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No cabeleireiro

por Cristina Nobre Soares, em 31.08.18

A mulher ao meu lado confessa-se ao cabeleireiro. A vida é muito complicada, diz, enquanto desfia um rosário de azares e desgraças. Ele responde-lhe, não é nada, a gente é que a complica. Vou deixar-te linda, linda de morrer, promete-lhe. Sim, por favor, diz ela num fio de voz. Olham-se cúmplices, no espelho, e ela ri-se.
Os que acham que o cabeleireiro é apenas um sítio insuportável de futilidade são aqueles espectadores obcecados em descobrir os truques por detrás da magia. Tristes almas, pela vitória de nunca serem enganadas, nunca experimentarão o espanto de uma ilusão, capaz de cobrir algumas raízes incómodas.

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Raízes

por Cristina Nobre Soares, em 28.08.18

Depois de deixarem os filhos no infantário, as mulheres ficavam a conversar no pátio.Geralmente falavam dos filhos ou sobre outras pessoas da terra. Filho de fulana, neto de sicrano, que trabalha no escritório, por cima da loja que era de não sei quem, ainda é meu primo, sabes? A dada altura, talvez por estranharem o meu silêncio, olhavam para mim e diziam, com uma certa condescendência, pois, tu não és de cá. Não “ser de cá” é ser forasteiro. E desengane-se quem pensa que é uma condição que passa com o tempo. Não, é uma condição permanente, que passa de pais para filhos, pois estes, os filhos dos forasteiros continuarão a ser forasteiros e, por isso, nunca são a primeira lembrança dos que já cá estão. São filhos de alguém a quem não se conhece as raízes, o passado, a família. Logo, não são dos nossos. E acabam por crescer mais sozinhos. Há uma crueldade nos meios pequenos, de que ninguém fala. E quem o faz passa por mesquinho, por beliscar o idílio que se tem das terras pequenas, o qual foi, em grande parte construído por forasteiros de passagem, que sonham com o dia em que possam largar o peso da rotina da cidade.
É verdade que na cidade acabamos todos por ser desenraizados, mas nas terras pequenas dói mais não ter raízes.

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Saudade eterna

por Cristina Nobre Soares, em 27.08.18

Do Carlos Paião guardo poucas memórias. Tirando o ter chegado a cantarolar a “Cinderela”, que às vezes passava na rádio, ou a irritação do meu pai quando o “Playback” ganhou o Festival da Canção. E o mito urbano de que ele tinha sido enterrado ainda vivo. O pano para mangas que isso deu no liceu. 
Ontem, passados 30 anos da sua morte, foram vários murais que, merecidamente, o lembraram. Mas somos um país tramado. Só sabemos lembrar mortos. Afinal um morto é o supremo coitadinho, é realmente difícil igualar a desgraça de estar morto. Para além de que os mortos têm a virtude de não já poderem ser vaidosos. Esse pecado que tanto amofina este povinho. Morto já se pode elogiar, falar das qualidades, era um gajo formidável, uma pessoa extraordinária, um talento! Dar valor em vida é que não, que isto, já sabe, a vida é para sofrer. A morte sim, é que dá saudade, essa palavra tão portuguesa. Ainda por cima para os mortos é eterna, daquela que murcha com as flores.

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O café da aldeia

por Cristina Nobre Soares, em 25.08.18

Ao Sábado de manhã, o café da aldeia está cheio de mulheres. Vieram beber café e trouxeram os filhos. Homens, poucos. Um ou outro, às vezes, um pai viúvo que a filha trouxe para apanhar ar fresco. De semana, também são mulheres que ocupam o café, mas mais velhas, avós com os netos pequenos. Ao Sábado de tarde, depois de almoço, o mesmo café enche-se com homens, mulheres e crianças em partes iguais de género e idade. Agrupam-se por famílias. À noite, com a televisão ligada, só há homens nas mesas. Vieram ver a bola. Não há uma única mulher. Quando há, dificilmente terão vindo sozinhas, a menos que seja por motivo de urgência.
Isto a menos de cem quilómetros de Lisboa. Em 2018.

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Jorros

por Cristina Nobre Soares, em 23.08.18

Ponho a cafeteira italiana ao lume e, enquanto espero que o café suba, reparo na luz que se espalha em leque pelo chão da cozinha. Lembro-me de um livro, da Pearl Buck, que começava com a protagonista a acordar, enquanto “a luz a entrava a jorros no quarto”. Na altura, em plena adolescência, achei a imagem belíssima, tanto que todos os meus textos e composições tinham sempre, em algum sítio, luz a entrar a jorros. Hoje, acho-a um cliché, daqueles que arrancam um certo revirar de olhos. Arranjo alternativas menos óbvias, mais cruas, mais verdadeiras. Isto é o que eu digo. Mas a verdade é que, para mim, esta luz entrará sempre a jorros. É nessa palavra que penso primeiro, mas não o admito. Tenho muita vergonha dos clichés que vivem paredes meias comigo e tapo-os com as saias das conveniências. Baixo o estore, daqui a pouco vai estar um calor insuportável. Apago o lume depois do borbulhar rouco da cafeteira, continua a não me ocorrer uma alternativa para jorros e deixo-me ficar na penumbra, a beber café.

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Geografia das praias

por Cristina Nobre Soares, em 20.08.18

Para quem continua a acreditar que somos um país de fácil mobilidade social, com classes sociais de fronteiras esbatidas, basta perder um bocadinho de tempo e observar como as pessoas se distribuem nas praias. Há toda uma geografia social, com fronteiras invisíveis, mas muito bem delimitadas. Cada um sabe o seu lugar na praia. Se pertence a uma das fiadas das barraquinhas às riscas, aos chapéus de colmo, à zona da bandeira ou da antiga bola Nívea, à zona dos chapéus de sol, com ou sem vigilância, ou se fica mais afastado, já perto dos pescadores, apenas com a toalha. Se fica do lado do mar ou do lado da lagoa. Cada um sabe onde pertence. Cada um sabe até onde pode ir.

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Boas pessoas

por Cristina Nobre Soares, em 16.08.18

Uma vez contaram-me esta história: numa aldeia ou vilarejo perto de um campo de concentração nazi, cujo nome não me lembro, um homem interpelou o grupo de turistas, dizendo: Sabem?Quando eu era criança, morava ali, naquela casa. Um dia, os nazis mandaram pôr bandeiras com suásticas nas varandas. O meu pai recusou-se e por causa disso tivemos de fugir de madrugada. Todos os meus vizinhos puseram a bandeira. Mas sabem? Todos os meus vizinhos eram boas pessoas.

 

Quando eu digo que quero perceber as Le Pen e os Trump, não são as Le Pen e os Trump que eu quero perceber, esses são fáceis. São as pessoas, as tais boas pessoas que votam neles, que os seguem. E os que apenas sobrevivem pelo silêncio. Só percebendo estas pessoas é que talvez se possa evitar alguma coisa.

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Vertigem

por Cristina Nobre Soares, em 15.08.18

Naquela noite subimos ao farol, mas pelos andaimes das obras, lá em cima havia apenas o cheiro a laranjas das mãos dele, o frio do mar e a lua nova de ontem. Tens medo? Respondi que não. Aos vinte somos demasiado impacientes para ter medo. O medo precisa de um vagar que nessa idade não temos, estamos demasiado ocupados a fazer com que o tempo passe depressa. Lá em baixo chamaram por nós. Não olhes para baixo, nem para trás. Não, descansa, não olho. A maior vertigem está sempre um passo à nossa frente.

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Terminologia

por Cristina Nobre Soares, em 13.08.18

Sempre que o tema “fogos florestais” vem à tona, aproveito para aprender mais umas coisas, uma vez que dispara o número de artigos de opinião escritos por quem realmente percebe do assunto. No entanto, assalta-me sempre uma grande angústia existencial (da do género do Raul Soldado): estes especialistas escrevem para quem? Para os seus pares ou para o comum mortal, que nada percebe de floresta, que não sabe o que é um compasso, uma carga combustível, um fogo de copa, coníferas, resinosas, folhosas, perenes, calda retardante? O que será mais importante: mostrar que realmente sabe da coisa entre outros especialistas, não vão estes pensar que uma pessoa não sabe usar a terminologia técnica, ou explicar aos leigos na matéria, de uma forma simples como realmente funcionam a floresta e os fogos?
Talvez se os especialistas fizessem mais vezes isto as pessoas fossem menos permeáveis às explicações simplórias (que é uma coisa muito diferente de ser simples), marteladas e por vezes (ou muitas vezes) deturpadas e tendenciosas que correm na internet e na televisão.
Digo eu, que tenho a sorte de perceber quase tudo o que estes especialistas dizem. Mal seria, caso contrário não teria acabado o curso.

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Imaginação

por Cristina Nobre Soares, em 12.08.18

No regresso enganei-me na rua. Uma volta grande demais até onde eu queria chegar, mas não me importei. Com o engano ganhei mais uns minutos com os meus botões, uma porta azul com uns chinelos de enfiar no dedo esquecidos no degrau e um rapaz de rastas, a caminho da lavandaria, com um edredão de cetim cinzento debaixo do braço, daqueles todos acolchoados, talvez com saia de folho, quase a tocar no chão, a esconder as malas de viagem guardadas por debaixo da cama. Imaginei-o a ouvir Bob Marley, deitado em cima daquele edredão, a ter muita cautela enquanto fuma, para não pegar fogo ao terylene, Luís Alberto, apaga-me essa porcaria, que me estragas a colcha. A imaginação às vezes é uma velha preconceituosa. Mas tem um piadão.

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