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Vento

por Cristina Nobre Soares, em 31.07.18

Quando chego ao fim da rua sopra uma rajada de vento. Uma mulher carregada com sacos em cada uma das mãos, baldeia-se por causa do joelho que lhe falha e quase que se desequilibra, arre, que o demónio me ia atirando ao chão. Pousa os sacos e leva as mãos, com mais gelhas do que as que tem na cara, à cintura. É danado este vento, diz-me, mas, vá que não é do suão, filho de uma égua, esse, que dá quebranto do malvado à gente. Sorrio. Não faça pouco, não faça pouco, que eu conheço muito boa gente a quem se meteu deste quebranto quente no corpo e nunca mais perdeu o mortiço nos olhos. É um malvado que murcha a gente por dentro como faz à erva. Só é bom para as bichas se porem a sair debaixo das pedras. Só para as bichas, diz, enquanto pega nos sacos e segue caminho.

 

(E eu era capaz de ficar uma mão-cheia de horas a ouvir falar este português de ouvir contar.)

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As coisas vulgares que há na vida

por Cristina Nobre Soares, em 29.07.18

No concerto da praça há uma mulher encostada a uma árvore. Ouve o reportório com ar enjoado, talvez impaciente, daquela impaciência que se mete para dentro sem nos mexer um músculo, enquanto vai repreendendo o miúdo impaciente que está com ela. Segura-o, apertando-lhe um ombro com a mão.O cabelo mal cuidado, de raízes grisalhas misturadas com um louro crespo, de pacote, está preso com um travessão de imitação de tartaruga, que não lhe agarra os cabelos todos. Até que a vocalista do grupo começa a cantar “Chuva” da Mariza. Desencosta-se da árvore, estica o pescoço para ver mais para frente, solta o ombro do miúdo e começa a cantar de olhos fechados. Cruza o casaco de malha, preto. Tenho um igual. “As coisas vulgares que há na vida não deixam saudades. Só as lembranças que doem ou fazem sorrir.”

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As coisas como elas são

por Cristina Nobre Soares, em 26.07.18

A idade traz-nos lucidez, diz-me ao ir-se embora e enquanto tira os óculos de sol da mala, aos vinte comemos tudo o que nos põem à frente e com cara boa. Agora não, não me levam na conversa, para me pôr o coração aos pulos tem de ser alguma coisa que valha a pena. Que isso do entusiasmo é para anjinhos novos. E eu penso, enquanto ela olha para mim por detrás das lentes espelhadas, o que pode deixar o coração mais aos pulos do que a novidade de ver as coisas como elas realmente são?

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Chá verde

por Cristina Nobre Soares, em 25.07.18

Fiz um chá verde. Dantes não gostava, acho que ainda não gosto, mas fiz por me habituar, tanta coisa que uma pessoa se habitua nesta vida. Diz que faz bem à saúde, é antioxidante e tal, e o preto, especialmente o Earl Grey, que eu adoro, tira-me o sono, tanto quanto o café, diz que o verde também, mas ainda não dei por isso. As noites despertas dão cabo de mim. Invejo aquelas pessoas que dormem uma mão cheia de horas e acordam frescas como uma alface, com o raciocino lesto e simpatia a rodos. Eu, se não durmo, torno-me numa besta de cérebro dormente. Tisanas, detesto, sabem-me todas à mesma coisa, a erva seca, portanto. Há agora uns chás de hibisco que até marcham, mas com pouco entusiasmo. Mas enfim, lá fui pelo chá verde, na esperança de me tornar uma pessoa imensamente saudável e cosmopolita. Mais um bocadinho e estou tirar fotografias aos pés, esticados no sofá e calçados com meias grossas, que isto é fim de Julho, mas mais parece Fevereiro, com a chaveninha pousada nos joelhos e a publicá-las no Instagram a fazer tiradas sobre paz interior e sermos nós próprios.

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Pinhal queimado

por Cristina Nobre Soares, em 23.07.18

A estrada atravessou quase vinte minutos de pinhal queimado, de um dos incêndios de Outubro passado. Vinte minutos de fantasmas enraizados, fomos em silêncio triste, como se faz nos cemitérios, no meio dos mortos os corpos estranhos são os dos vivos. Olha, ali já não ardeu, disse a minha filha, respirámos fundo, como se faz quando um grande incómodo passa, pois não, não chegou até aqui. Já passou, adiante, ficou para trás. E falámos de outra coisa.

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Pelos cornos

por Cristina Nobre Soares, em 18.07.18

Sempre adorei ler. Era mesmo uma croma dos livros (ainda sou, mas na adolescência nota-se mais). Mas achei uma seca monumental quase todos os livros que dei nas aulas. Lia-os sempre depois e gostava. Incluindo os Maias, cujo 17 me foi dado pelos benditos cadernos Europa-América.
Digo quase todos, porque adorei os Lusíadas. Mas a minha professora de português do 9º ano era uma personagem. Falava daquilo com uma paixão tal, que Camões quase se tornou num herói para 28 adolescentes enfiados numa sala de aula de um pavilhão pré-fabricado. Era contratada. Nunca mais a vi. Disse-me uma vez, ao ver o meu ar desiludido com o 15 que dera a um texto meu, que se eu queria escrever tinha de perder o medo das palavras, que tinha de deixar de pegar nelas com as pontas dos dedos e agarrá-las à bruta. Pelos cornos, Cristina, pelos cornos.
Pena que não se perceba que a melhor pedagogia será sempre essa, da literatura à matemática: a paixão que agarra tudo pelos cornos.

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Um post um tudo-nada desiludido

por Cristina Nobre Soares, em 16.07.18

Ia começar a escrever um post um tudo-nada desiludido. E amargo. Iria usar uma personagem inventada, por aqui podemos mentir muito que ninguém dá por nada, uma amiga ou prima que nunca tive, até já tinha nome. Para que não pensassem que era sobre mim, que desabafar é uma coisa, falar sobre nós é outra completamente diferente e egocêntrica. Ia despejar o fel que não tive a coragem de despejar quando devia, sou daquelas pessoas a quem as melhores respostas ocorrem sempre depois da conversa. Ah, raios, devia ter-lhe respondido isto e aquilo, mas não, no calor da discussão só digo disparates. Também me ocorrem belíssimas respostas quando imagino as discussões, caso encontrasse a pessoa, no meio da rua, por exemplo. Tantas verdades afiadas eu lhe enfiaria pelo corpo dentro! E o meu ar frio e implacável? Que maravilha, sem titubear, sempre muito calma e alinhada, sem levar nada para casa. Sou extraordinária nas minhas discussões imaginárias.Um primor de eloquência. Nas reais, uma anedota.Resta-me, por isso, o consolo de inventar histórias com amigas e primas que nunca existiram.
Mas quando acabei de escrever este tal texto um tudo nada amargo e desiludido, pareceu-me idiota, tal como me parecem todas as minhas tiradas quando me passa a fúria. Tirando o nome que dei à personagem Maria do Céu. Ficou lindamente. Disse que era minha prima. A ver se o aproveito para outra coisa.

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Querido Outono

por Cristina Nobre Soares, em 15.07.18

Querido Outono, 
Eu adoro-te. Mas esta relação está a ficar demasiado possessiva. Vamos dar um tempo?

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Pecados

por Cristina Nobre Soares, em 11.07.18

Há três dias que não se vê o sol, o céu sempre cinzento, hoje o dia passou ensopado numa chuva morrinha. Uma miséria, este tempo.

(Falar do tempo evita-nos embaraços, não nos faz perder a pose. Por isso este foi o post possível para não ter de falar de futebol, nem emitir opinião sobre as touradas ou uma qualquer outra indignação que por aqui corra. Ou queixar-me da vida, ninguém quer ouvir lamentos, os problemas alheios têm mau hálito, fazem-nos desviar a cara, que para desgraças já bastam as nossas. Glórias também não, é melhor ficarem para nós, que a vaidade é um pecado muito grande, porque se vê. Se é para pecar deve escolher-se um pecado que não se veja, como a inveja. Até para pecar é preciso decência. Sendo assim vou ficar aqui a invejar as vossas fotografias de férias, cheias de bom tempo. Raios vos partam.)

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Esperança

por Cristina Nobre Soares, em 10.07.18

Leio que os 12 miúdos tailandeses e o treinador já estão a salvo. Ainda bem. Precisamos destas pequenas boas notícias, destes pedacinhos de humanidade para nos nortear. Que não nos iludamos, são os quase nadas que dão sentido à vidinha, que nos fazem compadecer e aproximar do que nos é estranho. A propósito dos miúdos tailandeses falei à minha filha sobre o episódio dos mineiros chilenos, ela ainda era muito pequena para se lembrar. Pediu-me que lhe contasse o que tinha acontecido e percebi que não me lembrava de quase nada. Mas contei-lhe a história do mineiro que tinha duas mulheres e que, quando ele foi resgatado, estavam cá fora as duas à espera, para ajustar contas. A minha filha riu-se, coitado, deve ter ficado com vontade de voltar para a mina. A esperança é, sem dúvida, uma criatura com um tremendo sentido de humor. Temo pelo dia em deixemos de saber rir.

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