser deprimidos. 
A doença mental ainda é um estigma. Uma vergonha.
Mas não devia ser.
A doença mental é apenas o que o nome diz: uma doença. Não se pega. Mas  pode matar: de solidão.

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