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A minha outra ( e nova) casa aqui no Sapo blogs - Mais de 40

por Cristina Nobre Soares, em 13.06.18

Informa-se os caros visitantes deste estaminé, que também me podem visitar nesta outra casa, onde mora o projecto Mais de 40. 

 

E o que é o projecto "Mais de 40?"

Quando o Mário Pires inaugurou a exposição das Book Loving Girls pediu às retratadas que estavam presentes que dessem o seu testemunho. Todas, de uma forma de ou de outra, comentaram o quanto a sessão fotográfica com o Mário as tinha ajudado a mudar a ideia que tinham da sua própria imagem. A lidar melhor com as suas imperfeições e acima de tudo com o envelhecimento. E eu, na primeira fase dos meus 40, a aprender a lidar com o meu próprio envelhecimento, a estranhar as minhas primeiras rugas, ao mesmo tempo que começava uma nova vida e me sentia mais nova do que nunca, fiquei a pensar nisso. A pensar que o passar do tempo tem duas velocidades, a do corpo e a outra, interior, muito mais lenta. A pensar que a imagem que o espelho nos devolve não corresponde, muitas vezes, à imagem que temos de nós, que prendemos cá dentro. E a pensar que vivemos numa sociedade anti-tempo. Que a amaldiçoa a passagem do tempo, sem se lembrar que a vida é isso mesmo. E se conseguíssemos retratar a beleza da passagem do tempo? E usássemos isso para quebrar preconceitos? Perguntei eu ao Mário. Ele olhou para mim e disse, “’Bora!”. E nesse momento nasceu este projecto. Um projecto que celebra o tempo. O tempo e as mulheres.

Mais de 40

 

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Cabelo

por Cristina Nobre Soares, em 13.06.18

Deixei de esticar o cabelo. Quando era criança e saíamos para visitar alguém, a minha mãe vestia-me uma saia e a minha irmã esticava-me o cabelo com uma escova de rolo, puxando-o até eu me queixar. No fim, olhava-me ao espelho e sentia-me muito bonita, quase como a Ana Filipa, que tinha um cabelo louro, muito liso, a cair-lhe pesado e irrepreensível sobre os ombros. Depois, já adulta, continuei a esticá-lo com um daqueles ferros de alisar. Madeixa a madeixa, entre duas placas aquecidas a 180º. Várias vezes me disseram que isto queimava o cabelo todo, que o desnaturava. Terá sido um sacrifício inglório, pois bastava a humidade do ar ou que eu transpirasse, para que se revelasse o meu cabelo impostor e ondulado. Pobre cabelo, a impostora era eu. Um impostora escondida por debaixo de várias camadas mortas.

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O meu santo António

por Cristina Nobre Soares, em 12.06.18

Estarei sempre algures entre o Santo António de Lisboa, o da música que sobe com o cheiro das sardinhas pelas ruas feitas de escadas, e dos copos que se levantam na multidão para que não se entornem e o Santo António da aldeia da minha mãe, com as meninas vestidas de anjo na procissão e os foguetes a estoirarem por detrás do repique do sino, lembrando que mais logo há quermesse e arroz doce.

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Normalidade

por Cristina Nobre Soares, em 10.06.18

Estava tão feliz naquela noite, na semana antes fez planos para uma viagem, de manhã levantou-se e fez tudo como sempre, ficámos a conversar naquela tarde , foi ao supermercado como todos os dias, vinha de regresso a casa, tinha comprado roupa nova, fiz-lhe a comida preferida e jantou com apetite, perguntou se a camisa azul estava para lavar, disse que ia num instante comprar o jornal, deitou-se como todas as noites, à mesma hora de sempre, nada dizia o que iria acontecer. Sempre que alguém nos morre tentamos procurar um sinal, um presságio que nos tivesse avisado de que o fim se aproximava. Como o uivar dos cães antes da terra tremer ou o agitar dos pássaros antes da tempestade. Não é a morte que é absurda, absurda é a normalidade que a antecede.

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Conhecer um morto

por Cristina Nobre Soares, em 08.06.18

  A seguir ao tempo, os mortos devem ser dos melhores temas de conversa entre pessoas que mal se conhecem. Falar da morte é difícil, mas falar sobre os mortos é fácil. Mesmo para quem os conhecia mal, só de ouvir falar, de se cruzar uma vez. Essa única vez dá para estender o guardanapo durante algum tempo. E sem comprometimentos, porque dos mortos não se diz mal. Talvez daí o sucesso dos epitáfios no Facebook. Há sempre uma história simpática, uma boa memória. As conversas sobre os mortos são uma espécie de desgarrada sobre quem os conhecia melhor e tinha mais consideração por eles. São, na sua generalidade, conversas agradáveis, positivas e emotivas. Conhecer um morto é sempre um melhor começo de conversa do que conhecer um vivo.

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Coitada

por Cristina Nobre Soares, em 08.06.18

Do outro lado do corredor do autocarro vai sentada uma mulher obesa. Ocupa os dois lugares e leva o banco todo recostado para ter espaço para as pernas, o que fez com que o homem sentando atrás tenha tido de mudar de lugar. É só ela no espaço de quatro lugares vazios. Dormita. Por vezes ressona, parece que quase se engasga, arregala os olhos num sobressalto e volta a adormecer. Sempre que ressona a rapariga do lugar em frente, ri-se. A outra mulher que vai sentada ao lado, mais velha, repreende-a. Coitada, diz. Coitada. Repete várias vezes a palavra coitada com aquele tom de voz pesaroso que usamos quando não sabemos o que dizer. A pena salva-nos dos maus sentimentos.

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Ser fotografado

por Cristina Nobre Soares, em 07.06.18

Sermos fotografados é sempre estranho. É muito mais do que confrontarmo-nos com a nossa própria imagem. É lidar com a forma como outra pessoa nos viu, por vezes tão díspar daquela que o espelho nos devolve. É vermo-nos pelos olhos de alguém. E somos sempre mais nus, mais vulneráveis quando fora do nosso próprio corpo e das nossas verdades. No fundo, uma fotografia é a resposta à pergunta: o que pensas sobre mim?

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O tabaco mata. Ponto.

por Cristina Nobre Soares, em 03.06.18

Não conheço princesas. Nem das que fumam, nem das que nunca tocaram num cigarro. Mas conheço mães que fumam. E que não fumam. Mulheres que não querem ter filhos, que fumam. E que não fumam. Mulheres corajosas e determinadas que fumam. E que não fumam. Mulheres que têm medo da própria sombra que fumam. E que não fumam. Mulheres brilhantes que fumam. E que não fumam. Mulheres estúpidas que nem uma porta que fumam. E que não fumam.

Estabelecer uma correlação moralista para combater o tabagismo, parece-me tão mau como aquela linha de pensamento de que “uma mulher séria não tem ouvidos”. E paternalista. Seja ela a que é passado pelo anúncio, seja a que é defendida por quem rebate o estereótipo do anúncio (já li por aí um artigo que acha que em vez de princesa deveria estar "uma mulher forte").

O tabaco mata. Ponto. Acho que é só isto que uma mulher, qualquer mulher, precisa de saber. 
Sabem? As mulheres que fumam têm cérebro. As que não fumam também. Digo eu, que nunca fumei.

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Junhos frios e chuvosos

por Cristina Nobre Soares, em 01.06.18

Acho que não me lembro de um princípio de Junho tão frio. Comentei eu hoje com alguém, enquanto atravessávamos a rua para beber café e nos aconchegávamos nos casacos. Também não, respondeu-me. Ao longo do dia tentei fazer uma lista de Junhos frios. Só me lembrei dos chuvosos. Uns com alguns momentos dignos de serem recordados, outros apenas com os pés molhados dentro das sandálias. Gostamos de enumerar coisas para fazermos prova de vida. Há um consolo absurdo no pensar em factos inúteis como: dos 43 Junhos que vivi até agora, quantos é que foram chuvosos e frios? Ou quantos foram muito quentes? Paro o carro à porta de casa. Só consegui juntar meia dúzia de Junhos chuvosos. Se houve mais, esqueci-me deles. E a trivialidade salva-me.

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