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Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Apazigua-me escutar uma história absurda de tão real, o silêncio, o não saber que horas são, pentear o cabelo da minha filha, encontrar um resto de chocolate no fim do armário, o passos na gravilha, de alguém que espero, o ladrar dos cães na escuridão, o som suspenso de um carro que passa, e o deixar-me ficar a esmorecer no contorno negro, ainda morno, das árvores. Depois disto tudo o que havia antes torna-se facilmente num resto.
Sentiste falta? Pergunta uma mulher na mesa ao lado. Não sei, responde a outra, acho que foram mais saudades.
E eu penso, enquanto bebo o resto do café e reparo que ainda não é hoje que o tempo vai melhorar, que o que às vezes nos faz mesmo falta é a falta de sentir saudades.
Não gosto da canção de Israel. Fiquei desiludida por esta ter ganho. Ah, e sim, acho que a indumentária da rapariga a faz parecer a Pucka. E mesmo se eu gostasse da canção continuaria a parecer-me a Pucka.
Mas agora chego aqui ao pelourinho e parece que o que está a dar é humilhar a Netta. Que é gorda, que parece uma porca, etc, etc. (até já andam a dizer que se apropriou da cultura do Japão). Sobre isto não vou sequer perder tempo, pois não há palavras que valham a pena a esta necessidade de humilhar. Porque insultar os outros publicamente é humilhação.
Continuo a não gostar da música e a achar que a indumentária da rapariga é parecida com a da Pucka. Mesmo depois de ter percebido que a letra não é assim tão inconsequente e tem uma mensagem relacionada com o movimento #metoo.Continuo a achar que apesar de até ser uma música diferente, nada tem a ver com a do Salvador Sobral (como já vi comparada por aí). A canção do Salvador, para mim, era boa música. A canção da Netta, para mim*, não é. Ah, que também disseram que o Salvador Sobral era esquisito, parecia um maluquinho. E parecia. E às vezes parece. Mas é genial. Posso estar a ser muito obtusa, mas para mim*, a Netta não é genial. É um produto de qualquer coisa.
Ou seja, como a outra dizia: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O facto de eu achar simplesmente indecente e porco (sim, isto sim é ser-se porco) andarem a humilhar a rapariga, não torna a actuação dela melhor.Para mim* , para variar, passamos da humilhação, da selvajaria nojenta, para o paternalismo. E um dia o meio-termo será lembrado como uma atitude estranha que algumas pessoas extravagantes tomavam. Quando pensar, reflectir sobre os assuntos será uma coisa que nos parece tão estranha, como alguém se vestir com um fato da Pucka para cantar uma canção com cacarejos.
*Sim, para mim. Nada de verdades absolutas e populares. Tranquilos.
A Catarina Furtado é uma mulher lindíssima. Beleza essa que me parece ir muito para além do que se vê, até pelo tipo de projectos sociais em que ela se tem envolvido e dado a cara.
Agora sobre a polémica sobre o inglês que ela fala: para além de me parecer mais uma cruzinha posta a arder no quintal alheio, que é uma coisa que gostamos muito de fazer por aqui, sim, é realmente mauzote. Podia ser melhor? Podia. Mas, e…?
Confesso que não percebo tamanha indignação. Mas isso, cada um encanita-se com o que quer. Por exemplo, no que diz respeito à Catarina Furtado, eu encanito-me com uma coisa pequenina, que não interessa nada. Que é com o facto de, sendo ela a mais velha das 4, sendo ela uma mulher de 44, 45 anos, que o pessoal ache mais importante ela parecer tão nova quanto as outras, do que ser a referência profissional das outras 3. Ah, mas ela está tão bem para idade. Nem parece que é a mais velha. E se parecesse. Era mau? Era? E por que raio? Não deveríamos olhar para as quatro apresentadoras e dizer, caraças, as outras estão muito fresquinhas e tal, mas a Catarina, para além ser um mulherão, vê-se que anda ali há muitos anos a dar cartas (ou a virar frangos), que orgulho? Não. Pois claro que não. O que interessa é ela parecer muito mais nova e não se notar a diferença de idade relativamente às outras. E depois admiram-se que ela descure o inglês.
Faz hoje 11 anos que comecei o meu primeiro blogue. Chamava-se “O que é feito de si, Mrs Pankhurst?” O que começou por ser um blogue com pretensões libertário-feministas, depressa se tornou num blogue de histórias sobre mulheres. Na altura liam-me os meus irmãos, o meu primo Carlos e meia dúzia de amigos. Depois, um dia, apareceu por lá alguém que eu não conhecia, depois outro, mais outro. Cheguei ao fim do Verão e tinha não sei quantos seguidores (acho que não se chamavam assim). Por alguma razão fartei-me e fechei o blogue.
Voltei aos blogues depois da morte do meu pai, que a morte dos pais tem destas coisas, e nunca mais parei: “O Deserto do mundo”, “O come chocolates, pequena” e agora o “Em linha recta”. Sei que os blogues são olhados de lado, como fonte de produção de lixo, como uma coisa sem categoria. Sinceramente, estou-me nas tintas para isso. Escrever num blogue passou a fazer parte da minha rotina. As coisas que punha para dentro da gaveta passaram a estar online, qualquer pessoa (incluindo os meus irmãos e o meu primo Carlos) podia ler. E dar da sua justiça.
Conheci pessoas que ainda hoje me acompanham aqui. Como se de alguma forma fizéssemos um caminho juntas. Aprendi muito. Descobri blogues maravilhosos, de pessoas que escreviam muito bem, algumas tão bem quanto muita boa gente publicada. Apesar de ter tido alguns amargos de boca, com alguns comentários mais parvos (o que me levou a moderá-los), às vezes, no meio do ruído excessivo do Facebook, tenho saudades dos blogues. Não havia a dependência do like. E tenho ideia que havia menos remoques ressabiados. Havia muito comentário exagerado, superlativo, é verdade, mas também tive comentários que me comoveram, pela forma como as pessoas abriam a alma na caixa de comentários de alguém que nunca tinham visto na vida.
Faz hoje 11 anos que fiz umas das coisas mais espertas da minha vida: comecei um blogue.
Enquanto passo a ferro uma blusa, que convém ficar ajeitada para amanhã, lembro-me da história que me contaram hoje, sobre alguém que fazia questão de deixar a mesa de Natal posta, durante a madrugada, para que assim quem já não estivesse entre eles, quem já tivesse morrido, pudesse cear também. Fico sempre estupidamente feliz quando encontro uma história destas, o desassombro do impossível comove-me. Pensar que os espíritos se podem consolar com bolo-rei e filhoses, sentados à mesa que também já foi deles, vale mais que mil páginas de literatura, cheia de genialidade que se esganiça em busca da glória imortal da frase perfeita. Pedi que me repetisse a história, como fazia com a minha mãe, que a repetia vezes sem conta até eu senti-la a ganhar corpo por detrás dos meus olhos. Reparo que tenho o ferro quente demais para o tecido fino da blusa, ainda a queimo. Lá fora, o sino tocou nove vezes.
Para que é que isso serve? Perguntamos tantas vezes, a propósito de tudo e mais alguma coisa: da matemática, da física, da química, da gramática, dos Lusíadas, dos Maias, da ginástica, dos trabalhos manuais, do crochet, do conhecer as constelações pelo nome, do assobiar com dois dedos, do aprender turco, maori, zulu, mirandês, de que lado se põe o guardanapo e o talher de marisco. Para que é que isso serve? Que depois também se estende às pessoas, que aquele amigo serve para os copos, é um pândego, o outro é bom ter por perto, especialmente para nos passear o cão e regar as plantas, pois nunca se esquece, aquela que nos ajuda com o IRS, então, vale ouro, fora o eterno ombro amigo, que dá um jeitaço para nos lamentarmos de tudo e mais alguma coisa. Fora a amiga que nos dá sempre um toque nos textos (sim, sou eu), o que tem bons contactos, dá jeito, e ainda o que dá umas boas quecas quando não há mais ninguém no horizonte. Ah, e o amigo médico. E o advogado. Tudo tem de servir para alguma coisa. Até nós. Nada mais demolidor do que nos dizerem “És um inútil”. Como se o sentido da nossa vida se medisse na nossa utilidade, estilo aspirador ou sofá, “Ah, este senta três pessoas e o tecido repele as nódoas, enquanto faz massagem às costas”. Nem a arte se livra deste aspecto utilitário com o espectro da rentabilidade a assombrá-la. Sim, há alguma coisa mais inútil do que a arte, cuja única função é tornar-nos maiores, transcender-nos a humanidade e emocionar aquele confim de nós que nem sabíamos que tínhamos? Sim, para que é que isso serve?
Parece que não há espaço para inutilidade na nossa vidinha. Para aprender, simplesmente porque temos gosto em aprender coisas que podem nunca servir para nada. Para sermos curiosos, só por que sim. Pelo gosto da descoberta, de saber mais alguma coisa sobre o mundo.Para estar com pessoas sem préstimo nenhum para além o de tornarem as nossas vidas extraordinárias e cuja única mais-valia que nos trazem é o prazer de amá-las. A inutilidade, por vezes, faz-nos sentir maravilhosamente vivos. Que acho que é para isso que serve a existência. Que diga-se de passagem também não tem grande utilidade. É um castigo para se lhe tirar as nódoas e nem uma base para copos traz incluída.
Arrefeceu um bocadinho e fui buscar um casaco de malha. O céu está encoberto por aquela camada branca que, por aqui, é sinal do tempo ir mudar. Ao princípio de cá estar resmungava muito por causa deste clima, faziam-me falta as noites de bafo morno de Lisboa que, por serem quentes, pareciam intermináveis. Ou talvez fossem assim por naquela idade tudo nos parecer eterno. Visto o casaco de malha, vem aí uma daquelas noites de chuva morrinha. Por aqui chamam-lhe humidade, mas parece chuva, e nem as noites de Agosto lhe escapam.Não me lembro quando é fiz as pazes com o clima daqui. Um dia, as noites de Lisboa é que me pareceram estranhas. Como se nunca tivesse vivido lá e toda a minha vida tivesse sido deste Verão frio e cinzento. Talvez seja isto a que chamam fazer as pazes.
Não desprezo os invejosos, pois todos somos invejosos. Mesmo quando andamos convencidos que somos poços de generosidade e que só nos assalta “inveja da boa”. Todos já sentimos inveja, daquela mesquinha, reles, uma lavadura de bons sentimentos que nos deixa todas as pregas do corpo a cheirar a azedo. A inveja faz parte da nossa insignificância, é a vida. Mas desprezo os invejosos com falta de imaginação. Os espelhos de feira, os macacos de imitação que copiam a primeira coisa que lhes aparece por meia dúzia de amendoins. Até para ser invejoso é preciso ter estilo, senhores. Não é para todos.
E que as mães imperfeitas, as que só souberam fazer o melhor que sabiam, mesmo sabendo que esse melhor nunca seria suficiente, as mães com dúvidas, as mães com medo, que raramente foram coragem, as mães que nunca ficaram bem na fotografia, que nunca foram bonitas, as cansadas, as ausentes, as mais amarguradas, as que se desesperaram,que disseram o que não deviam, as que se sentiram egoístas, e que foram egoístas tantas vezes, as que só quiseram silêncio, as que tiveram de construir um instinto que nunca chegou, as que quiseram outra vida, as que se sentiram culpadas, apontadas, as que foram humanas, daquele humano fraco, flácido e mediano, envergonhado, esquecido ao canto mais cinzento da sala, também tenham tido um bom dia da mãe.
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